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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eugénio de Andrade - "Aproxima a boca"

Aproxima a boca da nascente:
não te importes
se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
como os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.

Eugénio de Andrade, em O Sal da Língua

domingo, 30 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Falas de civilização, e de não dever ser..."

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que, se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que, se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Eufrázio Filipe - "Sombras Vertebradas"

Já os cães tinham ladrado tudo
quando os pássaros se recolheram
em coro nos jacarandás
e tu chegavas alada
da ciranda
para repousar no parapeito
da minha janela

Aqui tão perto ressoavam
os meus silêncios preferidos
nas marés desgrenhadas

os teus olhos de púrpura
recolhidos em ânforas
numa feira de barro

para ficares mais leve de palavras

Sereníssima afloraste o velho alaúde

mas foi da escarpa onde te vejo
que nunca saberei quem és
a projectar réstias de sol
nas sombras vertebradas

que movem os teus dedos

Eufrázio Filipe

Sombras Vertebradas, em Mar Arável

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Eugénio de Andrade - "Nada"

Nada, nem sequer o Verão
está completo. Menos ainda o colar
de sílabas que, desvelado,
te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca 
te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
ao sol que declina, à estrela
do norte que sabemos no fim.
O privilégio da vida é este
silêncio musical que do teu olhar
cai nos meus olhos
e regressa a ti acrescentado
pela luz da manhã varrendo o mar.

Eugénio de Andrade

(19/01/1923-13/06/2005)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa / Ricardo Reis "São plácidas todas as horas que nós perdemos"

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...

À beira-rio,
À beira-estrada, 
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos, 
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos 
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Odes/ Ricardo Reis

(Na imagem: Fernando Pessoa desenhado por Almada Negreiros)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Al Berto - "Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida"

No dia em que o poeta Al Berto completaria 63 anos (11/01/1948-13/06/1997), um poema dito pelo próprio, com fundo musical de  Rodrigo Leão. Sugiro também a leitura de um texto  de Teresa Sá Couto, de 2/01/2009, na Orgia Literária, sobre o livro "O Medo" publicado pela Assírio & Alvim, em 2000.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Rodrigo Leão - Herberto Helder / Minha cabeça estremece...



Herberto Helder, «Poemacto II: Minha cabeça estremece com todo o esquecimento», 1961
Rodrigo Leão & Gabriel Gomes, «"Os Poetas": Entre nós e as palavras», 1997

domingo, 19 de dezembro de 2010

Mário de Sá-Carneiro - "Dispersão"

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família)

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada.
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim, 
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

... ... ... ... ... ... ... ... ...
(1914)

Em Poesias Completas de Mário de Sá-Carneiro, Colecção Clássicos Anagrama, Porto, 1983(?)

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa/ Ricardo Reis - "Cura de ser quem és"

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada de pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.

Odes/ Ricardo Reis

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - Talvez quem vê bem não sirva para sentir

Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.

Alberto Caeiro/ O Pastor Amoroso

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fernando Pessoa - 75.º aniversário da sua morte (homenagem)

A minha homenagem de hoje, a Fernando Pessoa, não será feita através de um poema ou de qualquer outro texto dele ou dos seus heterónimos ou do semi-heterónimo Bernardo Soares, que poderão ser lidos em qualquer dos blogues dada a atenção que me têm merecido, mas através de um fado cantado por Ana Moura, e cujo vídeo tenta retratar uma viagem imaginária de Fernando Pessoa desde o Chiado, em Lisboa, até à cidade de Nova Iorque, e daí o seu título: Fernando Pessoa @ NY (en)cantado por Ana Moura. Espero que constitua uma bela surpresa para os apreciadores de Pessoa, quanto o foi para mim.



Quadro de Fernando Pessoa por João Ricardo

"Fado de Pessoa":
Letra de João Pedro Pais
Álbum de Ana Moura - "Aconteceu" (2004)
Vídeo produzido por Ricardo Cobra em 2007

Fernando Pessoa (13/06/1888 - 30/11/1935)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

2.º Congresso Internacional Fernando Pessoa e Revista PESSOA

Eduardo Lourenço, Teresa Rita Lopes, Caetano Veloso e João Botelho são alguns dos colaboradores do primeiro número da revista PESSOA, a ser lançada no 2.º Congresso Internacional Fernando Pessoa, no Teatro Aberto, em Lisboa, entre 23 e 25 de Novembro. A edição bilingue e trimestral promete dar lugar ao ensaio e à poesia. De acordo com a Directora da Casa Fernando Pessoa, “falta a Portugal uma revista de ensaio, que exceda os compartimentos da indagação literária – ensaio é experimentação, risco, excesso. A obra de Fernando Pessoa é isso: uma obra contaminada e contaminável, sem medo de cruzar e misturar fronteiras. Esta revista procura cumprir o desígnio desbravador dessa obra”. Aos ensaios publicados neste primeiro número da revista PESSOA junta-se um conjunto de poemas inéditos de Ana Luísa Amaral e Maria Lúcia Dal Farra, bem como portefólios de José David, Jorge Colombo e Graça Morais. Destaque ainda para a divulgação do Filme do Desassossego de João Botelho, e da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa, agora também online pela mão de Jerónimo Pizarro, Patrício Ferrari e Antonio Cardiello. A nova edição da Casa Fernando Pessoa conta ainda, no Conselho Editorial, com Fernando Cabral Martins, Fernando J. B. Martinho, Perfecto E. Cuadrado ou Richard Zenith, entre outros. Uma revista que é também, garante Inês Pedrosa, um “convite ao Desassossego”.
Também AQUI

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eugénio de Andrade - "Adeus"


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
 
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
 
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade (1923-2005)


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Fernando Pessoa / Ricardo Reis - "Cada um cumpre o destino que lhe cumpre"

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre,
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Odes / Ricardo Reis

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ary dos Santos - "Estrela da Tarde"

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!









Nota: Já tinha publicado no blogue Restolhando este poema "Estrela da Tarde", de José Carlos Ary dos Santos, mas integrado no texto que escrevi a 09/10/2010 sobre Domestic Violence Awareness Month //Bloggers Unite, e pareceu-me que merecia uma publicação individual. Para os que me visitam, de outros países, acrescentarei que este poema tem sido muito difundido na voz de Carlos do Carmo com música de Fernando Tordo. Uma das versões pode ser ouvida aqui.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ainda Francisco Ribeiro - Desiderata

O trabalho que Francisco Ribeiro nos deixou,  depois de mais de uma década de reflexão e de procura de respostas para as suas interrogações, a que deu o título DESIDERATA, inspira-se num texto com o mesmo nome, atribuído a Max Ehrmann (1872-1945) e que aqui deixo em versão portuguesa:

DESIDERATA

Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa,
lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível sem humilhar-se,
mantenha-se em harmonia com todos os que o cercam.
Fale a sua verdade, clara e mansamente.
Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história.
Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.
Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo.
Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar.
Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja,
ele é um verdadeiro tesouro na contínua mudança dos tempos.
Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas.
Mas não fique cego para o bem que sempre existe.
Em toda a parte, a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo.
Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira,
pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.
Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos
e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.
Cultive a força do espírito e você estará preparado
para enfrentar as surpresas da sorte adversa.
Não se desespere com perigos imaginários:
muitos temores têm a sua origem no cansaço e na solidão.
Ao lado de uma sadia disciplina conserve,
para consigo mesmo, uma imensa bondade.
Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores,
você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber,
a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.
Procure, pois, estar em paz com Deus,
seja qual for o nome que você lhe der.
No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida,
conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz.
Acima de toda a mesquinhez, falsidade e desengano,
o mundo ainda é bonito.
Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz
e partilhe com os outros a sua felicidade.


DESIDERATA – Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração. Este texto é atribuído a Max Ehrmann (1872-1945) e foi registado pela primeira vez, por ele, em 1927.
Hoje em dia é do domínio público.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Quem ama é diferente de quem é"

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de que é
É a mesma pessoa sem ninguém.


O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Quando eu não te tinha"

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

sábado, 21 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Amar é pensar"

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro