terça-feira, 11 de agosto de 2009

Desabafos da Luísa (2)



Direitos dos consumidores
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A Luísa telefonou-me e disse: - Tem de ouvir esta! Como sabe, aos fins-de-semana a BP reduz o preço dos combustíveis em 6 cêntimos, mas reduz também o número de empregados ao balcão, ou seja, há mais viaturas a abastecer e menos gente para atender os clientes. Este domingo fui lá e encontrei uma fila ao balcão que já se prolongava para o exterior da loja. A causa - só estava uma empregada. A fila lá ía a passo de caracol, uns a pagar combustível e jornais, outros só jornais ou revistas, outros pão, água, tabaco, enfim, o que se vende nesses postos que têm loja de conveniência. A certa altura, um pouco à minha frente, dois homens pediram garrafas de gás propano. A empregada disse-lhes que não podia ir lá fora dar-lhes as garrafas porque a colega tinha ido almoçar e ela estava sozinha e não podia deixar o balcão. Esses clientes disseram à empregada que isso não era problema deles, que não havia qualquer cartaz escrito com essa informação, que estavam há quase meia hora na fila e precisavam do gás, a empregada que ligasse ao chefe para resolver o problema porque eles dali não saíam e que, enquanto não fossem atendidos, mais ninguém o seria - e a fila a crescer. Alguém do fundo da fila sugeriu que pedissem o livro de reclamações para o preencherem enquanto esperavam; outro dizia que, se não querem contratar mais empregados, mais valia fecharem aos fins-de-semana, que os clientes iriam a outro lado, que o que há mais por aqui são postos de abastecimento de combustível. Entretanto a empregada telefonou ao chefe a expôr-lhe a situação e colocou uma tabuleta com a indicação que, de momento, não vendiam garrafas de gás.
Estava eu encantada com toda esta demonstração de conhecimento dos direitos dos consumidores e com a posição firme daqueles 2 clientes em não darem a vez a outros enquanto não fosse resolvido o seu problema quando um deles resolve dizer: vamos mas é embora (e um palavrão)! Lembrei-me, então, de um estudo publicado há cerca de um mês por um organismo europeu em que se concluía que os portugueses eram, entre os europeus, os que reclamavam menos dos serviços, e de ter pensado, nessa altura, que eles não conhecem os portugueses. Quanto a reclamações e queixas, para não dizer queixinhas, devemos estar entre os primeiros. Só que nestas coisas, o que conta para as estatísticas são as reclamações escritas, apresentadas segundo a legislação dos respectivos países, e aí, está bem, está!, os portugueses são avessos a assinarem reclamações onde têm que identificar-se e, por vezes, até apresentar testemunhas. A não ser que seja só por preguiça! Se aqueles clientes da BP tivessem levado até ao fim a sua atitude, que além de pedagógica para alguns que estavam na fila, quem sabe se não contribuiriam para a contratação de mais uma pessoa para aquela loja de conveniência. Mas isto já sou eu a divagar.

domingo, 9 de agosto de 2009

Desabafos da Luísa (1)

Cada qual com a sua cruz
Dizia-me a Luísa num destes dias: - É tão triste apercebermo-nos de que não temos ninguém neste mundo, mesmo quando temos ainda família, e aí é que reside o desgosto, ter família e tudo se passar como se a não tivesse. Não querem saber de ninguém senão deles próprios. Se contactam, é para anunciar funerais, ou enviam um ou outro sms pelo Natal e pelos meus anos, e está feito. Por vezes sinto que até Deus se esqueceu de mim. Vim sentar-me neste banco de jardim, ao sol, porque preciso que esta luz penetre nos meus olhos; preciso de me afastar de casa onde há dias em que não paro de chorar. Choro a morte de escritores, de pintores, de actores, de poetas, de gente que embelezou este mundo, que não por mim. Para cúmulo, a maioria das mensagens que recebo pela Internet, são reencaminhamentos daquelas paisagens muito bonitas onde se sobrepõem textos mais ou menos espirituais ou filosóficos, autênticos tratados sobre a verdadeira amizade, o verdadeiro amor, como as famílias podem ser felizes, como podemos salvar o planeta, os animais, os rios e os oceanos, enfim, essas mensagens que circulam pelo mundo electrónico e que recebemos mais que uma vez. No entanto, se estou vários dias sem as reencaminhar, nenhuma dessas pessoas, que se mostram tão minhas "amigas" e que se "lembram tanto de mim" através desse tipo de mensagens que me enviam, e que toda a gente recebe, nenhuma delas, até hoje, se lembrou de me enviar uma mensagem personalizada ou sms onde, simplesmente, me pergunte se estou doente, se necessito de alguma coisa, de companhia, de conversar, de desabafar, como estou agora a fazer consigo!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Marguerite Yourcenar - Fogos do Solstício

O solstício de Inverno tem por festa o Natal; a Páscoa, no equinócio da Primavera, ocupa por si só o lugar de todas as outras festas do ressurgimento, como as Maias que os jovens e donzelas celebravam na Idade Média a cavalo pelas florestas ou dançando na erva, ou as rogações quase desaparecidas por o homem da nossa época não amar bastante a terra, nem o céu, para atrair sobre aquela as bênçãos deste. O São João, festa do solstício de Verão, viu apagar-se por quase toda a parte as suas fogueiras, salvo talvez nos países escandinavos, onde os lagos reflectem ainda as suas chamas. Mas já ninguém na Sicília fica à espreita na véspera do dia 24 de Junho, para ver uma Salomé nua a dançar ao Sol nascente, levando num prato de ouro, ele próprio uma imagem solar, a cabeça cortada do Precursor.
E decerto o homem do deserto alimentado de mel e de gafanhotos, o profeta queimado pelo reflexo do sol a pique sobre as rochas, o pregador de palavra incandescente, poderia simbolizar no Oriente a estação ardente, e o refrescante contraste da água do Jordão só lhe reforça a intensidade. Mas parece que o elemento de esplendor e de serena claridade, tão ligado nas nossas regiões temporadas à própria ideia de solstício de Junho, faz muita falta a esta história de ascetismo e de sangue. Outras festas cristãs, o Pentecostes, com as suas chamas místicas, o Corpo de Deus, com a sua procissão floral e rústica em torno da custódia, são também festas de Verão; elas nunca foram sentidas como as festas de Verão. A estação que é ela própria uma festa não precisa de falar de uma festa sua.
Pareceria no entanto que os fogos-de-artifício do 14 de Junho em França e a orgia de foguetes e petardos no 4 de Julho americano respondem ao mesmo velho desejo do homem de reproduzir na Terra um grande episódio solar, de aumentar ainda, se possível, o calor e a luz vindos do céu. Não lamentamos demasiado que o velho fogo-de-vista que brilhava de aldeia em aldeia, de monte em monte, ameaçando de incêndios florestas e pastos, se tenha definitivamente extinto, por muito pitorescos que fossem os saltos na fogueira. Os bailes e os arraiais, também eles quase caídos em desuso, tomaram de certo modo o seu lugar, mas já dessacralizados, salvo talvez alguns lampejos de patriotismo motivados apenas na consciência dos que dançam por certas ideias feitas da nossa história. E talvez o enorme e quase aterrador êxodo estival dos nossos dias seja um rito solar que se ignora.
Mas a ideia de uma festa do solstício causa-nos uma estranha vertigem semelhante à do homem que se mantém em equilíbrio numa esfera escorregadia. Esta plena medida de luz, esse dia mais longo do ano, que no cabo Norte dura quase dez semanas, é também o momento em que na Antárctica a noite reina, apenas iluminada pelos fogos longínquos dos astros. Mais ainda, este apogeu marca o começo de uma descida; os dias irão decrescendo até ao nadir do solstício de Inverno; o Inverno astronómico começa em Junho, como o Verão astronómico começa em Dezembro, quando as horas de luz crescem insensivelmente de novo até ao auge que é o São João. Temos diante de nós três meses de prados verdes, de flores, de colheitas, de areia quente nas praias, de cantos nas árvores, mas o movimento do céu prepara já o Inverno, como em pleno Inverno é o Verão que se prepara. Estamos metidos nesta dupla espiral que sobe e desce. «Pára, és tão belo!», poderia dizer Fausto ao solstício de Junho. Seria em vão. É só em nós, e mesmo assim sem grande esperança nem grande fé, que iremos encontrar a estabilidade. (1977)
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in O Tempo esse grande escultor, tradução de Helena Vaz da Silva, Difel, Lisboa, 1984, páginas 110/1

sábado, 1 de agosto de 2009

Eduardo Lourenço - "perfil dos portugueses"

«(...) Os portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós. (...) Os portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se, uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe ...»
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in O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português, Círculo de Leitores, Lisboa, 1988, página 74.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Eugénio de Andrade - poesia


As Amoras

O meu país sabe às amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

«»

Recomecemos então

Recomecemos então, as mãos
palma com palma.
Diz, não digas, a palavra.
As palavras terão sentido ainda?
Haverá outro Verão, outro mar
para as palavras?
Vão de vaga em vaga,
de vaga em vaga vão apagadas.
Seremos nós, tu e eu, as palavras?
Onde nos levam, neste crepúsculo,
assim palma com palma,
de mãos dadas?

«»

Não se aprende

Não se aprende grande coisa com a idade.
Talvez a ser mais simples,
a escrever com menos adjectivos.
Demoro-me a escutar um rumor.
Pode ser o prelúdio tímido ainda
do cantar de um pássaro, uma gota
de água na torneira mal fechada,
a anunciação do tão amado
aroma dos primeiros lilazes.
Seja o que for, é o que me retém
aqui, me sustenta, impede de ser
uma qualquer vibração da cal,
simples acorde solar, um nó
de luz negra prestes a explodir.
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Eugénio de Andrade

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Rainer Maria Rilke - poesia

As cidades só pensam em si próprias
e arrasam tudo na sua corrida.
Despedaçam os animais como madeira oca
e consomem na tormenta povos inteiros.
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E os seus homens, escravos das ciências,
perdem o equilíbrio e a medida,
e chamam progresso ao seu rasto de caracol;
a lentidão cede o passo à velocidade;
sentem e brilham como as prostitutas
e aturdem-se com ruídos de metais e vidros.
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Como se uma miragem diariamente os ofuscasse,
eles já não conseguem ser eles próprios;
a força do dinheiro cresce e possui-os,
forte como vento do Leste, e eles são pequenos
e hesitantes e esperam do álcool
e do veneno dos fluidos humanos e animais
um ímpeto para os seus negócios efémeros.
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E os teus pobres sofrem sob o seu jugo
e tudo o que vêem os oprime
e ardem gelados como em febre
e, expulsos de todas as casas,
andam pela noite como mortos estrangeiros;
carregados de toda a imundície do mundo,
são cuspidos como o que apodrece ao sol,-
por cada acaso, pela pintura das prostitutas,
por carros e lampiões insultados.
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E se houver ainda uma voz para os defender,
faz que seja forte e persuasiva.
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in "O LIvro da Pobreza e da Morte" (ou a 3.ª parte do Livro de Horas-1905)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A. Schopenhauer - Fábula do porco-espinho

"Num frio dia de Inverno, alguns porcos-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podem tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem."
Moral da fábula: "Quem tem muito calor interno prefere manter-se afastado da sociedade para não dar nem receber problemas e aborrecimentos."
Por outras palavras, toleramos a proximidade dos outros só quando é necessário à sobrevivência, evitando-a sempre que possível.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Os Amish vistos por Bernard-Henri Lévy








«Conhecia A Testemunha, o filme de Peter Weir, com Harrison Ford. Sabia que era uma seita estranha, vagamente anabaptista, que vivia no despojamento, ao ritmo da natureza e das culturas. Vejamos o que aconteceu. De regresso a Des Moines, e enquanto esperava retomar o meu caminho na direcção da costa californiana, ponho-me em busca desses famosos Amish, os plain people, os "homens simples", não havendo ninguém que soubesse dizer-me com precisão onde os encontrar. (...)
Seguir, pois, até Kalona, outra aldeia Potemkine, novamente vazia, com os seus correios de época, o seu saloon, a sua loja onde se vende tudo, sempre a mesma falsa aparência, ainda a mesma decoração: salvo que, desta vez, a decoração não é só uma decoração e que há realmente, nas quintas em redor, escondidos dos olhares, cortados do mundo, homens e mulheres que vivem segundo a lei ancestral dos amish. Amish, esses camponeses que vejo, ao longe, a trabalhar com charruas de há quinhentos anos. Amish, essas estradas adequadas, sem asfalto, onde as carroças - porque os amish só andam de carroça - levantam, diante do meu carro, densas nuvens de poeira. Amish, esses homens de calças castanhas e largos suspensórios que parecem saídos de um quadro de Le Nain - e amish, essas mulheres com vestidos de burel e touca branca que nunca cortam os cabelos. Amish, a recusa da electricidade, a não ser para os doentes profundos. Amish, a recusa dos estudos secundários e, de facto, estudos em geral - tudo, para os plain people, está na Bíblia; a existência pode ser, de uma ponta à outra, ritmada pela leitura da Bíblia. Amish, esses outros camponeses, de regresso dos campos, que fogem diante da minha máquina de filmar: Deus disse que não farás ídolos nem imagens; com mais forte razão, não é, imagens do rosto e do olhar? Amish, finalmente, a Community County Store onde se vendem pães amish, açúcares de cevada amish, canecas amish (inoxidáveis), embalagens amish (artesanais).
- Serve-se de uma máquina de calcular? - Pergunto eu à velha amish corcunda que está na caixa.
- Sim - afirma ela com uma voz espantosamente viva e aflautada - porque ela é de pilhas, não tem necessidade de electricidade.
E quando tento saber mais sobre a dificuldade de ser amish na América contemporânea, quando tenciono interrogá-la sobre a espécie de cidadãos que são quando são amish, se votam e por quem, se lêem os jornais e quais, como viveram o ataque do 11 de Setembro, se se sentem envolvidos, e como, pela ameaça terrorista, inicia-se uma breve conversa, rapidamente interrompida pelo seu sobrinho que se mostra desconfiado: não, os amish não votam; sim, os amish são maus patriotas e maus cidadãos; um amish não serve na função pública nem no exército; ser amish é estar-se nas tintas para o 11 de Setembro, a Al Qaeda, a segurança dos americanos e o resto. Aliás, a velha senhora não diz "os americanos", mas "os ingleses". Para os amish, os Estados Unidos não são um país, mas uma abstracção, uma ficção.
Quem são os amish, então? Quem são estes homens e estas mulheres que vivem em autarcia económica, com o olho fixo na eternidade? Uma contra-sociedade? Uma anti-América na América? O caso, único no Ocidente, de uma comunidade a-comunitária, que aplica o preceito bíblico de ficar à parte, separada? Insurrectos não exterminados? Secessionistas definitivos? Lembro-me como, nos anos 60, se dizia que os hippies tinham como modelo os índios: no fundo, talvez não; talvez o modelo fossem os amish...
A não ser que seja necessário ver a coisa ainda de outra maneira. A não ser que seja necessário pôr a teimosia dos "Homens Simples" na perspectiva desta filosofia política, digamos "excepcionalista", que eu sei não estar menos presente, nas cabeças americanas, do que na época de Tocqueville. Um suplemento ao pacto social. Uma peça adicional ao contrato. Esta cláusula a mais, aquele artigo em excesso, que os Pais fundadores não tinham previsto mas que fazem parte das suas intenções: o primeiro lógico que apareça sabe que esta é a condição para que um Todo não esteja saturado e para que uma sociedade que entre no jogo realize melhor o seu conceito e os seus desígnios. Ou então precisamente o inverso. As testemunhas, não de Deus, mas da América. Os seus verdadeiros e os seus últimos pioneiros. Os únicos que não cederam e que não resumiram a sua religião ao "in God we trust" das notas de banco. Os feiticeiros da pureza perdida. Os herdeiros do Mayflower. As testemunhas mudas, mas verdadeiramente mudas, porque, contrariamente aos índios, ou aos negros, não dizem nada, não reclamam nada e não têm nenhum motivo de queixa em relação a ninguém, as testemunhas mudas, pois, dos valores que foram os da América mas aos quais esta volta as costas desde que se vendeu à religião da mercadoria.
Já não a anti-América, mas a hiper-América. O seu conservatório. O seu Resto no sentido da Bíblia. A sua má consciência viva, mas, mais uma vez, silenciosa. Traíram o ideal dos Pais fundadores? Voltaram as costas aos vossos princípios? A América é um país falhado? Uma utopia não realizada? Pois aí está. Aqui estamos. Precisamente aqui. Não vos censuramos nada. Mas somos os amish. A verdade profunda, escondida, esquecida, negada, da América, mas viva dentro de nós.
Mistério - e grandeza - de um país que tolera isto. Imagino os amish em França. Imagino estes duzentos mil homens e mulheres, a sua demografia positiva, a sua perseverança, o seu testemunho, o seu irredentismo definitivo, no meu velho país jacobino, tão orgulhoso dos ritos da sua própria religião nacional.»
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in Vertigem Americana, Caderno, Asa Editores, 2007.

sábado, 13 de junho de 2009

Estranheza...


«Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.»
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Bernardo Soares/Fernando Pessoa no Livro do Desassossego.
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(Fernando Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Rainer Maria Rilke - excerto de carta a Franz Kappus (1904)

«A rapariga e a mulher, neste seu novo e próprio desenvolvimento, imitarão o jeito e os vícios dos homens e copiarão as profissões masculinas apenas por algum tempo. Uma vez vencida a insegurança destas transições, ver-se-á que esta multiplicação e constante mudança de disfarces (quantas vezes ridículos) ajudarão as mulheres a depurarem a sua natureza das influências desfiguradoras do outro sexo. As mulheres, em que a vida mora e perdura de maneira mais imediata, fértil e confiada, ter-se-ão no fundo tornado pessoas mais amadurecidas, pessoas mais humanas, quando comparadas com a leveza do homem, que é incapaz de penetrar a superfície da vida com o peso de um fruto carregado no ventre, que é demasiado petulante e precipitado para dar valor ao que julga amar. Esta humanidade da mulher, moldada pela dor e pela humilhação, será trazida à luz do dia quando ela se despir das convenções da feminilidade estrita, ao longo das metamorfoses da sua condição exterior, e os homens, que hoje não pressentem ainda esta mudança, serão surpreendidos e abalados por ela. Chegará o dia (e nos países nórdicos temos já sinais evidentes que anunciam e iluminam este dia) em que surgirão a rapariga e a mulher cujo nome já não designa nada que se oponha ao ser masculino, mas antes qualquer coisa que existe para si, qualquer coisa que não fará pensar em complemento ou limite, mas apenas na vida e na presença no mundo: o ser humano feminino.
Este progresso, contrariando de início a vontade dos homens ultrapassados, trará uma metamorfose da experiência do amor, que a mudará desde o seu fundamento até lhe dar a forma de uma relação entre um ser humano e outro ser humano, e já não entre um homem e uma mulher. E este amor mais humano (que se consumará num movimento infinitamente atencioso e discreto, e bom e claro, de prendimento e libertação) será semelhante àquele que arduamente preparamos e pelo qual lutamos, o amor de duas solidões que se protegem, delimitam e saúdam.(...)»
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in Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, Quasi Edições, trad. Isabel Castro Silva, 1.ª edição, 2008, V.N. Famalicão

sábado, 30 de maio de 2009

"Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa" - Seminário Internacional

Na próxima terça-feira, 2 de Junho, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sala 5.2, realiza-se o Seminário Internacional "Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa", que visa tornar público o trabalho de vários jovens investigadores europeus, na sua maioria preparando em Portugal teses de doutoramento sobre Pessoa, no domínio da Filosofia.
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Programa:
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14.00 - Julia Alonso Dieguez (Espanha) - Fernando Pessoa: Un Pensamiento de la Nada.
14.30 - Fabrizio Boscaglia (Itália) - Poesia e Alma. Diálogo imaginário entre Bernardo Soares e James Hillman.
15.00 - Dirk Hennrich (Alemanha) - Ultimatos à Metafísica. Considerações sobre Immanuel Kant e Fernando Pessoa.
15.30 - 15.45 - Intervalo
15.45 - Antonio Cardiello (Itália) - Biblioteca e marginalia. Pessoa leitor de Jules de Gaultier: De Kant a Nietzsche (1910).
16.15 - Dagmara Kraus (Alemanha) - L'Idolâtrie du virtuel: nostalgia and regret in Cioran's works.
16.45 - Conclusão
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Organização e moderação: Paulo Borges, pauloaeborges@gmail.com / 918113021.
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Entrada livre.

sábado, 23 de maio de 2009

Direito e Avesso - livro?

Os que chegam a este blogue em resultado de pesquisa sobre um livro com o mesmo nome, é provável que procurem, na realidade, um livro de Albert Camus com o título "O Avesso e o Direito, seguido de Discursos da Suécia" (título original: L'Envers et L'Endroit et Discours de Suède).
Poderei acrescentar que os ensaios reunidos neste livro foram escritos quando Albert Camus tinha vinte e dois anos (1936). Quanto aos Discursos da Suécia, englobam o discurso proferido quando recebeu o prémio Nobel da Literatura e conferências enquanto esteve na Suécia, em 1957.
Boas leituras.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Bernard-Henri Lévy - Apartheid dourado para os velhos?

«Em Sun City, Arizona, a regra é simples e implacável. Ninguém abaixo dos 55 anos. Crianças e adolescentes só admitidos em caso de visita. Uma cidade de velhos, por conseguinte. Uma cidade privada, reservada aos reformados, cortada do resto do mundo tanto por esta regra de ferro como por um muro, verdadeiro, com postos de controlo, que o separam dos bairros hispânicos vizinhos. Um optimista verá, neste falso espaço urbano, com ruas traçadas em linha recta, quase desertas, onde raros avôzinhos circulam em carrinhos de golfe, um oásis de prosperidade num mundo em crise, uma utopia burguesa saída do sonho do urbanista. Reconhecerá aqui uma variante bizarra, mas uma variante na mesma, do bom "pastoralismo", herdado da escola de arquitectura paisagística inglesa do século XVIII e que desempenhou um enorme papel na constituição da ideologia americana. Verá aí um cruzamento, nada desonroso em si, do espírito de Virgílio e do das Luzes, dos sonhos de regresso à natureza que datam dos primeiros peregrinos e do progressismo de vivendas de que vi, em Lakewood, perto de Los Angeles, o género de paisagem que pode dar e em que tipo de filosofia, igualitária e pioneira, se apoia. A "auto-suficiência" de Emerson, em fundo de velhice sujeita a gueto. O "Walden Pond" de Thoreau, versão fortaleza assediada. Nas cidades planificadas deste tipo, nestas cidadelas saídas do nada e, neste caso, do deserto, talvez um optimista vislumbre uma metamorfose, em pleno século XXI, desse espírito pioneiro, dessa capacidade de "se constituir", por "consentimento mútuo e solene", num "corpo da sociedade política" de que Tocqueville, nas primeiras páginas do seu livro, quando evoca, citando Nathaniel Morton, a criação de Plymouth e das primeiras colónias da Nova Inglaterra, faz a própria essência do projecto democrático. E confesso, entre parênteses, não ter achado completamente ridículo, na noite da minha chegada, o pequeno baile organizado, no Westerners Square Dance Club de Sun City West, por alguns dos colonos do terceiro tipo e da quarta idade - confesso ter encontrado um certo encanto no espectáculo destas quinze ou vinte senhoras, armadas em Scarlett O'Hara, todas com folhos, tutus e vestidos engraçados, a dançarem até perder o fôlego ao som de uma orquestra de bailarico, com os Rhett Butler, o mais novo dos quais tinha 80 anos! O problema, evidentemente, é o resto. Todo o resto. São os blacks, que não se vêem. Os hispânicos que me garantem estarem lá, mas dos quais também não sinto a presença. São os pobres em geral, os grandes excluídos deste sonho de vivendas e incorporated, no sentido literal constituído em corpo, autónomo, logo, autogerido, cuja primeira regra de gestão é só aceitar os casais que provem que têm um capital suficiente para poderem viver até aos cem anos - oficialmente, o objectivo do jogo! - sem risco de cessação de pagamento, logo, de expulsão. O problema é, de facto, o sentimento de ter chegado aqui, com esta tribo de velhos, à derradeira etapa de um processo de segregação social, de que pude, em Los Angeles, observar algumas premissas e que, não conseguindo, afinal, nem manter os pobres nos seus guetos, nem empurrá-los para a periferia da cidade, não conseguindo decidir, como se viu, mais uma vez, em Phoenix, envenenar os caixotes do lixo dos restaurantes para dissuadir os sem-abrigo de virem abastecer-se, ficaria resolvido, com uma guerra frouxa, com a deslocação dos ricos. O problema, em suma, é que isso supõe uma ruptura profunda com a tradição, já não digo de compaixão, mas de civismo, que fez e ainda faz a grandeza deste país. E é o terrível precedente que não pode deixar de criar esta experiência de privatização de um espaço público a favor de uma comunidade que, não dependendo já de Phoenix nem de nenhuma outra autoridade estatal e nacional (o "state-nation", o "station", odiado por Emerson) para os seus impostos, a sua rede viária, as suas tarefas de policiamento ou de administração, parece um pequeno satélite liberto das leis do peso social e nacional. Se aceitarmos isto, digo eu a uma das minhas Scarlett, se não ratificarmos o princípio deste gueto dourado, baseado na pertença a uma classe etária e num nível de rendimentos, em nome de quê iríamos impedir amanhã, a constituição de cidades interditas, desta vez, aos velhos? Ou aos homossexuais? Ou aos judeus? Em nome de quê iríamos resistir à balcanização definitiva do espaço americano que se seguiria? Nada a ver! Responde-me a majorette indignada. Não pode comparar projectos tão horrorosos com uma organização cuja única finalidade é facilitar a vida aos idosos que sufocavam nas grandes cidades. Seja. Vejo bem, com efeito, os pequenos arranjos que o sistema permite na vida de todos os dias: tomadas de corrente colocadas mais alto para evitar que tenham de se baixar muito; tectos com a luz estudada para cansar menos os olhos; campos de golfe; piscinas aquecidas tanto no Verão como no Inverno; sistemas de alarme que ligam a maior parte das casas ao hospital e permitem, em caso de doença, ganhar minutos preciosos que são, nesta idade, muitas vezes fatais - refiro apenas as coisas melhores e tudo isso não é, evidentemente, negligenciável. Mas, ao mesmo tempo... Esta impressão de frieza lúgubre... Estas lareiras artificiais nas casas e estas relvas que parecem de cartão... Esta vida plastificada... Estes moribundos que cheiram a saúde... Este tempo fingido, sem outros acontecimentos notáveis a não ser os bailes, a recolha do lixo que os próprios se obstinam a fazer, tal como as rondas de polícia e, last but not least, fontes de uma excitação incansável, os mortos, os enterros... Deixo Sun City num estado de incerteza extrema, já sem saber se vêm para aqui para se salvarem ou para se condenarem, conjurarem a morte, ou fazerem a prova. De regresso a Phoenix, fico a saber que Del Webb, o inventor deste milagre gelado, deste paraíso com ar de purgatório, deste infantário para a terceira idade onde a própria vida parece ter-se tornado uma doença, aprendeu o seu ofício a construir, depois da guerra, casinos, casernas e campos de internamento para japoneses...»
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in Bernard-Henri Lévy, Vertigem Americana, Caderno, Asa Editores, Lisboa, 1.ª edição, 2007, páginas 163/6.

sábado, 2 de maio de 2009

Miguel de Unamuno - "a dor como caminho para a consciência de si"

«A dor é o caminho da consciência, e é por ele que os seres vivos chegam a ter consciência de si. Porque ter consciência de si mesmo, ter personalidade, é saber e sentir-se distinto dos demais seres, e só se chega a sentir esta distinção pelo choque, pela dor maior ou menor, pela sensação do próprio limite. A consciência de si mesmo não passa da consciência da própria limitação. Sinto-me eu mesmo, ao sentir-me que não sou os outros; saber e sentir até onde sou eu, é saber onde deixo de ser, e a partir donde não sou.
E como saber que se existe, não sofrendo nem pouco nem muito? Como volver sobre si, lograr consciência reflexa, senão através da dor?
Quando gozamos, esquecemo-nos de nós próprios, de que existimos, passamos a outro, alienamo-nos. E só nos ensimesmamos, só voltamos a nós próprios, só voltamos a ser nós, pela dor.
Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
nella miseria
faz dizer Dante a Francesca de Rimini (Inferno, V, 121-123), mas se não há dor maior do que nos recordarmos do tempo feliz na desgraça, não há, em compensação, prazer, em nos recordarmos da desgraça nos tempos da prosperidade.
"A mais acerba dor para o homem é aspirar a muito e não poder ser nada", como diz, segundo Heródoto (liv. IX, cap. 16), um persa a um tebano, num banquete. E assim é. Podemos abarcar tudo ou quase tudo com o conhecimento e o desejo, nada ou quase nada com a vontade. E a felicidade não é a contemplação, não! se essa contemplação significa impotência. E deste choque entre o nosso saber e nosso poder surge a compaixão.
Compadecemo-nos do nosso semelhante, e tanto mais, quanto mais e melhor sentirmos a sua semelhança connosco. E se podemos dizer que é esta semelhança que provoca a nossa compaixão, podemos sustentar também que a nossa provisão de compaixão, pronta a derramar-se sobre todas as coisas, é que nos faz descobrir a semelhança das coisas connosco, o lago comum que nos une com ela, na dor.»
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in Do Sentimento Trágico da Vida, tradução Cruz Malpique, Relógio D'Água, Lisboa, 2007

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Rainer Maria Rilke - citação

Tocamo-nos um ao outro, e como? Por golpes de asa, mesmo à distância sentimos a presença do outro.
Um poeta vive só, mas de vez em quando surge quem o transporta ao encontro de quem o transportou.
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Rilke (Maio de 1926)
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in Rilke / Pasternak / Tsvétaïeva Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006
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Fotos respectivamente de Rilke, Boris Pasternak e Marina Tsvétaïeva




terça-feira, 21 de abril de 2009

I. Kant - citação

De mim não aprendereis filosofia, mas antes como filosofar, não aprendereis pensamentos para repetir, mas antes como pensar.
Immanuel Kant

Epicteto - citação

Se te interessas muito por filosofia, prepara-te para ser motivo de escárnio de todos. Se persistires no teu interesse, sabe que essas mesmas pessoas te irão admirar depois. (...) E que, se por acaso deres atenção a factos exteriores, para agradar a quem quer que seja, podes ter a certeza que irás arruinar o teu estilo de vida.
Epicteto (55-135 dC)

sábado, 11 de abril de 2009

Lord Byron - "Eutanásia"

Quando o tempo me houver trazido esse momento,
Do dormir, sem sonhar que, extremo, nos invade,
Em meu leito de morte ondule,
Esquecimento,
De teu subtil adejo a langue suavidade!
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Não quero ver ninguém ao pé de mim carpindo,
Herdeiros, espreitando o meu supremo anseio;
Mulher, que, por decoro, o coma desparzindo,
Sinta ou finja que a dor lhe estará rasgando o seio.
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Desejo ir em silêncio ao fúnebre jazigo,
Sem luto oficial, sem préstito faustoso.
Receio a placidez quebrar de um peito amigo,
Ou furtar-lhe, sequer, um breve espaço ao gozo.
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Só amor logrará (se nobre à dor se esquive,
E consiga, no lance, inúteis ais calar),
No que se vai finar, na que lhe sobrevive,
Pela vez derradeira, o seu poder mostrar.
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Feliz se essas feições, gentis, sempre serenas,
Contemplasse, até vir a triste despedida!
Esquecendo talvez, as infligidas penas,
Pudera a própria Dor sorrir-te, alma querida.
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Ah! Se o alento vital se nos afrouxa, inerte,
A mulher para nós contrai o coração!
Iludem-nos na vida as lágrimas, que verte,
E agravam ao que expira a mágoa e enervação.
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Praz-me que a sós me fira o golpe inevitável,
Sem que me siga adeus, ou ai desolador;
Muita vida há ceifado a morte inexorável
Com fugaz sofrimento, ou sem nenhuma dor.
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Morrer! Alhures ir ... Aonde? Ao paradeiro
Para o qual tudo foi e onde tudo irá ter!
Ser, outra vez, o nada; o que já fui, primeiro
Que abrolhasse à existência e ao vivo padecer! ...
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Contadas do viver as horas de ventura
E as que, isentas da dor, do mundo hajam corrido,
Em qualquer condição, a humana criatura
Dirá: "Melhor me fora o nunca haver nascido!".


quinta-feira, 2 de abril de 2009

Hölderlin

Só agora compreendo o homem, agora que estou longe dele e vivo na Solidão.
*
Por toda a parte nos resta ainda uma alegria. A dor pura entusiasma. Quem sobe sobre a própria miséria, está mais alto. E é magnífico saber que só na dor sentimos bem a liberdade da alma. (Hyperion)
*
A Rosa
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Suave irmã!
Onde irei buscar, quando for Inverno,
As flores, para tecer coroas aos deuses?
Então será, como se eu já não soubera do Divino,
Pois de mim terá partido o espírito da vida;
Quando eu buscar prendas de amor aos deuses,
As flores no campo escalvado,
E te não achar.
*
Aplauso dos Homens
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Não é meu coração sagrado e cheio de mais bela vida
Desde que amo? Por que é que mais me estimáveis
Quando era mais orgulhoso e brutal,
Mais verboso e mais vazio?
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Ai! à turba agrada o que é bom para o mercado,
E o servo só sabe honrar o violento;
No divino só crêem
Aqueles que o são.
*
O Imperdoável
.
Se vós, amigos, esqueceis, se escarneceis o artista,
E entendeis mesquinho e vulgar o espírito mais fundo,
Deus perdoa-vo-lo; mas não perturbeis
Nunca a paz dos que se amam.
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Hölderlin (1770-1843)

domingo, 22 de março de 2009

Fernando Pessoa - Balança de Minerva

«Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos. E esse modo imoral e hipócrita de falar a que se chama escrever, mais completamente nos vela aos outros e àquela espécie de outros a que a nossa inconsciência chama nós-próprios. Por isso, se escrever, no sentido de escrever para dizer qualquer cousa, é acto que tem um cunho de mentira e de vício, criticar as cousas escritas não deixa de ter um correpondente aspecto de curiosidade mórbida ou de futilidade perversa. E, quando a crítica é escrita também, requinta-se para repugnante a sua imoralidade essencial. Pega-se-lhe a doença do criticado - o facto de existir escrito.
Propriamente, o único crítico de arte ou de letras deve ser o psiquiatra; porque, ainda que os psiquiatras sejam tão ignorantes e laterais aos assuntos como todos os outros homens daquilo a que eles chamam ciência, têm ainda assim, perante o que vem a ser um caso de doença mental, aquela competência que consiste em nós julgarmos que eles a têm. Nenhum edifício de sabedoria humana pode erguer-se sobre outros alicerces.
Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das Musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote - tudo isto se pesará na Balança de Minerva.
Claro que a razão do título Balança de Minerva é a circunstância de Minerva não ter balança nenhuma. Vagamente absurdo, leva este título em si a definição dum modo-de-ver que escolhe o onde opor-se a todos para ter razão inutilmente. A consciência do esforço inútil e do trabalho perdido ainda é uma das grandes emoções estéticas que restam a quem se preocupa com as cousas que ainda restam.
A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. No fundo isto é tudo bondade. Dizer mal dum livro é o único modo de dizer bem dele. Se é mau, faz-se justiça; se é bom põe-o na evidência que os livros bons merecem. E, no fim de tudo, nada disto tem importância, porque os livros bons leva-os a História ao colo para casa. E quanto aos maus - criticar é apenas abrir-lhes a cova e rezar-lhes em cima da última descida o latim que falava Juvenal. Às vezes é com sete pós de elogios que esta justiça mortal melhor se sela.
A justificação última da crítica assim bem entendida é o satisfazer a função natural de desdenhar - função tão natural como a de comer e que é de boa higiene de espírito satisfazer cuidadosamente. Quem sente vontade de desdenhar não deve atar-se à cobardia de julgar isso feio, nem vender-se à infâmia de ir desdenhar o que os outros desdenharam, abdicando assim da sua individualidade, gregário.
As horas passam devagar e pesa em tédio a consciência delas. Buscar o conforto no desprezo é não só o nosso dever para com o desprezo, mas também o nosso dever com nós-próprios. Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo - eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.
Traduzindo isto para a metáfora que dá cor a esta secção, pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela - pesos e tudo - na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. O ser imortal é a única das preocupações anti-sociais que não faz mal a ninguém. Visto que o futuro raras vezes dá por ela, não é demais que o presente algumas vezes dê nela.»
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Fernando Pessoa, Balança de Minerva (1915?)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Debate sobre existência de Deus

No próximo sábado, 14 de Março, na Aula Magna da Faculdade de Filosofia em Braga, às 15 horas, iniciar-se-à um debate entre quem acredita e quem não acredita em Deus. Os nomes dos intervenientes pelo sim e pelo não constam do cartaz acima.

domingo, 8 de março de 2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Fernando Savater em "Convite à Ética"

«Em última análise, os valores do homem provêm dos - e assentam nos - seus anseios, ou, se se preferir, nos seus apetites. A tradição canónica distinguia três tipos de apetites humanos, quer dizer, três domínios em que os homens anseiam apaixonadamente: libido sentiendi, libido cognoscendi e libido dominandi, o apetite dos sentidos e das sensações, o do conhecimento e o da dominação e da ordem. É daí que provém tudo o que vale para o homem: verdade, saúde, serenidade, ternura, justiça, beleza, curiosidade, inteligência...".
"No campo da criação social, o ideal que corresponde ao que o propósito ético pretende é a democracia. Apesar do termo ter vindo a ser desvirtuado pelo abuso e pela manipulação, não há invenção mais revolucionária no terreno político nem melhor via para que a ética logre subverter o enfeudamento político ao futuro e reivindique a emancipação do presente. Pela mesma razão, nada em política é revolucionário nem subversivo se não for democrático: fora da democracia, tudo é regresso aos métodos mais velhos do mundo, à autocracia, ao terror, ao paternalismo, aos poucos que decidem "porque sabem na verdade o que os outros querem ou o que a pátria ou o povo exigem", e aos muitos que não se atrevem a querer, nem chegam a saber nem a poder decidir. É preciso dizer imediatamente que a democracia é um ideal ou conceito-limite da organização social, não uma fórmula efectivamente existente aqui e agora. Tanto as democracias "populares" como as ocidentais do "mundo livre" estão a uma enorme distância deste ideal, que proclamam e pervertem ao mesmo tempo. A democracia pretende a abolição efectiva das desigualdades de poder, a supressão dos "especialistas" em mandar e o pôr em comum da gestão dos assuntos comunitários, a organização da sociedade de baixo para cima, a eleição de todos os cargos e a elegibilidade para ele de todos os cidadãos, a revogabilidade não excessivamente dilatada dos mandatos, a transparência permanente da administração. Pode dizer-se que este programa equivale em boa medida à dissolução do Estado tal como hoje o conhecemos na sociedade, dissolução que talvez nunca possa ser absoluta nem seria talvez desejável nesses termos, mas cujo limite está hoje tão longe de nós que não o podemos estabelecer a priori
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Fernando Savater, Convite à Ética

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Michael Schudson no programa da TSF "pessoal e transmissível" de ontem

O Professor Universitário Michael Schudson, americano, sociólogo e historiador de jornalismo, foi ontem o convidado de Carlos Vaz Marques, e, para início da conversa, disse: o pior que pode acontecer aos jornalistas é a autocomplacência.
Lendo a citação de Santo Agostinho do "post" anterior, creio que completa e explicita a afirmação de Schudson: o problema da Verdade, das verdades de cada um, das meras opiniões que muitos confundem com verdades absolutas e em que só as suas próprias são válidas.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Santo Agostinho

Há os que amam somente o seu próprio parecer, não por ser verdadeiro, mas por ser o seu próprio.
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in Confissões, 385.25.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Jonathan Haidt

"Há uma ironia e um prazer especiais em desmascarar um moralista com a falhas morais que ele próprio denuncia. É o mesmo prazer que sentimos com uma anedota bem contada. Algumas piadas são divertidas como réplicas simples, de uma só fala, mas a maior parte exige três partes diferentes, por exemplo, três tipos que entram num bar um de cada vez, ou um padre, um ministro protestante e um rabi num barco salva-vidas. Os dois primeiros estabelecem a norma e o terceiro viola-a. A prédica do hipócrita é a armadilha e a acção é o desfecho da anedota. O escândalo é um bom divertimento porque permite que sintamos desprezo, uma emoção moral que nos faz sentir superiores sem nada pedirmos em troca. Com o desprezo, não precisamos de corrigir o que está mal (como com a raiva) ou de fugir do sítio onde nos encontramos (como acontece com o medo ou a repugnância). E, melhor ainda, o desprezo é feito para ser partilhado. As histórias acerca dos defeitos morais dos outros estão entre os tipos de mexericos mais comuns, são um dos pilares das conversas em certos programas de rádio e oferecem uma maneira simples de as pessoas mostrarem que partilham uma orientação moral comum. Conte a um conhecido uma história que possa acabar com ambos a trocarem um esgar cúmplice e aí está um primeiro laço entre os dois.
Bom, pois então o melhor é parar de trocar esgares cúmplices. Uma das ideias mais universais em todas as culturas e eras é que todos somos hipócritas e na nossa condenação da hipocrisia dos outros limitamo-nos a piorar a nossa. Os psicólogos sociais isolaram recentemente os mecanismos que nos tornam cegos à trave no nosso próprio olho. As implicações morais destas descobertas são perturbadoras; na realidade, são um verdadeiro desafio às nossas maiores certezas morais. Por outro lado, as suas implicações são de certa forma perturbadoras por nos libertarem de um moralismo destrutivo e de uma intolerância alienadora."
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in The Happiness Hypothesis, de Jonathan Haidt (psicólogo social), 2006

domingo, 11 de janeiro de 2009

Goethe

Leve carga levas, se andas sem dinheiro;
Mas a riqueza é fardo mais ligeiro.
*
Se queres censurar, não queiras então parecer santo,
Pois o homem justo cala e de bom grado perdoa.
*
Aqueles homens são loucos, dizeis vós dos oradores violentos
Que em França ouvimos gritar nas ruas e praças.
Loucos me parecem também; mas um louco, livre, dirá
Sábias sentenças, quando, ai! no escravo a sabedoria cala!
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J.W.Goethe

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sermão de Santo António aos peixes (excerto)

Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal. (...)
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(Pregado na Cidade de S. Luís do Maranhão em 1654)
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Padre António Vieira (1608-1697)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Mário de Sá-Carneiro - "Além-Tédio"


Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
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Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
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Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
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Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu.. Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!
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Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.
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E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Nietzsche e o "inferno de Deus"

Um dia, o Diabo falou-me assim: "Deus também tem o seu inferno: é o seu amor pelos homens".
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Nietzsche, Assim falou Zaratustra