domingo, 3 de fevereiro de 2008

O dia duplamente triste: 1 de Fevereiro de 2008

Quando no passado dia 1 de Fevereiro não houve acordo parlamentar para aprovação de um voto de pesar pelo assassínio de um Chefe do Estado Português perpetrado no mesmo dia em 1908, Rei ou Presidente é indiferente ao caso, ocorreu-me a afirmação do Fausto de Goethe: "Aquilo que de teus pais herdaste/Merece-o para que o possuas" ("Was du ererbt von deinen Vätern hast/Erwirb es um es zu besitzen").
Goethe disse também que ser elitista significa ser respeitador: respeitador do divino, da natureza, dos nossos congéneres seres humanos e, assim, da nossa própria dignidade humana.
Aqueles parlamentares, infelizmente, não constituem qualquer elite, no sentido de Goethe, nem possuem a herança que os nossos pais deixaram porque não a merecem. A ignorância venceu uma vez mais.
George Steiner, nosso contemporâneo, já se apercebeu do caminho que levamos ao afirmar que este é um "período de fascismo da vulgaridade", de "economia do conhecimento", e em que "o conhecimento cultural e a reflexão filosófico-cultural estão a debilitar-se, ou mesmo a tornar-se impossíveis, mais frequentemente do que nos apercebemos".
Triste. Triste.
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Quem somos e o que queremos?

O que se convencionou designar por "características dos portugueses" (a inveja destrutiva, a mesquinhez, a desconfiança, a aversão à mudança, ao planeamento e ao rigor, a esperteza saloia, o preconceito, a ausência de iniciativa, o fatalismo, a autocomiseração, o provincianismo, etc.) estarão impressas no nosso código genético? Ou não passarão de falhas no nosso carácter originadas pelo modo como fomos "educados" ao longo dos séculos, e que podem ser alteradas?
Vejamos o que disse Antero de Quental numa conferência, em 1871, publicada no livro Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, pela Ulmeiro, 1982, 4ª edição, colecção Oitocentos anos de História:
Na página 27 podemos ler:
"A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência. Foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos."
E nas páginas 66 e 67 lê-se:
"Fomos os Portugueses intolerantes e fanáticos dos séculos XVI, XVII e XVIII, somos agora os Portugueses indiferentes do século XIX. Por outro lado, se o poder absoluto da monarquia acabou, persiste a inércia política das populações, a necessidade (e o gosto talvez) de que as governem... Entre o senhor rei de então e os senhores influentes de hoje, não há tão grande diferença: para o povo é sempre a mesma servidão. Éramos mandados, somos agora governados: os dois termos quase que se equivalem. Se a velha monarquia desapareceu, conservou-se o velho espírito monárquico: é quanto basta para não estarmos muito melhor do que os nossos avós. Finalmente, do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um invencíval horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias da nossa fidalguia. Por isso as melhores indústrias nacionais estão nas mãos dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, e se riem das nossas pretensões. Contra o trabalho manual, sobretudo, é que é universal o preconceito: parece-nos um símbolo servil! Por ele sobem as classes democráticas em todo o mundo, e se engrandecem as nações; nós preferimos ser uma aristocracia de pobres ociosos, a ser uma democracia próspera de trabalhadores. É o fruto que colhemos duma educação secular de tradições guerreiras e enfáticas!
Dessa educação, que a nós mesmos demos durante três séculos, provêm todos os nossos males presentes. As raízes do passado rebentam por todos os lados no nosso solo: rebentam sob a forma de sentimentos, de hábitos, de preconceitos. Gememos sob o peso dos erros históricos. A nossa fatalidade é a nossa história.
Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? para entramos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós, memoriemos piedosamente os actos deles, mas não os imitemos.... A esse espírito mortal oponhamos francamente o espírito moderno....."
Agora, em 2008, 137 anos depois de Antero ter proferido esta palestra, que já englobava 300 anos de História, olhemo-nos ao espelho e tentemos ver se, e em que, mudámos entretanto. Para nos ajudar a ver a imagem com maior nitidez podemos socorrer-nos dos diversos debates radiofónicos que se fazem diariamente e em que os ouvintes opinam sobre temas propostos. Mudámos, ou mantivemos os traços psicológicos? Apesar do progresso tecnológico, continuamos ou não de braço dado com a mediocridade e a ignorância?
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segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natais

Não suportando o Natal comercial e não estando na minha natureza seguir ideias e atitudes "de rebanho", há muitos anos que voltei ao essencial deste período - O Aniversariante. Esta atitude de despojamento, frugalidade, silêncio, serenidade, permite aceder, de modo claro e sem desvios, ao motivo da celebração. Por isso, nada de presentes, nada de luzes distractivas, nada de ceias e almoços "obscenos", que O Aniversariante nunca teve. Se o motivo da celebração é O Aniversariante e nós somos convidados, os presentes são de outra natureza.
Claro que esta atitude tem consequências. Não se fazem "amigos" quando a estes só lhes interessa o "ter" e não o "Ser". A família incomoda-se por não apreciarem nem o trabalho nem o preço das suas futilidades e desistem de nós mais facilmente do que do pinheiro depois das festividades. Deixá-los. Ficam com o "stress", endividados, mais gordos e doentes, sem agradarem a ninguém e vazios eles próprios, mesmo que não se apercebam disso.
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