terça-feira, 6 de maio de 2008

John Gray (sugestão de leitura)

Os que gostam de ser surpreendidos, desafiados, desassossegados intelectualmente, podem ler SOBRE HUMANOS E OUTROS ANIMAIS, de John Gray, Ed. Lua de Papel, 2007.
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Para satisfazer muitos pedidos, aqui ficam alguns excertos desta obra:

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Página 52 - "Se acreditarmos que os seres humanos são animais, não poderemos admitir a existência de qualquer coisa que se assemelhe a uma história da humanidade, mas apenas a das vidas dos seres humanos particulares."
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Página 99 - "Não somos autores das nossas vidas; não somos sequer autores parciais dos acontecimentos que nos marcam mais profundamente. Quase tudo o que é de importância maior nas nossas vidas é não-escolhido. O tempo e o lugar em que nascemos, os nossos pais, a primeira língua que falamos: todas estas circunstâncias são fruto do acaso e não de uma escolha."
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Página 132 - "Um jardim zoológico é uma janela mais adequada do que um mosteiro para quem queira contemplar a vida humana."
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Página 149 - "Na pré-história evolutiva, a consciência aparece como um efeito secundário da linguagem. Hoje, é um subproduto dos média."
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Página 150 - "Hoje todos somos modernizadores. Não fazemos ideia do que significa ser-se moderno, mas temos a certeza de que essa qualidade nos garante um futuro."................."Os campos de extermínio são tão modernos como a cirurgia a laser."
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Página 168 - "Procurar um sentido na vida talvez seja útil como terapia, mas nada tem a ver com a vida do espírito. A vida espiritual não implica uma busca de sentido, mas uma libertação dessa busca."

sábado, 19 de abril de 2008

Esta Língua que nos divide

Pressupostos:
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O conhecimento serve para a prática humana, directa ou indirectamente, e a relação do conhecimento com a prática opera-se pela linguagem. A linguagem, em unidade com o pensamento, contém em si e fixa a experiência e o saber das gerações passadas. A linguagem influencia o nosso modo de percepção da realidade, ou seja, é um reflexo específico da realidade e, ao mesmo tempo, é criadora da nossa imagem do mundo. Enquanto não for modificado o sistema categorial e gramatical de uma língua, esta define um modo determinado da percepção da realidade pelos membros do mesmo grupo linguístico.
Apesar de conservadoras, as línguas não são imutáveis. Sofrem modificações constantes, não só devido às mudanças na vida social, como aos contactos com as culturas estrangeiras, enriquecendo o seu léxico. O progresso da civilização, que implica um progresso nos contactos entre as culturas humanas, age progressivamente sobre o nivelamento das diferenças entre os aparelhos conceptuais das diferentes línguas, embora menos sobre a gramática e os seus elementos representativos e afectivos.
A educação, que é sempre uma educação social concreta num meio-ambiente e num grupo social determinado, transmite ao indivíduo humano o saber social acumulado, não só sob a forma da linguagem, na sua unidade com o pensamento, mas também sob a forma dos sistemas de valores e, por consequência, dos estereotipos dos comportamentos humanos.
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A reforma da língua portuguesa:
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1) As alterações acordadas ao modo como se escrevem algumas palavras em Portugal, não afectando o seu significado nem, em princípio, o nosso modo de percepção da realidade, afectam a representação mental que cada um tem das palavras e tudo o que isso implica. Quem, ao ler um texto na língua escrita no Brasil, sinta agonia, irritação, alergia cutânea, provavelmente nunca conseguirá escrever desse modo sem ficar doente, porque também é uma questão de estética, de bom senso e de bom gosto. Mais facilmente utilizariam a língua franca actual.
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2) Se a língua portuguesa se formou com base no latim, como todas as línguas indo-europeias, e atravessou diversas fases até à sua fixação actual (romance, galaico-português, etc.), e ao ser exportada para o Brasil, onde sofreu modificações contínuas num processo de "corte e costura criativo" até já não haver praticamente relação com a língua que lhe deu origem, o latim, onde encontramos o porquê da necessidade de alguns "c" e "p" mudos, é de língua portuguesa que ainda estamos a tratar?
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Vamos suspender a evolução natural e criteriosa da ortografia de uma língua culta europeia, que é criadora e reflexo da nossa mundividência específica, e trocá-la pela de outro país por decisão política?
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(Bibliografia: Adam Schaff, Linguagem e Conhecimento, Livraria Almedina, 1974)
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domingo, 3 de fevereiro de 2008

O dia duplamente triste: 1 de Fevereiro de 2008

Quando no passado dia 1 de Fevereiro não houve acordo parlamentar para aprovação de um voto de pesar pelo assassínio de um Chefe do Estado Português perpetrado no mesmo dia em 1908, Rei ou Presidente é indiferente ao caso, ocorreu-me a afirmação do Fausto de Goethe: "Aquilo que de teus pais herdaste/Merece-o para que o possuas" ("Was du ererbt von deinen Vätern hast/Erwirb es um es zu besitzen").
Goethe disse também que ser elitista significa ser respeitador: respeitador do divino, da natureza, dos nossos congéneres seres humanos e, assim, da nossa própria dignidade humana.
Aqueles parlamentares, infelizmente, não constituem qualquer elite, no sentido de Goethe, nem possuem a herança que os nossos pais deixaram porque não a merecem. A ignorância venceu uma vez mais.
George Steiner, nosso contemporâneo, já se apercebeu do caminho que levamos ao afirmar que este é um "período de fascismo da vulgaridade", de "economia do conhecimento", e em que "o conhecimento cultural e a reflexão filosófico-cultural estão a debilitar-se, ou mesmo a tornar-se impossíveis, mais frequentemente do que nos apercebemos".
Triste. Triste.
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Quem somos e o que queremos?

O que se convencionou designar por "características dos portugueses" (a inveja destrutiva, a mesquinhez, a desconfiança, a aversão à mudança, ao planeamento e ao rigor, a esperteza saloia, o preconceito, a ausência de iniciativa, o fatalismo, a autocomiseração, o provincianismo, etc.) estarão impressas no nosso código genético? Ou não passarão de falhas no nosso carácter originadas pelo modo como fomos "educados" ao longo dos séculos, e que podem ser alteradas?
Vejamos o que disse Antero de Quental numa conferência, em 1871, publicada no livro Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, pela Ulmeiro, 1982, 4ª edição, colecção Oitocentos anos de História:
Na página 27 podemos ler:
"A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência. Foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos."
E nas páginas 66 e 67 lê-se:
"Fomos os Portugueses intolerantes e fanáticos dos séculos XVI, XVII e XVIII, somos agora os Portugueses indiferentes do século XIX. Por outro lado, se o poder absoluto da monarquia acabou, persiste a inércia política das populações, a necessidade (e o gosto talvez) de que as governem... Entre o senhor rei de então e os senhores influentes de hoje, não há tão grande diferença: para o povo é sempre a mesma servidão. Éramos mandados, somos agora governados: os dois termos quase que se equivalem. Se a velha monarquia desapareceu, conservou-se o velho espírito monárquico: é quanto basta para não estarmos muito melhor do que os nossos avós. Finalmente, do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um invencíval horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias da nossa fidalguia. Por isso as melhores indústrias nacionais estão nas mãos dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, e se riem das nossas pretensões. Contra o trabalho manual, sobretudo, é que é universal o preconceito: parece-nos um símbolo servil! Por ele sobem as classes democráticas em todo o mundo, e se engrandecem as nações; nós preferimos ser uma aristocracia de pobres ociosos, a ser uma democracia próspera de trabalhadores. É o fruto que colhemos duma educação secular de tradições guerreiras e enfáticas!
Dessa educação, que a nós mesmos demos durante três séculos, provêm todos os nossos males presentes. As raízes do passado rebentam por todos os lados no nosso solo: rebentam sob a forma de sentimentos, de hábitos, de preconceitos. Gememos sob o peso dos erros históricos. A nossa fatalidade é a nossa história.
Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? para entramos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós, memoriemos piedosamente os actos deles, mas não os imitemos.... A esse espírito mortal oponhamos francamente o espírito moderno....."
Agora, em 2008, 137 anos depois de Antero ter proferido esta palestra, que já englobava 300 anos de História, olhemo-nos ao espelho e tentemos ver se, e em que, mudámos entretanto. Para nos ajudar a ver a imagem com maior nitidez podemos socorrer-nos dos diversos debates radiofónicos que se fazem diariamente e em que os ouvintes opinam sobre temas propostos. Mudámos, ou mantivemos os traços psicológicos? Apesar do progresso tecnológico, continuamos ou não de braço dado com a mediocridade e a ignorância?
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segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natais

Não suportando o Natal comercial e não estando na minha natureza seguir ideias e atitudes "de rebanho", há muitos anos que voltei ao essencial deste período - O Aniversariante. Esta atitude de despojamento, frugalidade, silêncio, serenidade, permite aceder, de modo claro e sem desvios, ao motivo da celebração. Por isso, nada de presentes, nada de luzes distractivas, nada de ceias e almoços "obscenos", que O Aniversariante nunca teve. Se o motivo da celebração é O Aniversariante e nós somos convidados, os presentes são de outra natureza.
Claro que esta atitude tem consequências. Não se fazem "amigos" quando a estes só lhes interessa o "ter" e não o "Ser". A família incomoda-se por não apreciarem nem o trabalho nem o preço das suas futilidades e desistem de nós mais facilmente do que do pinheiro depois das festividades. Deixá-los. Ficam com o "stress", endividados, mais gordos e doentes, sem agradarem a ninguém e vazios eles próprios, mesmo que não se apercebam disso.
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