Rilke (Maio de 1926)
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De mim não aprendereis filosofia, mas antes como filosofar, não aprendereis pensamentos para repetir, mas antes como pensar.
Quando o tempo me houver trazido esse momento,
«Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos. E esse modo imoral e hipócrita de falar a que se chama escrever, mais completamente nos vela aos outros e àquela espécie de outros a que a nossa inconsciência chama nós-próprios. Por isso, se escrever, no sentido de escrever para dizer qualquer cousa, é acto que tem um cunho de mentira e de vício, criticar as cousas escritas não deixa de ter um correpondente aspecto de curiosidade mórbida ou de futilidade perversa. E, quando a crítica é escrita também, requinta-se para repugnante a sua imoralidade essencial. Pega-se-lhe a doença do criticado - o facto de existir escrito.
O Professor Universitário Michael Schudson, americano, sociólogo e historiador de jornalismo, foi ontem o convidado de Carlos Vaz Marques, e, para início da conversa, disse: o pior que pode acontecer aos jornalistas é a autocomplacência.
Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal. (...)
O sábio como astrónomo. - Enquanto sentires as estrelas como algo que está «por cima de ti», não possuis ainda o olhar de quem procura o conhecimento.Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.
Em tempo de paz, o homem belicoso ataca-se a si próprio.
Quem se despreza a si próprio, mesmo assim não deixa de se respeitar como desprezador.
Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez - a si próprio?
Na bonomia nada há de misantropia, mas, precisamente por isso, demasiado desprezo pelo homem.
Maturidade do homem: isto significa ter-se reencontrado a seriedade que se tinha nas brincadeiras da infância.
Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da sua moralidade.
Devemo-nos despedir da vida como Ulisses se despediu de Nausica - mais abençoando-a do que apaixonado por ela.
Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde.
Graças à música, as paixões aprazem-se a si próprias.
Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo ao melhor contra-argumento: sinal de carácter forte. Por conseguinte, uma ocasional vontade de se ser estúpido.