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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Vasco Graça Moura-Lamento para a língua portuguesa

Para homenagear o dia de nascimento de Vasco Graça Moura (3/1/1942), e, ao mesmo tempo, a língua portuguesa, pela qual lutou como ninguém, deixo este longo poema que é, também, uma obra de arte.
LAMENTO PARA A LÍNGUA PORTUGUESA, poema de Vasco Graça Moura
não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia a dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
em que, por nos perdermos, te perdias.
neste turvo presente tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
da violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tempos de ignomínia mais feliz
e o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de seres de vastos, vários e distantes
mundos que serves mal nos degradantes
modos de nós contigo. nem o grito
da vida e do poema são bastantes,
por ser devido a um outro e duro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste. eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

sábado, 13 de setembro de 2014

Natália Correia, Ode à Paz



Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
pelas aves que voam no olhar de uma criança,
pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,

pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
pelos aromas maduros de suaves outonos,
pela futura manhã dos grandes transparentes,
pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
abre as portas da História,
deixa passar a Vida!


NATÁLIA CORREIA (13/9/1923 – 16/3/1993)

Em “ Inéditos”

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, "Viver..."



Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais… A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino…

Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

(13/6/1888 – 30/11/1935)

sábado, 30 de novembro de 2013

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro, "É talvez o último dia da minha vida"



É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.

30/11/1935

in Poemas Inconjuntos 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Fernando Pessoa/ Ricardo Reis, "Não só quem nos odeia ou nos inveja"



Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses.

Fernando Pessoa/ Ricardo Reis, Odes

(13/06/1888 – 30/11/1935)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Agustina Bessa-Luís, 90.º aniversário



Neste dia de aniversário de Agustina Bessa-Luís, e para o assinalar, escolhi um excerto que vem ao encontro do que escrevi ou mencionei, no outro blogue, sobre algum do jornalismo que nos é servido e que, pura e simplesmente, não levo a sério.

«”Para o jornalista, tudo o que é provável é verdade”. Trata-se dum axioma estupendo, como tudo o que Balzac inventa. Reflectindo nele, nós percebemos quantas falsidades se explicam e quantas arranhadelas na sensibilidade se resumem a fanfarronices e não a conhecimento dos factos. Em geral, o pequeno jornalista é um profeta da imprensa no que toca a banalidades, e um imprudente no que se refere a coisas sérias. Quando Balzac refere que a crítica só serve para fazer viver o crítico, isto estende-se a muitas outras tendências do jornalista: o folhetinista, que é o que Camilo fazia nas gazetas do Porto (...). Eu própria não estou isenta duma soma de articulismos, de recursos à blague, de graças adaptáveis, de frequentação do lado mau da imaginação, de ridículos, de fastidiosos conselhos, de discursos convencionais, de condenações fáceis, de birras imbecis, de poesia de barbeiro, de elegâncias chatas, de canibalismo vulgar, de panfletismo “bom cidadão”. Quando não sou nada disso, sou assunto para jornais, mas não sou jornalista.»

Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Luiza Neto Jorge: A Magnólia


A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria – na metáfora –
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade.

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luiza Neto Jorge [10/5/1939 - 23/2/1989]

(Desenho por José Escada)

quarta-feira, 21 de março de 2012

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Herberto Helder, "Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos"


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado em cada espelho.
O próprio movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando entre o mar fotográfico
e côncavo e as paredes com as pérolas afundadas.
E a lua desencadeia nas grutas o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio que soprou nos estúdios cavados.
É a cólera que me leva aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante os eclipses.
Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me na candura.
Fica, fria, esta rede de jardins diante dos incêndios.
E uma criança dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.


Herberto Helder (nasceu a 23/11/1930)
 
in Cobra, Poesia Toda, Assírio & Alvim, 1979


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Natália Correia - Insónia (homenagem em dia de aniversário)

Insónia. Abro a janela. Esvaimento
No abismo da solidão estrelada.
É inquietante a paz e um sentimento
De hora nenhuma vai da lua ao nada.

Tem nisto um deus sinistro o instrumento
De submeter-me em morte figurada?
Silêncio astral. Estático tormento
No eterno insone que inspira a hora parada

Suga-me o sangue um polvo agonizante.
Marginam o pensamento delirante
Espectros de prostitutas na avenida.

Pesam as pálpebras. Apodrece a ideia
De adormecer. O dia já clareia
Num galho tenro da árvore da vida.

Natália Correia (13/09/1923-16/03/1993)

Em Poesia Completa, Dom Quixote, Lisboa, 1999

domingo, 11 de setembro de 2011

Antero de Quental - "A uma amiga" (18/04/1842 - 11/09/1891)

Aqueles, que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo…
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que à noite evoca o sentimento…

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos… que eu invejo…
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela Primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa…
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel – tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes…
Para ver o meu mal… e escarnecê-lo!

Antero de Quental, Sonetos Completos, Europa-América


quarta-feira, 15 de junho de 2011

José de Almada Negreiros - Encontro

Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá pró futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

José de Almada Negreiros (7/04/1893 - 15/06/1970)

Em José de Almada Negreiros, Poemas, Assírio & Alvim, 2001, p. 165/6

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Al Berto - "Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida"

No dia em que o poeta Al Berto completaria 63 anos (11/01/1948-13/06/1997), um poema dito pelo próprio, com fundo musical de  Rodrigo Leão. Sugiro também a leitura de um texto  de Teresa Sá Couto, de 2/01/2009, na Orgia Literária, sobre o livro "O Medo" publicado pela Assírio & Alvim, em 2000.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

John Lennon (09/10/1940 - 08/12/1980)

Para assinalar o 30.º aniversário do assassinato de John Lennon escolhi alguns temas e vídeos e cuja sequência fazem algum sentido para mim.
Do primeiro tema, "Happy Christmas (War is over)", queria apresentar dois vídeos porque, infelizmente, a realidade não é sempre tão apaziguadora como a que podemos sentir naquele que publico e, por isso, haveria que mostrar o lado da guerra que, afinal, ainda não acabou, mas esse tem o código desactivado, talvez por ter imagens que  podem ferir a sensibilidade de algumas pessoas, mas que são reais e vão continuar a sê-lo, porque a barbárie e as tragédias não acabarão enquanto o Homem existir, e cujo código curto é este: http://www.youtube.com/watch?v=s8jw-ifqwkM .
Depois pareceram-me adequados os temas "Come Together" e a sua versão de "Stand by me", talvez como votos para o futuro.



 



terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fernando Pessoa - 75.º aniversário da sua morte (homenagem)

A minha homenagem de hoje, a Fernando Pessoa, não será feita através de um poema ou de qualquer outro texto dele ou dos seus heterónimos ou do semi-heterónimo Bernardo Soares, que poderão ser lidos em qualquer dos blogues dada a atenção que me têm merecido, mas através de um fado cantado por Ana Moura, e cujo vídeo tenta retratar uma viagem imaginária de Fernando Pessoa desde o Chiado, em Lisboa, até à cidade de Nova Iorque, e daí o seu título: Fernando Pessoa @ NY (en)cantado por Ana Moura. Espero que constitua uma bela surpresa para os apreciadores de Pessoa, quanto o foi para mim.



Quadro de Fernando Pessoa por João Ricardo

"Fado de Pessoa":
Letra de João Pedro Pais
Álbum de Ana Moura - "Aconteceu" (2004)
Vídeo produzido por Ricardo Cobra em 2007

Fernando Pessoa (13/06/1888 - 30/11/1935)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

José Saramago - 88.º aniversário de nascimento (homenagem através de excerto de O Evangelho segundo Jesus Cristo)

«Disse Deus, Haverá uma Igreja, que, como sabes, quer dizer assembleia, uma sociedade religiosa que tu fundarás, ou em teu nome será fundada, o que é mais ou menos o mesmo se nos ativermos ao que importa, e essa Igreja espalhar-se-á pelo mundo até a confins que ainda estão por conhecer, chamar-se-á católica porque será universal, o que, infelizmente, não evitará desavenças e dissensões entre os que te terão como referência espiritual, mais, como já te disse, do que a mim próprio, mas isso será apenas por algum tempo, só uns milhares de anos, porque eu já era antes que tu fosses e sempre o hei-de ser depois que tu deixes de ser o que és e o que serás, Fala claro, interrompeu Jesus, Não é possível, disse Deus, as palavras dos homens são como sombras, e as sombras nunca saberiam explicar a luz, entre elas e a luz está e interpõe-se o corpo opaco que as faz nascer, Perguntei-te pelo futuro, É do futuro que estou a falar, O que quero que me digas é como viverão os homens que depois de mim vierem, Referes-te aos que te seguirem, Sim, se serão mais felizes, Mais felizes, o que se chama felizes não direi, mas terão a esperança duma felicidade lá no céu onde eu eternamente vivo, portanto a esperança de viverem eternamente comigo, Nada mais, Parece-te pouco, viver com Deus, Pouco, muito ou tudo, só se virá a saber depois do juízo final, quando julgares os homens pelo bem e mal que tiverem feito, por enquanto vives sozinho no céu, Tenho os meus anjos e os meus arcanjos, Faltam-te os homens, Pois faltam, e para que eles venham a mim é que tu serás crucificado, Quero saber mais, disse Jesus quase com violência, como se quisesse afastar a imagem que de si mesmo se lhe representara, suspenso de uma cruz, ensanguentado, morto, Quero saber como chegarão as pessoas a crer em mim e a seguir-me, não me digas que será suficiente o que eu lhes disser, não me digas que bastará o que em meu nome disserem depois de mim os que em mim já creiam, dou-te um exemplo, os gentios e os romanos, que têm outros deuses, quererás tu dizer-me que, sem mais nem menos, os trocarão por mim, Por ti não, por mim, Por ti ou por mim, tu próprio dizes que é o mesmo, não joguemos com as palavras, responde à minha pergunta, Quem tiver a fé virá a nós, Assim, sem mais nada, tão simplesmente como acabas de o dizer, Os outros deuses resistirão, E tu lutarás contra eles, por certo, Que disparate, tudo quanto acontece, é na terra que acontece, o céu é eterno e pacífico, o destino dos homens cumprem-no os homens onde estiverem, Dizendo as coisas por claro, mesmo sendo as palavras sombras, vão morrer homens por ti e por mim, Os homens sempre morreram pelos deuses, até por falsos e mentirosos deuses, Podem os deuses mentir, Eles podem, E tu és, de todos, o único e verdadeiro, Único e verdadeiro, sim, E, sendo verdadeiro e único, nem por isso podes evitar que os homens morram por ti, eles que deviam ter nascido para viver para ti, na terra, quero dizer, não no céu, onde não terás, para lhes dar, nenhuma das alegrias da vida. […]»

O Evangelho segundo Jesus Cristo, Editorial Caminho, Lisboa, 1991, pp. 379/80

José Saramago (16/11/1922 - 18/06/2010)