«(...) Os portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós. (...) Os portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se, uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe ...»sábado, 1 de agosto de 2009
Eduardo Lourenço - "perfil dos portugueses"
«(...) Os portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós. (...) Os portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se, uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe ...»quarta-feira, 22 de julho de 2009
Eugénio de Andrade - poesia

sexta-feira, 17 de julho de 2009
Rainer Maria Rilke - poesia
e arrasam tudo na sua corrida.
Despedaçam os animais como madeira oca
e consomem na tormenta povos inteiros.
.
E os seus homens, escravos das ciências,
perdem o equilíbrio e a medida,
e chamam progresso ao seu rasto de caracol;
a lentidão cede o passo à velocidade;
sentem e brilham como as prostitutas
e aturdem-se com ruídos de metais e vidros.
.
Como se uma miragem diariamente os ofuscasse,
eles já não conseguem ser eles próprios;
a força do dinheiro cresce e possui-os,
forte como vento do Leste, e eles são pequenos
e hesitantes e esperam do álcool
e do veneno dos fluidos humanos e animais
um ímpeto para os seus negócios efémeros.
.
E os teus pobres sofrem sob o seu jugo
e tudo o que vêem os oprime
e ardem gelados como em febre
e, expulsos de todas as casas,
andam pela noite como mortos estrangeiros;
carregados de toda a imundície do mundo,
são cuspidos como o que apodrece ao sol,-
por cada acaso, pela pintura das prostitutas,
por carros e lampiões insultados.
.
E se houver ainda uma voz para os defender,
faz que seja forte e persuasiva.
.
in "O LIvro da Pobreza e da Morte" (ou a 3.ª parte do Livro de Horas-1905)
segunda-feira, 6 de julho de 2009
A. Schopenhauer - Fábula do porco-espinho
"Num frio dia de Inverno, alguns porcos-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podem tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem."quarta-feira, 17 de junho de 2009
Os Amish vistos por Bernard-Henri Lévy


sábado, 13 de junho de 2009
Estranheza...

terça-feira, 9 de junho de 2009
Rainer Maria Rilke - excerto de carta a Franz Kappus (1904)
«A rapariga e a mulher, neste seu novo e próprio desenvolvimento, imitarão o jeito e os vícios dos homens e copiarão as profissões masculinas apenas por algum tempo. Uma vez vencida a insegurança destas transições, ver-se-á que esta multiplicação e constante mudança de disfarces (quantas vezes ridículos) ajudarão as mulheres a depurarem a sua natureza das influências desfiguradoras do outro sexo. As mulheres, em que a vida mora e perdura de maneira mais imediata, fértil e confiada, ter-se-ão no fundo tornado pessoas mais amadurecidas, pessoas mais humanas, quando comparadas com a leveza do homem, que é incapaz de penetrar a superfície da vida com o peso de um fruto carregado no ventre, que é demasiado petulante e precipitado para dar valor ao que julga amar. Esta humanidade da mulher, moldada pela dor e pela humilhação, será trazida à luz do dia quando ela se despir das convenções da feminilidade estrita, ao longo das metamorfoses da sua condição exterior, e os homens, que hoje não pressentem ainda esta mudança, serão surpreendidos e abalados por ela. Chegará o dia (e nos países nórdicos temos já sinais evidentes que anunciam e iluminam este dia) em que surgirão a rapariga e a mulher cujo nome já não designa nada que se oponha ao ser masculino, mas antes qualquer coisa que existe para si, qualquer coisa que não fará pensar em complemento ou limite, mas apenas na vida e na presença no mundo: o ser humano feminino.in Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, Quasi Edições, trad. Isabel Castro Silva, 1.ª edição, 2008, V.N. Famalicão
sábado, 30 de maio de 2009
"Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa" - Seminário Internacional
sábado, 23 de maio de 2009
Direito e Avesso - livro?
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Bernard-Henri Lévy - Apartheid dourado para os velhos?
sábado, 2 de maio de 2009
Miguel de Unamuno - "a dor como caminho para a consciência de si"
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Rainer Maria Rilke - citação
Rilke (Maio de 1926)
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terça-feira, 21 de abril de 2009
I. Kant - citação
De mim não aprendereis filosofia, mas antes como filosofar, não aprendereis pensamentos para repetir, mas antes como pensar.Epicteto - citação
sábado, 11 de abril de 2009
Lord Byron - "Eutanásia"
Quando o tempo me houver trazido esse momento,Do dormir, sem sonhar que, extremo, nos invade,
Em meu leito de morte ondule,
Esquecimento,
De teu subtil adejo a langue suavidade!
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Não quero ver ninguém ao pé de mim carpindo,
Herdeiros, espreitando o meu supremo anseio;
Mulher, que, por decoro, o coma desparzindo,
Sinta ou finja que a dor lhe estará rasgando o seio.
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Desejo ir em silêncio ao fúnebre jazigo,
Sem luto oficial, sem préstito faustoso.
Receio a placidez quebrar de um peito amigo,
Ou furtar-lhe, sequer, um breve espaço ao gozo.
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Só amor logrará (se nobre à dor se esquive,
E consiga, no lance, inúteis ais calar),
No que se vai finar, na que lhe sobrevive,
Pela vez derradeira, o seu poder mostrar.
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Feliz se essas feições, gentis, sempre serenas,
Contemplasse, até vir a triste despedida!
Esquecendo talvez, as infligidas penas,
Pudera a própria Dor sorrir-te, alma querida.
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Ah! Se o alento vital se nos afrouxa, inerte,
A mulher para nós contrai o coração!
Iludem-nos na vida as lágrimas, que verte,
E agravam ao que expira a mágoa e enervação.
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Praz-me que a sós me fira o golpe inevitável,
Sem que me siga adeus, ou ai desolador;
Muita vida há ceifado a morte inexorável
Com fugaz sofrimento, ou sem nenhuma dor.
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Morrer! Alhures ir ... Aonde? Ao paradeiro
Para o qual tudo foi e onde tudo irá ter!
Ser, outra vez, o nada; o que já fui, primeiro
Que abrolhasse à existência e ao vivo padecer! ...
.
Contadas do viver as horas de ventura
E as que, isentas da dor, do mundo hajam corrido,
Em qualquer condição, a humana criatura
Dirá: "Melhor me fora o nunca haver nascido!".
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Hölderlin
domingo, 22 de março de 2009
Fernando Pessoa - Balança de Minerva
«Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos. E esse modo imoral e hipócrita de falar a que se chama escrever, mais completamente nos vela aos outros e àquela espécie de outros a que a nossa inconsciência chama nós-próprios. Por isso, se escrever, no sentido de escrever para dizer qualquer cousa, é acto que tem um cunho de mentira e de vício, criticar as cousas escritas não deixa de ter um correpondente aspecto de curiosidade mórbida ou de futilidade perversa. E, quando a crítica é escrita também, requinta-se para repugnante a sua imoralidade essencial. Pega-se-lhe a doença do criticado - o facto de existir escrito.quarta-feira, 11 de março de 2009
Debate sobre existência de Deus
domingo, 8 de março de 2009
Pensar cansa
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Fernando Savater em "Convite à Ética"
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Michael Schudson no programa da TSF "pessoal e transmissível" de ontem
O Professor Universitário Michael Schudson, americano, sociólogo e historiador de jornalismo, foi ontem o convidado de Carlos Vaz Marques, e, para início da conversa, disse: o pior que pode acontecer aos jornalistas é a autocomplacência.sábado, 31 de janeiro de 2009
Santo Agostinho
in Confissões, 385.25.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Jonathan Haidt
domingo, 11 de janeiro de 2009
Goethe
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Sermão de Santo António aos peixes (excerto)
Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal. (...)Padre António Vieira (1608-1697)
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Mário de Sá-Carneiro - "Além-Tédio"

domingo, 14 de dezembro de 2008
Nietzsche e o "inferno de Deus"
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Nietzsche - o que é um filósofo?
domingo, 23 de novembro de 2008
Homenagem a Lévi-Strauss e Merleau-Ponty
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Nietzsche - Máximas e Interlúdios
O sábio como astrónomo. - Enquanto sentires as estrelas como algo que está «por cima de ti», não possuis ainda o olhar de quem procura o conhecimento.Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.
Em tempo de paz, o homem belicoso ataca-se a si próprio.
Quem se despreza a si próprio, mesmo assim não deixa de se respeitar como desprezador.
Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez - a si próprio?
Na bonomia nada há de misantropia, mas, precisamente por isso, demasiado desprezo pelo homem.
Maturidade do homem: isto significa ter-se reencontrado a seriedade que se tinha nas brincadeiras da infância.
Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da sua moralidade.
Devemo-nos despedir da vida como Ulisses se despediu de Nausica - mais abençoando-a do que apaixonado por ela.
Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde.
Graças à música, as paixões aprazem-se a si próprias.
Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo ao melhor contra-argumento: sinal de carácter forte. Por conseguinte, uma ocasional vontade de se ser estúpido.
(in "Para Além do Bem e do Mal", Guimarães & C.ª Ed., Lisboa, 1978, págs.77/89)
