sábado, 2 de maio de 2009

Miguel de Unamuno - "a dor como caminho para a consciência de si"

«A dor é o caminho da consciência, e é por ele que os seres vivos chegam a ter consciência de si. Porque ter consciência de si mesmo, ter personalidade, é saber e sentir-se distinto dos demais seres, e só se chega a sentir esta distinção pelo choque, pela dor maior ou menor, pela sensação do próprio limite. A consciência de si mesmo não passa da consciência da própria limitação. Sinto-me eu mesmo, ao sentir-me que não sou os outros; saber e sentir até onde sou eu, é saber onde deixo de ser, e a partir donde não sou.
E como saber que se existe, não sofrendo nem pouco nem muito? Como volver sobre si, lograr consciência reflexa, senão através da dor?
Quando gozamos, esquecemo-nos de nós próprios, de que existimos, passamos a outro, alienamo-nos. E só nos ensimesmamos, só voltamos a nós próprios, só voltamos a ser nós, pela dor.
Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
nella miseria
faz dizer Dante a Francesca de Rimini (Inferno, V, 121-123), mas se não há dor maior do que nos recordarmos do tempo feliz na desgraça, não há, em compensação, prazer, em nos recordarmos da desgraça nos tempos da prosperidade.
"A mais acerba dor para o homem é aspirar a muito e não poder ser nada", como diz, segundo Heródoto (liv. IX, cap. 16), um persa a um tebano, num banquete. E assim é. Podemos abarcar tudo ou quase tudo com o conhecimento e o desejo, nada ou quase nada com a vontade. E a felicidade não é a contemplação, não! se essa contemplação significa impotência. E deste choque entre o nosso saber e nosso poder surge a compaixão.
Compadecemo-nos do nosso semelhante, e tanto mais, quanto mais e melhor sentirmos a sua semelhança connosco. E se podemos dizer que é esta semelhança que provoca a nossa compaixão, podemos sustentar também que a nossa provisão de compaixão, pronta a derramar-se sobre todas as coisas, é que nos faz descobrir a semelhança das coisas connosco, o lago comum que nos une com ela, na dor.»
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in Do Sentimento Trágico da Vida, tradução Cruz Malpique, Relógio D'Água, Lisboa, 2007

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Rainer Maria Rilke - citação

Tocamo-nos um ao outro, e como? Por golpes de asa, mesmo à distância sentimos a presença do outro.
Um poeta vive só, mas de vez em quando surge quem o transporta ao encontro de quem o transportou.
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Rilke (Maio de 1926)
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in Rilke / Pasternak / Tsvétaïeva Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006
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Fotos respectivamente de Rilke, Boris Pasternak e Marina Tsvétaïeva




terça-feira, 21 de abril de 2009

I. Kant - citação

De mim não aprendereis filosofia, mas antes como filosofar, não aprendereis pensamentos para repetir, mas antes como pensar.
Immanuel Kant

Epicteto - citação

Se te interessas muito por filosofia, prepara-te para ser motivo de escárnio de todos. Se persistires no teu interesse, sabe que essas mesmas pessoas te irão admirar depois. (...) E que, se por acaso deres atenção a factos exteriores, para agradar a quem quer que seja, podes ter a certeza que irás arruinar o teu estilo de vida.
Epicteto (55-135 dC)

sábado, 11 de abril de 2009

Lord Byron - "Eutanásia"

Quando o tempo me houver trazido esse momento,
Do dormir, sem sonhar que, extremo, nos invade,
Em meu leito de morte ondule,
Esquecimento,
De teu subtil adejo a langue suavidade!
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Não quero ver ninguém ao pé de mim carpindo,
Herdeiros, espreitando o meu supremo anseio;
Mulher, que, por decoro, o coma desparzindo,
Sinta ou finja que a dor lhe estará rasgando o seio.
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Desejo ir em silêncio ao fúnebre jazigo,
Sem luto oficial, sem préstito faustoso.
Receio a placidez quebrar de um peito amigo,
Ou furtar-lhe, sequer, um breve espaço ao gozo.
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Só amor logrará (se nobre à dor se esquive,
E consiga, no lance, inúteis ais calar),
No que se vai finar, na que lhe sobrevive,
Pela vez derradeira, o seu poder mostrar.
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Feliz se essas feições, gentis, sempre serenas,
Contemplasse, até vir a triste despedida!
Esquecendo talvez, as infligidas penas,
Pudera a própria Dor sorrir-te, alma querida.
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Ah! Se o alento vital se nos afrouxa, inerte,
A mulher para nós contrai o coração!
Iludem-nos na vida as lágrimas, que verte,
E agravam ao que expira a mágoa e enervação.
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Praz-me que a sós me fira o golpe inevitável,
Sem que me siga adeus, ou ai desolador;
Muita vida há ceifado a morte inexorável
Com fugaz sofrimento, ou sem nenhuma dor.
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Morrer! Alhures ir ... Aonde? Ao paradeiro
Para o qual tudo foi e onde tudo irá ter!
Ser, outra vez, o nada; o que já fui, primeiro
Que abrolhasse à existência e ao vivo padecer! ...
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Contadas do viver as horas de ventura
E as que, isentas da dor, do mundo hajam corrido,
Em qualquer condição, a humana criatura
Dirá: "Melhor me fora o nunca haver nascido!".


quinta-feira, 2 de abril de 2009

Hölderlin

Só agora compreendo o homem, agora que estou longe dele e vivo na Solidão.
*
Por toda a parte nos resta ainda uma alegria. A dor pura entusiasma. Quem sobe sobre a própria miséria, está mais alto. E é magnífico saber que só na dor sentimos bem a liberdade da alma. (Hyperion)
*
A Rosa
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Suave irmã!
Onde irei buscar, quando for Inverno,
As flores, para tecer coroas aos deuses?
Então será, como se eu já não soubera do Divino,
Pois de mim terá partido o espírito da vida;
Quando eu buscar prendas de amor aos deuses,
As flores no campo escalvado,
E te não achar.
*
Aplauso dos Homens
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Não é meu coração sagrado e cheio de mais bela vida
Desde que amo? Por que é que mais me estimáveis
Quando era mais orgulhoso e brutal,
Mais verboso e mais vazio?
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Ai! à turba agrada o que é bom para o mercado,
E o servo só sabe honrar o violento;
No divino só crêem
Aqueles que o são.
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O Imperdoável
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Se vós, amigos, esqueceis, se escarneceis o artista,
E entendeis mesquinho e vulgar o espírito mais fundo,
Deus perdoa-vo-lo; mas não perturbeis
Nunca a paz dos que se amam.
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Hölderlin (1770-1843)

domingo, 22 de março de 2009

Fernando Pessoa - Balança de Minerva

«Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos. E esse modo imoral e hipócrita de falar a que se chama escrever, mais completamente nos vela aos outros e àquela espécie de outros a que a nossa inconsciência chama nós-próprios. Por isso, se escrever, no sentido de escrever para dizer qualquer cousa, é acto que tem um cunho de mentira e de vício, criticar as cousas escritas não deixa de ter um correpondente aspecto de curiosidade mórbida ou de futilidade perversa. E, quando a crítica é escrita também, requinta-se para repugnante a sua imoralidade essencial. Pega-se-lhe a doença do criticado - o facto de existir escrito.
Propriamente, o único crítico de arte ou de letras deve ser o psiquiatra; porque, ainda que os psiquiatras sejam tão ignorantes e laterais aos assuntos como todos os outros homens daquilo a que eles chamam ciência, têm ainda assim, perante o que vem a ser um caso de doença mental, aquela competência que consiste em nós julgarmos que eles a têm. Nenhum edifício de sabedoria humana pode erguer-se sobre outros alicerces.
Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das Musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote - tudo isto se pesará na Balança de Minerva.
Claro que a razão do título Balança de Minerva é a circunstância de Minerva não ter balança nenhuma. Vagamente absurdo, leva este título em si a definição dum modo-de-ver que escolhe o onde opor-se a todos para ter razão inutilmente. A consciência do esforço inútil e do trabalho perdido ainda é uma das grandes emoções estéticas que restam a quem se preocupa com as cousas que ainda restam.
A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. No fundo isto é tudo bondade. Dizer mal dum livro é o único modo de dizer bem dele. Se é mau, faz-se justiça; se é bom põe-o na evidência que os livros bons merecem. E, no fim de tudo, nada disto tem importância, porque os livros bons leva-os a História ao colo para casa. E quanto aos maus - criticar é apenas abrir-lhes a cova e rezar-lhes em cima da última descida o latim que falava Juvenal. Às vezes é com sete pós de elogios que esta justiça mortal melhor se sela.
A justificação última da crítica assim bem entendida é o satisfazer a função natural de desdenhar - função tão natural como a de comer e que é de boa higiene de espírito satisfazer cuidadosamente. Quem sente vontade de desdenhar não deve atar-se à cobardia de julgar isso feio, nem vender-se à infâmia de ir desdenhar o que os outros desdenharam, abdicando assim da sua individualidade, gregário.
As horas passam devagar e pesa em tédio a consciência delas. Buscar o conforto no desprezo é não só o nosso dever para com o desprezo, mas também o nosso dever com nós-próprios. Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo - eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.
Traduzindo isto para a metáfora que dá cor a esta secção, pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela - pesos e tudo - na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. O ser imortal é a única das preocupações anti-sociais que não faz mal a ninguém. Visto que o futuro raras vezes dá por ela, não é demais que o presente algumas vezes dê nela.»
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Fernando Pessoa, Balança de Minerva (1915?)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Debate sobre existência de Deus

No próximo sábado, 14 de Março, na Aula Magna da Faculdade de Filosofia em Braga, às 15 horas, iniciar-se-à um debate entre quem acredita e quem não acredita em Deus. Os nomes dos intervenientes pelo sim e pelo não constam do cartaz acima.

domingo, 8 de março de 2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Fernando Savater em "Convite à Ética"

«Em última análise, os valores do homem provêm dos - e assentam nos - seus anseios, ou, se se preferir, nos seus apetites. A tradição canónica distinguia três tipos de apetites humanos, quer dizer, três domínios em que os homens anseiam apaixonadamente: libido sentiendi, libido cognoscendi e libido dominandi, o apetite dos sentidos e das sensações, o do conhecimento e o da dominação e da ordem. É daí que provém tudo o que vale para o homem: verdade, saúde, serenidade, ternura, justiça, beleza, curiosidade, inteligência...".
"No campo da criação social, o ideal que corresponde ao que o propósito ético pretende é a democracia. Apesar do termo ter vindo a ser desvirtuado pelo abuso e pela manipulação, não há invenção mais revolucionária no terreno político nem melhor via para que a ética logre subverter o enfeudamento político ao futuro e reivindique a emancipação do presente. Pela mesma razão, nada em política é revolucionário nem subversivo se não for democrático: fora da democracia, tudo é regresso aos métodos mais velhos do mundo, à autocracia, ao terror, ao paternalismo, aos poucos que decidem "porque sabem na verdade o que os outros querem ou o que a pátria ou o povo exigem", e aos muitos que não se atrevem a querer, nem chegam a saber nem a poder decidir. É preciso dizer imediatamente que a democracia é um ideal ou conceito-limite da organização social, não uma fórmula efectivamente existente aqui e agora. Tanto as democracias "populares" como as ocidentais do "mundo livre" estão a uma enorme distância deste ideal, que proclamam e pervertem ao mesmo tempo. A democracia pretende a abolição efectiva das desigualdades de poder, a supressão dos "especialistas" em mandar e o pôr em comum da gestão dos assuntos comunitários, a organização da sociedade de baixo para cima, a eleição de todos os cargos e a elegibilidade para ele de todos os cidadãos, a revogabilidade não excessivamente dilatada dos mandatos, a transparência permanente da administração. Pode dizer-se que este programa equivale em boa medida à dissolução do Estado tal como hoje o conhecemos na sociedade, dissolução que talvez nunca possa ser absoluta nem seria talvez desejável nesses termos, mas cujo limite está hoje tão longe de nós que não o podemos estabelecer a priori
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Fernando Savater, Convite à Ética

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Michael Schudson no programa da TSF "pessoal e transmissível" de ontem

O Professor Universitário Michael Schudson, americano, sociólogo e historiador de jornalismo, foi ontem o convidado de Carlos Vaz Marques, e, para início da conversa, disse: o pior que pode acontecer aos jornalistas é a autocomplacência.
Lendo a citação de Santo Agostinho do "post" anterior, creio que completa e explicita a afirmação de Schudson: o problema da Verdade, das verdades de cada um, das meras opiniões que muitos confundem com verdades absolutas e em que só as suas próprias são válidas.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Santo Agostinho

Há os que amam somente o seu próprio parecer, não por ser verdadeiro, mas por ser o seu próprio.
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in Confissões, 385.25.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Jonathan Haidt

"Há uma ironia e um prazer especiais em desmascarar um moralista com a falhas morais que ele próprio denuncia. É o mesmo prazer que sentimos com uma anedota bem contada. Algumas piadas são divertidas como réplicas simples, de uma só fala, mas a maior parte exige três partes diferentes, por exemplo, três tipos que entram num bar um de cada vez, ou um padre, um ministro protestante e um rabi num barco salva-vidas. Os dois primeiros estabelecem a norma e o terceiro viola-a. A prédica do hipócrita é a armadilha e a acção é o desfecho da anedota. O escândalo é um bom divertimento porque permite que sintamos desprezo, uma emoção moral que nos faz sentir superiores sem nada pedirmos em troca. Com o desprezo, não precisamos de corrigir o que está mal (como com a raiva) ou de fugir do sítio onde nos encontramos (como acontece com o medo ou a repugnância). E, melhor ainda, o desprezo é feito para ser partilhado. As histórias acerca dos defeitos morais dos outros estão entre os tipos de mexericos mais comuns, são um dos pilares das conversas em certos programas de rádio e oferecem uma maneira simples de as pessoas mostrarem que partilham uma orientação moral comum. Conte a um conhecido uma história que possa acabar com ambos a trocarem um esgar cúmplice e aí está um primeiro laço entre os dois.
Bom, pois então o melhor é parar de trocar esgares cúmplices. Uma das ideias mais universais em todas as culturas e eras é que todos somos hipócritas e na nossa condenação da hipocrisia dos outros limitamo-nos a piorar a nossa. Os psicólogos sociais isolaram recentemente os mecanismos que nos tornam cegos à trave no nosso próprio olho. As implicações morais destas descobertas são perturbadoras; na realidade, são um verdadeiro desafio às nossas maiores certezas morais. Por outro lado, as suas implicações são de certa forma perturbadoras por nos libertarem de um moralismo destrutivo e de uma intolerância alienadora."
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in The Happiness Hypothesis, de Jonathan Haidt (psicólogo social), 2006

domingo, 11 de janeiro de 2009

Goethe

Leve carga levas, se andas sem dinheiro;
Mas a riqueza é fardo mais ligeiro.
*
Se queres censurar, não queiras então parecer santo,
Pois o homem justo cala e de bom grado perdoa.
*
Aqueles homens são loucos, dizeis vós dos oradores violentos
Que em França ouvimos gritar nas ruas e praças.
Loucos me parecem também; mas um louco, livre, dirá
Sábias sentenças, quando, ai! no escravo a sabedoria cala!
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J.W.Goethe

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sermão de Santo António aos peixes (excerto)

Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal. (...)
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(Pregado na Cidade de S. Luís do Maranhão em 1654)
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Padre António Vieira (1608-1697)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Mário de Sá-Carneiro - "Além-Tédio"


Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
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Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
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Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
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Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu.. Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!
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Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.
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E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Nietzsche e o "inferno de Deus"

Um dia, o Diabo falou-me assim: "Deus também tem o seu inferno: é o seu amor pelos homens".
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Nietzsche, Assim falou Zaratustra

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Nietzsche - o que é um filósofo?

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes. Um filósofo: ah, um ser que foge muitas vezes para longe de si mesmo, muitas vezes tem medo de si mesmo - mas que é demasiado curioso para não «voltar sempre a si»."
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(Para Além do Bem e do Mal, Guimarães Ed., 1978, p. 214)

domingo, 23 de novembro de 2008

Homenagem a Lévi-Strauss e Merleau-Ponty

Festeja-se em França, no próximo dia 28 de Novembro, o centésimo aniversário de Claude Lévi-Strauss (1908- ), Antropólogo e Filósofo que encontramos inserido na corrente do Estruturalismo.
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Algumas das suas obras:
«As estruturas elementares do parentesco» (1947)
«Antropologia estrutural» (1958)
«Le totémisme aujourd'hui» (1962)
«O pensamento selvagem»
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Em 1908 nasceu também outro filósofo francês, inserido na corrente Existencialista, Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), uma das maiores personalidades do pós-guerra.
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As suas obras principais:
«A estrutura do comportamento» (1942)
«A fenomenologia da percepção» (1945)
Ensaios:
«Humanismo e terror» (1947)
«Senso e não senso" (1948)
«As aventuras da dialéctica» (1955)
«Signos» (1960)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Nietzsche - Máximas e Interlúdios

O sábio como astrónomo. - Enquanto sentires as estrelas como algo que está «por cima de ti», não possuis ainda o olhar de quem procura o conhecimento.

Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.

Em tempo de paz, o homem belicoso ataca-se a si próprio.

Quem se despreza a si próprio, mesmo assim não deixa de se respeitar como desprezador.

Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez - a si próprio?

Na bonomia nada há de misantropia, mas, precisamente por isso, demasiado desprezo pelo homem.

Maturidade do homem: isto significa ter-se reencontrado a seriedade que se tinha nas brincadeiras da infância.

Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da sua moralidade.

Devemo-nos despedir da vida como Ulisses se despediu de Nausica - mais abençoando-a do que apaixonado por ela.

Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde.

Perante nós mesmos, todos fingimos ser mais ingénuos do que somos: é deste modo que descansamos dos outros homens.

Graças à música, as paixões aprazem-se a si próprias.

Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo ao melhor contra-argumento: sinal de carácter forte. Por conseguinte, uma ocasional vontade de se ser estúpido.

Não há fenómenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenómenos...
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As grandes épocas da nossa vida são aquelas em que adquirimos a coragem de considerar como o melhor o que em nós há de mau.
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Há uma inocência na admiração: é a daquele a quem ainda não passou pela cabeça que também ele poderia, um dia, ser admirado.
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Em certas pessoas, o alegrar-se com um elogio é apenas delicadeza do coração - e precisamente o contrário de vaidade do espírito.
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Se temos que mudar de opinião a respeito de alguém, levamos-lhe muito a mal o incómodo que assim nos causa.
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Um povo é o rodeio da Natureza para chegar a seis ou sete grandes homens. - Sim, para depois se desviar deles.
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O Diabo tem as mais vastas perspectivas para Deus, por isso é que se mantém tão longe dele: o Diabo, ou seja o mais velho amigo do conhecimento.
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Começa-se a adivinhar o que vale alguém quando o seu talento começa a enfraquecer, quando deixa de mostrar do que é capaz. O talento também é um adorno; um adorno também é um esconderijo.
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É pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.
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O fariseísmo não é uma degenerescência do homem bom: pelo contrário, boa parte dele é mesmo a condição prévia para se ser bom.
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Um procura um parteiro para os seus pensamentos, o outro alguém a quem possa auxiliar: é assim que nasce uma boa conversa.
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No convívio com sábios e artistas, a gente facilmente se engana no sentido oposto: não é raro encontrarmos por detrás dum sábio notável um homem medíocre, e muitas vezes, por detrás dum artista medíocre, um homem muito notável.
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A nossa vaidade gostaria que o que fazemos melhor fosse considerado como aquilo que mais nos custa. Para a origem de certas morais.
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Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, se não transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para dentro de um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
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Não basta ter-se talento: é preciso ter-se o vosso assentimento para o possuir - não é verdade, meus amigos?
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A loucura é rara nos indivíduos - mas é a regra nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas.
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Os poetas são impudicos para com as suas vivências: exploram-nas.
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«O nosso próximo não é o nosso vizinho, mas o vizinho deste» - assim pensam todos os povos.
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Em face de qualquer partido. - Um pastor precisa sempre também de um carneiro condutor, ou, em certas ocasiões, ele próprio tem de ser carneiro.
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Falar muito de si próprio pode ser também um meio de se esconder.
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Em última análise, amam-se os desejos, e não o objecto desses desejos.
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As consequências das nossas acções agarram-nos pelos cabelos, sem nada se importarem com o facto de, entretanto, nos termos «corrigido».
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Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.
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Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade.
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«Ele desagrada-me.» - Porquê? - «Não estou à sua altura.» Jamais um homem respondeu assim?
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(in "Para Além do Bem e do Mal", Guimarães & C.ª Ed., Lisboa, 1978, págs.77/89)

sábado, 1 de novembro de 2008

A celebridade

«Às vezes, quando penso nos homens célebres sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade é um plebeismo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeismo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.
Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz.
E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos.
Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de génio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos.»
(...)
"Crónica", Fernando Pessoa, 1915

domingo, 19 de outubro de 2008

Moral do "não fazer nem mal nem bem"

"Assim como, quer o saibamos quer não, temos todos uma metafísica, assim também, quer o queiramos quer não, temos todos uma moral. Tenho uma moral muito simples - não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal que tenha que haver no mundo. Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter, uns para os outros, uma amabilidade de viagem. Não fazer bem, porque não sei o que é o bem, nem se o faço quando julgo que o faço. Sei eu que males produzo se dou esmola? Sei eu que males produzo se educo ou instruo? Na dúvida, abstenho-me. E acho, ainda, que auxiliar ou esclarecer é, em certo modo, fazer o mal de intervir na vida alheia. A bondade é um capricho temperamental: não temos o direito de fazer os outros vítimas de nossos caprichos, ainda que de humanidade ou de ternura. Os benefícios são coisas que se infligem; por isso os abomino friamente.
Se não faço o bem, por moral, também não exijo que mo façam. Se adoeço, o que mais me pesa é que obrigo alguém a tratar-me, coisa que me repugnaria de fazer a outrem. Nunca visitei um amigo doente. Sempre que, tendo eu adoecido, me visitaram, sofri cada visita como um incómodo, um insulto, uma violação injustificável da minha intimidade decisiva. Não gosto que me dêem coisas; parecem com isso obrigar-me a que as dê também - aos mesmos ou a outros, seja a quem for.
Sou altamente sociável de um modo altamente negativo. Sou a inofensividade incarnada. Mas não sou mais do que isso, não quero ser mais do que isso, não posso ser mais do que isso. Tenho para com tudo que existe uma ternura visual, um carinho da inteligência - nada no coração. Não tenho fé em nada, esperança de nada, caridade para nada. Abomino com náusea e pasmo os sinceros de todas as sinceridades e os místicos de todos os misticismos, ou, antes e melhor, as sinceridades de todos os sinceros e os misticismos de todos os místicos. Essa náusea é quase física quando esses misticismos são activos, quando pretendem convencer a inteligência alheia, encontrar a verdade ou reformar o mundo."
(...)
"É esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu. Transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa."
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Excerto do "Livro do Desassossego", Fernando Pessoa (Bernardo Soares),1931?

sábado, 13 de setembro de 2008

Sobre a morte

...«Não se pode estar morto enquanto as coisas que nós alterámos não morrerem. Os nossos efeitos são a única evidência da nossa vida. Enquanto perdurar nem que seja uma recordação dolorosa, uma pessoa não pode ser amputada, morta. E pensou: "É um processo lento e demorado, isto de uma pessoa morrer. Mata-se uma vaca, e ela morre assim que se lhe comer a carne; mas a vida do homem morre como morre a vibração num charco tranquilo, em pequenas ondas, alastrando e crescendo até à quietude".»...
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John Steinbeck, "A um deus desconhecido", cap. 21.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

"Descobre por ti mesmo quais são os bens e ideais que não desejas. Ao saberes o que não desejas, por eliminação, irás aliviar a mente, e só então esta entenderá o essencial que está sempre ao seu alcance".
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Krishnamurti

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ler e não ler, segundo Henry Miller

"Quanto mais escrevemos, menos os livros nos estimulam. Lemos para corroborar, isto é, para apreciar os nossos próprios pensamentos expressos nas variadas formas alheias.
Durante a juventude, o nosso apetite, tanto pela experiência pura como pelos livros, é descontrolado. Onde houver fome excessiva, e não mero apetite, tem de haver uma razão vital para isso. É por demais evidente que o modo de vida actual não nos oferece alimento condigno. Se assim fosse, estou certo de que leríamos menos, trabalharíamos menos e nos empenharíamos menos. Não precisaríamos de substitutos, não aceitaríamos sucedâneos para a nossa maneira de viver. Isto aplica-se a todos os domínios: comida, sexo, viagens, religião, aventura. Damos início à viagem com o pé esquerdo. Percorremos a estrada larga com um pé na sepultura. Não temos objectivo nem desígnio definidos, nem a liberdade de não ter objectivo nem desígnio. Somos, na maioria, sonâmbulos, e morremos sem sequer abrir os olhos.
Se as pessoas apreciassem profundamente tudo o que lêem, não haveria qualquer desculpa para falar assim. Mas lêem como vivem - sem objectivo, ao acaso, de uma forma débil e vacilante. Se já estão a dormir, o que quer que leiam só as faz mergulhar num sono mais profundo. Se se encontram apenas num estado de letargia, tornam-se mais letárgicas. Se são preguiçosas, ficam-no ainda mais. E assim sucessivamente. Apenas o homem que está bem desperto é capaz de apreciar um livro, de extrair dele o que é vital. Um indivíduo desses aprecia o que quer que penetre na sua experiência, e, a não ser que eu esteja terrivelmente enganado, não faz distinção entre a experiência que a leitura lhe proporciona e as experiências múltiplas do quotidiano. O homem que aprecia plenamente o que lê, ou faz, ou mesmo o que diz, ou simplesmente o que sonha ou imagina, beneficia ao máximo. Aquele que procura lucrar, mediante uma forma ou outra de disciplina, ilude-se a si mesmo. É por estar firmemente convencido disto que abomino a publicação de listas de livros para aqueles que estão a dar os primeiros passos na vida. Segundo creio, as vantagens que se podem extrair deste tipo de auto-educação são ainda mais dúbias do que as supostas vantagens obtidas mediante os métodos de educação correntes. A maioria dos livros apresentados nessas listas não pode ser compreendida e apreciada antes de uma pessoa ter vivido e pensado por si mesma. Mais cedo ou mais tarde, toda essa porcaria tem de ser regurgitada". ...
"A verdade é que ultimamente deixámos de ter grandes autores para os quais nos possamos voltar - caso estejamos em busca de verdades eternas. Rendemo-nos ao transitório. As nossas esperanças, débeis e vacilantes, parecem estar completamente centradas nas soluções políticas. Os homens afastam-se dos livros, o que quer dizer dos escritores, dos "intelectuais". É bom sinal - desde que substituam os livros pela vida! Mas será isto que se passa? Nunca o medo da vida foi tão intenso. O medo da vida substitui o medo da morte. Vida e morte passaram a significar o mesmo. No entanto, nunca a vida encerrou tantas promessas como agora. Nunca na história do homem a questão foi tão clara - a opção entre a criação e o aniquilamento. Sim, deitem fora os vossos livros! Especialmente se eles encobrem a questão em causa. Nunca a própria vida foi mais um livro aberto do que no momento presente. Mas, seremos nós capazes de ler o Livro da Vida?
(-Que estás a fazer aí no chão?
-Estou a ensinar o alfabeto às formigas.)"
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Henry Miller, Os Livros da Minha Vida, Antígona, Lisboa, 2004, p.148/9 e 157/8, (original 1969).

domingo, 24 de agosto de 2008

"Cada vez mais dou-me conta de que sempre levei uma vida contemplativa. Sou uma espécie de Brâmane ao contrário, meditando em si mesmo no meio da barafunda, que, com toda a sua força, se disciplina e desdenha da existência. Ou o pugilista com a sua sombra, que, furiosamente, calmamente, socando no vazio, vigia a sua forma. Que virtuosismo, que ciência, que equilíbrio, a facilidade com que acelera! Mais tarde, temos de aprender a aceitar o castigo com igual imperturbabilidade. Pela minha parte, sei como aceitar o castigo, com que serenidade produzo frutos e com que serenidade me destruo: em suma, actuo no mundo, não tanto para meu prazer, mas para dar prazer aos outros (são os reflexos dos outros que me dão prazer, não os meus). Só uma alma cheia de desespero pode atingir a serenidade, e, para nos sentirmos desesperados, temos de ter amado muito e de ainda amar o mundo".
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Blaise Cendrars

sábado, 23 de agosto de 2008

Em 1880, Dostoievski fez um discurso sobre "A Missão da Rússia", no qual afirmou: "Tornarmo-nos verdadeiros russos é tornarmo-nos irmãos de todos os seres humanos, homens universais... O nosso futuro reside na Universalidade, não conquistada pela violência, mas pela força derivada do nosso grande ideal - a união de toda a humanidade".
O que é feito destes russos?

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Precisamos da liberdade para impedir o Estado de abusar do seu poder, e precisamos do Estado para impedir a liberdade de provocar abusos.
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Karl Popper

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Servidões antigas e novas


Devido ao facto de as mulheres e os escravos pertencerem a um só grupo e viverem juntos, e de nenhuma mulher, nem mesmo a esposa do chefe da casa, viver entre os seus iguais - outras mulheres livres - dá-nos a noção de que a posição social dependia muito menos do nascimento do que da ocupação ou função. Esta ideia está patente no livro de H. Wallon, Histoire de l'esclavage dans l'antiquité, I, p. 77 segs (1847), que fala de uma "confusion des rangs, ce partage de toutes les fonctions domestiques": "Les femmes... se confondaient avec leurs esclaves dans les soins habituels de la vie intérieure. De quelque rang qu'elles fussent, le travail était leur apanage, comme aux hommes la guerre".
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"O último estágio de uma sociedade de operários, que é a sociedade de detentores de empregos, requer dos seus membros um funcionamento puramente automático, como se a vida individual tivesse realmente sido afogada no processo vital da espécie, e a única decisão activa exigida do indivíduo fosse deixar-se levar, por assim dizer, abandonar a sua individualidade, as dores e as penas de viver ainda sentidas individualmente, e aquiescer num tipo funcional de conduta entorpecida e «tranquilizada»."
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Hannah Arendt, A Condição Humana, Relógio d'Água, 2001, p.392 (o original data de 1958)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A pobreza força os homens livres a fazer muitas coisas servis e mesquinhas.
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Demóstenes, Orationes 57.45

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A sociedade ideal é um estado de coisas no qual todas as actividades humanas derivam tão naturalmente da "natureza" humana como a secreção de cera deriva das abelhas para fazer a colmeia.
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Karl Marx, Wage, Labour and Capital, p. 77

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Pois não vedes que a natureza clama por duas coisas apenas, um corpo livre da dor e uma mente livre de preocupações...?
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Lucrécio, The Nature of the Universe, ed. Penguin, p. 60