sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Como se pode ser o maior filósofo do século XX e, ao mesmo tempo, um nazi?

«É o filósofo ou o nazi que define o povo alemão como "o povo metafísico por excelência"? [20 anos antes da chegada de Hitler, Thomas Mann dizia do povo alemão: "o povo da metafísica"]. É o nacional-socialismo que veicula a "ontologia fundamental" ou é esta quem o programa, quando, "para lá das suas insuficiências e grosserias", ele vê no "movimento hitleriano um elemento de muito maior alcance e talvez susceptível de levar, um dia, a um recolher sobre a essência ocidental e histórica do que é ser alemão"? Só existe um Heidegger, e eis o verdadeiro. Uma só tinta. Uma só voz. Ou, mais precisamente, talvez haja duas. Se insistirmos nisso, podemos continuar a defender que, "por um lado", existe o filósofo e, "por outro", o nazi. Mas, nos livros, essa fronteira não existe. Ela dilui-se no seu interior. Que digo? Em cada livro, ela dilui-se em cada página e, até mesmo, em cada palavra ou, pelo menos, em cada conceito. É impossível demarcá-la. Impossível, até, pensá-la. Se existem "dois Heidegger", eles não só coabitam sob o mesmo nome, na mesma cabeça, mas também nas mesmas figuras da língua e do pensamento. E é isto que impossibilita e torna absurda a escapatória que consistiria em dizer: "deixemos de lado o nazi, guardemos o filósofo; esqueçamos as cartas de denúncia e recordemo-nos da meditação sobre os poetas; saibamos eliminar a parte que cabe às artimanhas, ou às cobardias privadas e sobrarão os textos imortais sem os quais seriam as tarefas do pensamento que ficariam por muito tempo comprometidas". (...).
Como é que o século que agora acaba (Althusser, Foucault, Lacan e, primeiramente, Sartre, claro) se acomodou a estes conceitos que, num certo sentido, faziam pensar e, noutro, evocavam o pior? E como é que o século que se anuncia (os mesmos, mais alguns outros) poderá, deverá, lidar com este duplo imperativo de não poder pensar sem Heidegger e de não poder, também, pensar com ele?
(...) Num certo sentido, existem efectivamente dois Heidegger. Se se quiser, existe um "bom" e um "mau" Heidegger. Ainda que, desta vez, não se trate do "político" e do "filósofo". Já não se trata do patife nazi e do gentil Tales, perdido nos seus sonhos, indiferente ao horror da época e que seria necessário, como queriam fazer Les Temps Modernes, arrancar das garras do primeiro. O seccionamento ocorre no interior da própria filosofia. O que está em jogo, aquilo que está verdadeiramente em jogo, ocorre no próprio seio da sua meditação. E são duas as filosofias de Heidegger que, como um par de forças de sentido oposto, se disputam os mesmos textos e, repito, os mesmos conceitos.
Por um lado, é um Heidegger pessimista, terrivelmente sombrio, que julga o declínio irremediável e que não está evidentemente pronto, visto que não há qualquer saída, a conceder seja que privilégio for a este ou àquele regime da História e do pensamento. Para este Heidegger, a divulgação planetária da técnica é apenas a antepenúltima consequência de uma metafísica da subjectividade que começa em Platão e acaba, provisoriamente, com um nacional-socialismo que, quanto a ele, é apenas consequência dessa consequência, o último elo em data da mesma cadeia. Esse nacional-socialismo bem tinha querido ser um "recomeço grego". Mas, aqui está: nunca houve verdadeiro começo. Como poderia haver? Nesse caso, o nazismo é apenas um avatar, talvez o último, talvez não, do esquecimento milenário do Ser. Se não há muita esperança em vencê-lo e, portanto, se não há muitos motivos para combatê-lo, também não os há para aderir a ele. Afinal de contas, este primeiro Heidegger é demasiado sombrio para falar, nem que seja um momento, sobre o pretenso papel "regenerador" da revolução nazi.
Por outro lado, é um Heidegger mais positivo, mais determinado que, subitamente, não se conforma com este eterno declínio, tal como acaba de constatá-lo. É o mesmo Heidegger, descrevendo, da mesmíssima maneira, a "planetarização da técnica" e a "decadência espiritual da Terra"; É o mesmo grande filósofo glosando sobre o esquecimento do Ser e sobre o facto de que, devido a esse esquecimento, a humanidade não pára de viver nas trevas. Excepto que tudo se passa como se, de repente, este quadro sinistro não o satisfizesse mais - tudo se passa como se visse subitamente neste pessimismo uma forma de deleite lúgubre e, nesse deleite, uma consequência desse mesmo niilismo a quem movera o processo e cujo deserto não pára de aumentar. Devo também deixar que o deserto cresça? Não, parece querer responder. Estou cansado do deserto. E toma a "grande decisão" de inflectir mais ligeiramente o seu discurso, de se perguntar se não haverá maneira de começar (oh! Muito pouco! Imperceptivelmente!) a escalar a ravina da queda e do esquecimento: renuncia às aquisições da analítica do Dasein; volta atrás na sua doutrina da historicidade, na sua teroria da língua, na sua concepção de um esquecimento inscrito na própria Abertura do Ser e encontra na Alemanha, e na Alemanha da época nazi, os veículos que lhe permitirão retomar o caminho da aurora grega do pensamento. É quando se mostra que Heidegger é nazi. É quando dá por si mesmo a acreditar que o declínio é reversível, que é possível remontar o curso da catástrofe e, portanto, é quando se torna optimista, que ele adere ao hitlerismo. O hitlerismo de Heidegger não é uma noite da alma, é um momento de iluminação - é o momento em que ele procura introduzir um raio de esperança e de luz na noite do século. Tal é o princípio da separação entre os dois Heidegger. Tal é o princípio da partilha - no verdadeiro sentido de uma "crítica" - que Sartre e os outros operaram por entre os factos, sem forçosamente a formularem. Tal é, de facto, a forma da crítica que temos de reelaborar se quisermos também escapar a esse impasse cuja fórmula se enuncia da seguinte maneira: é impossível ser heideggeriano, e é impossível deixar de sê-lo. Tal é, afinal, a lição dessa crítica: o que ela nos diz do século que agora termina, o que ela nos diz daquele que se anuncia; e que o totalitarismo - como Sartre compreendera muito bem - sempre foi mais filho do dia do que da noite.»
.
in O Século de Sartre, de Bernard-Henri Lévy, pp. 216/7 e 231/2/3
.
(na imagem: Martin Heidegger )

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Casa-Poema


Hoje, às 19,30h, alguns actores da Tenda-Palhaços do Mundo, dirão poemas de Pessoa, a partir das janelas da Casa Fernando Pessoa para a rua em frente. A partir das 21,30h actuarão os Flak Ensemble e às 22,30h será representada a peça de teatro «Todos os Casados do Mundo são Mal Casados», de Inês Pedrosa a partir de textos de Ovídeo e Pessoa, encenada e interpretada por Diogo Dória. Todos estes eventos assinalam a inauguração da Casa-Poema em que se transformou a Casa Fernando Pessoa, por dentro e por fora, podendo ler-se na fachada exterior do edifício versões de uma ode de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa.
.

domingo, 13 de setembro de 2009

Rainer Maria Rilke - poesia (2)

Tu és o pobre, aquele que não tem nada,
tu és a pedra que não tem repouso,
tu és o leproso por todos repudiado,
vagueando em torno da cidade com o chocalho.
.
Porque nada é teu, como o que é do vento,
e a tua glória mal te cobre a nudez;
a roupa usada por um órfão consegue
ser mais deslumbrante e ao menos é sua.
.
És tão pobre como a força de um feto
numa rapariga desejosa de o esconder,
comprimindo o ventre para abafar
o primeiro sopro da sua gravidez.
.
E tu és pobre: como a chuva da Primavera
que cai docemente nos telhados da cidade,
como um desejo que o prisioneiro acalenta
na cela, privado para sempre do mundo.
E como os doentes que, ao mudarem de posição,
são felizes; como flores em carris,
tristemente pobres ao vento louco das viagens;
e como a mão em que se chora, tão pobre...
.
E que são, ao pé de ti, as aves que tremem de frio,
o que é um cão que passa dias sem comer,
o que é, ao pé de ti, o cada um perder-se,
a longa e muda tristeza dos animais
que foram esquecidos prisioneiros?
.
E todos os pobres dos asilos nocturnos,
que são eles ao pé de ti e da tua miséria?
Pequenas pedras apenas, não mós de moinho,
que todavia ainda moem um pouco de pão.
.
Mas tu estás na miséria extrema,
pedinte de rosto escondido;
tu és a grande rosa da pobreza,
a eterna metamorfose
do ouro em luz do sol.
.
Tu és o apátrida furtivo
que não encontrou lugar no mundo:
demasiado grande e pesado para ser usado.
.
Bramas na tempestade. És como a harpa
cujas cordas despedaçam o tocador.
.
in O Livro da Pobreza e da Morte (3.ª parte do Livro de Horas)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cordão de Leitura: 24 horas a ler em Lisboa

Nos próximos dias 19 e 20 de Setembro, com início às 15 h de sábado e encerramento às 15 h de domingo, realizar-se-à, na Praça Luís de Camões, em Lisboa, um evento dedicado ao livro e à leitura promovido pela Editora Objectiva, e que consiste numa maratona de 24 horas a ler.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Prémio-1


Agradeço à Ana Paula do blogue Catharsis, que atribuiu este prémio ao Direito e Avesso e também ao meu outro blogue, Restolhando, parecendo estar duplamente viciada esta minha leitora muito especial.
Quanto às propostas, querida Ana Paula, do mesmo modo que o ontem já não existe, o amanhã também não existe ainda, o que apenas existe é o hoje, mais exactamente o momento presente, pelo que não vale a pena fazer planos e há que aproveitar os momentos o melhor que sei (carpe diem). Inspirei-me na filosofia de Santo Agostinho.
Desta vez atribuo este prémio apenas a dois blogues; o de um jovem advogado muito especial, o Ega/Edgar, do Metafísica do Esquecimento, agora que voltou de férias, e a uma descoberta mais recente, o contador antropomórfico do blogue A Casa Improvável.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

António Aleixo - quadras


Tem quase um palmo de boca
não pode guardar segredos;
porém a testa é que é pouca:
tem pouco mais de dois dedos.
.
P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.
.
Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão.
.
São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós:
às vezes rimos daqueles
que valem mais do que nós.
.
Julgando um dever cumprir,
sem descer no meu critério,
digo verdades a rir
aos que me mentem a sério!
.
Sem que discurso eu pedisse,
ele falou, e eu escutei.
Gostei do que ele não disse,
do que disse não gostei.
.
Tu, que tanto prometeste
enquanto nada podias,
hoje que podes - esqueceste
tudo o que prometias...
.
Os novos que se envaidecem
pelo muito que querem ser,
são frutos bons que apodrecem
mal começam a nascer.
.
Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis,
agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz.
.
António Aleixo, poeta popular, cujo centenário do nascimento e cinquentenário da morte se assinalou em 1999.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen - poema


Catarina Eufémia
.
O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
.
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
.
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
.
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da Justiça continua
.
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

sábado, 29 de agosto de 2009

Desabafos da Luísa (3)




Programas eleitorais do PSD e do PS

Encontrei a Luísa muito introspectiva e quis saber o motivo daquele remoer interior, ao que ela respondeu: - Agora que Manuela Ferreira Leite pôs no papel o que se propõe fazer se ganhar as próximas eleições legislativas, e comparando este programa de governo com o de José Sócrates, fiquei um pouco desiludida com o facto de dois partidos, PSD e PS, que se situam na área da social-democracia, não terem uma visão de futuro, portanto de longo prazo, para Portugal.
No do PSD propõe-se, em casos específicos, fazer de maneira diferente o que o PS fez nesta legislatura. Por exemplo, no que respeita ao estatuto da carreira docente e à avaliação, coloca-se ao lado dos professores mas, por outro lado, exige que os magistrados e juízes sejam avaliados pela qualidade e quantidade dos seus desempenhos e faz depender disso as respectivas remunerações. Quer dizer, vamos deixar de ver os professores na rua e passamos a ver juízes e magistrados em manifestações, se Ferreira Leite ganhar as eleições. Fala ainda no encurtamento dos prazos das decisões judiciais, só que isso não depende dela, uma vez que os prazos processuais estão todos definidos na Lei, e as leis têm de ser aprovadas pela Assembleia da República! Lá teremos mais alterações ao Código do Processo Penal, isto admitindo que a corporação de juízes e magistrados fique muito sossegadinha. Não nos podemos esquecer que os Tribunais constituem um órgão de soberania (embora não pareça pelos sindicatos que os magistrados formaram) e, por isso, tudo o que gira à sua volta tem um poder de influência que a corporação dos professores não tem. Resumindo: só este pormenor do programa do PSD já dá para afligir e prever, se for adiante, uma agitação e uma instabilidade insuportável. Eu tenho consciência de que as crises é que devem ser consideradas a regra e a estabilidade a excepção, que são as crises que nos permitem fazer rupturas com o que está errado e fazer escolhas mais acertadas para resolver os problemas. Mas uma coisa é isso e outra coisa é vivermos diariamente num pandemónio que só os magistrados sabem fazer quando lhes chega a mostarda ao nariz. Os médicos, os enfermeiros e os professores, em comparação, são uns santos, devido à diferença no poder de influência que aqueles possuem. E se a lentidão da Justiça tem sido um dos nossos calcanhares de Aquiles para o investimento estrangeiro em Portugal, com mais essa perturbação é bem possível que o desemprego atinja os 11% ou 12%, senão mais, já que Ferreira Leite também não quer investir em grandes obras públicas.
Outro pormenor do programa do PSD que me deixou a pensar é o da cobrança do IVA. Os empresários e empresas só entregarão o IVA às Finanças quando o tiverem recebido dos clientes, e não, como agora, que têm prazos determinados, ao longo do ano, para o fazerem, independentemente de já o terem recebido. Tal implica que o Estado vai ficar com menos dinheiro disponível e em prazos regulares e previsíveis para cumprir as suas obrigações, ficando sem se saber quando é que esses montantes entrarão nos cofres do Estado pois ficam dependentes dos bons e maus pagadores dentro do tecido empresarial. Creio que esta medida introduz um grão de areia na engrenagem, para não dizer um pedregulho.
Manuela Ferreira Leite também se propõe acabar com as taxas moderadoras para internamentos e cirurgias hospitalares, de que já estão isentos mais de 50% dos cidadãos, o que significa que essa medida abrangeria apenas os restantes e, desses, apenas os que são tratados em hospitais públicos. Salvo erro, por cada dia de internamento paga-se actualmente € 5,00, pelo que, por aí, não viria o Serviço Nacional de Saúde abaixo. Já quanto à descida da taxa social única em 2% para os empregadores, tenho dúvidas que o Fundo da Segurança Social, que com o sacrifício de todos se conseguiu estabilizar e garantir as reformas a mais longo prazo e a agilização no pagamento dos subsídios de desemprego, não venha a conhecer de novo as dificuldades de outrora. E como Ferreira Leite também quer alargar os períodos de concessão dos subsídos de desemprego, mesmo que temporariamente, quer dizer, menos dinheiro a entrar e mais dinheiro a sair. Nada disto faz sentido na minha cabeça.
Surgiu-me, inclusivé, uma ideia maluca para evitar este faz e desfaz todos os 4 anos; é que a duração de cada legislatura fosse de 8 anos, com orçamentos quadrienais, e que a meio da legislatura se fizesse o balanço da acção governativa, podendo os cidadãos serem chamados a pronunciar-se sobre a mesma, não com a finalidade de substituir o partido no governo mas para avaliar a sua gestão e, consoante o veredicto cidadão, dar oportunidade ao governo em funções de corrigir o que houvesse a corrigir. Para assegurar o regular funcionamento das instituições já existe um órgão de soberania que é a Presidência da República, não se colocando, assim, nem o espectro da ditadura nem da anarquia. Sempre o Estado de Direito, embora eu preferisse um Estado de Justiça. E com esta me vou.
.
(uma nota: enquanto estive a escrever em papel as apreensões da Luísa, vi que um cartaz enorme da campanha de Manuela Ferreira Leite caíu do seu suporte, rasgou-se e andou ao sabor do vento, enquanto um vizinho do prédio ao lado tentava arrastar os destroços para não irem para a estrada perturbar o trânsito. Ah! o da CDU, que estava num poste de iluminação, também foi abaixo. Esta brisa cruzada entre as serras de Carnaxide, de Sintra e o Atlântico faz destas coisas! O pessoal da Câmara de Oeiras não demorou a vir recolhê-los, o que quer dizer que o vizinho os chamou. Como entre a queda dos cartazes e a sua recolha decorreu apenas meia-hora, parabéns ao vizinho pelo gesto de cidadania e à Câmara pela rapidez. Quanto ao resto, é pura coincidência.)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A. Schopenhauer - pensamentos

À semelhança do que fiz com Nietzsche, e que é uma das páginas mais visitadas, compilei alguns pensamentos de Arthur Schopenhauer (a imagem representa ambos), que se encontram dispersos por várias das suas obras e cujos títulos indicarei no fim. Espero assim satisfazer muitos que também o procuram e que só encontravam citações dispersas.
«»
.
Talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Génio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem.
.
Se olharmos a vida nos seus pequenos detalhes, tudo parece muito ridículo. É como uma gota de água vista ao microscópio, uma só gota cheia de protozoários. Achamos muita graça a como eles se agitam e lutam tanto entre si. Aqui, no curto período da vida humana, essa actividade febril produz um efeito cómico.
.
A maior sabedoria é ter o presente como o objecto maior da vida, pois este é a única realidade, tudo o mais é imaginação. Mas poderíamos também considerar isso a nossa maior maluquice, pois aquilo que existe só por um instante e desaparece, não merece um esforço sério.
.
Uma pessoa de raros dons intelectuais, obrigada a fazer um trabalho apenas útil, é como um jarro valioso, com as mais lindas pinturas, usado como pote de cozinha.
.
É interessante que, além da vida real, o homem tem sempre uma segunda vida abstracta onde, com calma deliberação, o que antes o deixava nervoso e irritado parece frio, sem graça e distante: ele é mero espectador e observador.
.
As grandes dores fazem com que as menores mal sejam sentidas e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta.
.
A alegria e despreocupação da nossa juventude deve-se, em parte, ao facto de estarmos a subir a montanha da vida e não vermos a morte que nos aguarda do outro lado.
.
Feliz é o homem que consegue evitar a maioria dos seus semelhantes.
.
No fim da vida, a maioria dos homens percebe, surpreendida, que viveu provisoriamente e que as coisas que abandonou por não terem graça ou interesse eram, justamente, a vida. E assim, traído pela esperança, o homem dança nos braços da morte.
.
Na infância, o aparelho sexual está inactivo, enquanto o cérebro funciona plenamente, por isso, essa é a época da inocência e da felicidade, o paraíso perdido do qual sentimos falta pelo resto da vida.
.
O sexo intromete-se com o seu lixo e interfere nas negociações dos estadistas e nas investigações dos eruditos. Todos os dias destrói os relacionamentos mais preciosos e rouba os escrúpulos aos que antes eram honestos.
.
Se não conto o meu segredo, ele é meu prisioneiro. Se o deixo escapar, sou prisioneiro dele. A árvore do silêncio dá os frutos da paz.
.
Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça.(...) No fim, ela vence, pois desde o nascimento é esse o nosso destino e ela brinca um pouco com a sua presa antes de a comer. Mas continuamos a viver com grande interesse e inquietação durante o máximo tempo possível, do mesmo modo que sopramos uma bola de sabão até esta ficar bastante grande, embora tenhamos a certeza absoluta que vai rebentar.
.
A vida é uma coisa miserável. Decidi passar a minha a pensar nisso.
.
Uma vida feliz é impossível. O máximo que se pode ter é uma vida heróica.
.
A sólida base da nossa visão do mundo, bem como o grau da sua profundidade, são formados na infância. Essa visão é depois elaborada e aperfeiçoada, mas, na essência, não se altera.
.
A religião tem todas as coisas a seu favor: a revelação feita por Deus aos homens, as profecias, a protecção do governo, das figuras mais respeitáveis e mais importantes. Mais que isso, o enorme privilégio de poder gravar a sua doutrina na mente das pessoas quando são crianças e, com isso, as ideias tornam-se quase congénitas.
.
Num espaço infinito, inúmeras esferas luminosas em volta das quais giram dezenas de outras menores, quentes no centro e cobertas por uma casca dura e fria, onde uma névoa bolorenta originou a vida e os seres conhecidos. Esta é a realidade, o mundo.
.
A primeira regra para não ser um brinquedo nas mãos de qualquer velhaco, nem ridicularizado por qualquer imbecil, é manter-se reservado e distante.
.
Quando tinha trinta anos, estava cansado e aborrecido por ter de considerar iguais a mim pessoas que nada tinham a ver comigo. Como um gato que, quando pequeno, brinca com bolas de papel porque pensa que são vivas e se parecem com ele, assim me sinto eu em relação aos bípedes.
.
Poucas coisas deixam as pessoas tão satisfeitas como ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em ti.
.
Deveríamos limitar os nossos desejos, controlar as nossas vontades e dominar a nossa raiva, sabendo que só conseguimos o mínimo do que vale a pena ter.
.
Não há rosa sem espinhos. Mas há muitos espinhos sem rosa.
.
Não escrevi para a multidão. (...) A minha obra é para os que pensam e que, no decorrer do tempo, vão ser a excepção. Sentirão o que eu senti, como um marinheiro náufrago numa ilha deserta, para quem a pegada de um ex-companheiro de sofrimento dá mais consolo do que as catatuas e os macacos nas árvores.
.
Mesmo sem motivo, sinto sempre uma ansiedade que me faz ver e procurar perigo onde ele não existe. Isso aumenta infinitamente qualquer aflição e faz com que a ligação com os outros seja muito difícil.
.
Os escritos e ideias deixados em livro por homens como eu são o meu maior prazer na vida. Sem livros, teria desesperado há muito tempo.
.
Vista da juventude, a vida é um longo futuro; a partir da velhice, parece um curto passado. Quando partimos num navio, as coisas na praia vão diminuindo e ficando mais difíceis de distinguir; o mesmo se passa com os factos e actividades do nosso passado.
.
Quem ama sente uma enorme desilusão depois de, finalmente, chegar ao prazer. E, surpreendido, vê que aquilo que tanto desejou proporciona o mesmo que qualquer outra relação sexual, e assim não encontrará muitas vantagens em amar.
.
Devemos encarar com tolerância todas as loucuras, fracassos e vícios dos outros, sabendo que apenas encaramos as nossas próprias loucuras, fracassos e vícios.
.
Ao chegar ao fim da vida, nenhum homem sincero e na posse das suas faculdades vai desejar voltar a viver. Preferirá morrer para sempre.
.
Consigo suportar a ideia de que poucas horas depois de morrer, os vermes comerão o meu corpo, mas estremeço ao imaginar professores a criticar a minha filosofia.
.
Desejar o mínimo possível e saber o máximo possível.
.
A vida pode ser comparada a um bordado que no começo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.
.
«»
Pensamentos extraídos das seguintes obras:
Parerga e Paralipomena
O Mundo como Vontade
O Mundo como Vontade e como Representação
(de manuscritos deixados)

domingo, 23 de agosto de 2009

Miguel de Unamuno: "A guerra é, no seu mais estrito sentido, a santificação do homicídio"


«(...) Há muito mais humanidade na guerra do que na paz. A não resistência ao mal implica resistência ao bem, e mesmo fora da defensiva, a própria ofensiva é, porventura, o que há de mais divino na Humanidade. A guerra é escola de fraternidade e laço de amor; é a guerra que, pelo choque e pela mútua agressão, tem posto em contacto os povos, e os tem levado a conhecer-se e a amar-se. O mais puro e mais fecundo abraço de amor que os homens se dão entre si é aquele que, no campo de batalha, se dão o vencedor e o vencido. E até mesmo o ódio depurado, que surge da guerra, é fecundo. A guerra é, no seu mais estrito sentido, a santificação do homicídio. Caim redime-se como general de exércitos. E, se Caim não tivesse matado seu irmão Abel, teria sido morto por este. Deus revelou-se principalmente na guerra; começou por ser o deus dos exércitos, e um dos maiores serviços da cruz é o de defender, na espada, a mão que a segura e brande.
Caim, o fratricida, foi o fundador do Estado, dizem os inimigos deste. E há que aceitá-lo e considerá-lo, em glória do Estado, filho da guerra. A civilização começou no dia em que um homem, sujeitando a outrem, e obrigando-o a trabalhar para os dois, pôde dar-se à contemplação do mundo, e obrigar o seu súbdito a trabalhos de luxo. Foi a escravatura que permitiu a Platão especular sobre a república ideal, e foi a guerra que consigo trouxe a escravatura. Não é em vão que Atena é a deusa da guerra e da ciência. Mas será preciso repetir, mais uma vez, estas verdades tão óbvias, mil vezes desprezadas e mil vezes renascidas?
O preceito supremo que ressalta do amor a Deus, base de toda a moral é este: entrega-te inteiramente, dá o teu espírito para o salvar, para o eternizar. Tal o sacrifício da vida.
E entregar-se implica, há que repeti-lo, impor-se. A verdadeira moral religiosa é, no fundo, agressiva, invasora.
O indivíduo, como indivíduo, o miserável indivíduo que vive preso ao instinto de conservação e dos sentidos, só pretende conservar-se, e toda a sua mania é não deixar penetrar ninguém na sua esfera, não consentir que o incomodem, que lhe importunem o descanso; em troca do que, ou para dar um exemplo e uma regra, ele renuncia a penetrar nos outros, a importunar o descanso deles, a apoderar-se deles. O «não faças a outrem o que não queres que te façam» tradu-lo ele assim: não me meto com os outros, os outros que não se metam comigo. Ele se amesquinha, e se torna sombrio, nesta avareza espiritual e nesta moral repulsiva do individualismo anárquico: cada um para si.»
Guernica de Picasso
.
in Do Sentimento Trágico da Vida, pp 204/205.


sábado, 22 de agosto de 2009

Manuel Bandeira - Madrigal Melancólico

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
-Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
.
O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.
.
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
.
(11 de Julho de 1920)
.
Manuel Bandeira (Recife, 1886-1968)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Agustina Bessa-Luís - excerto de A Sibila

«É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas, os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.
Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida, sem que, porém, as suas aspirações mais inquietantes deixassem de ser, no seu íntimo, as mesmas formas incompletas, chave da transfiguração que os homens eternamente tentam moldar e se legam de mão em mão, como um segredo e como uma dúvida.
Eis Germa, que, embalando-se na velha rocking-chair, pensa e pressente, sabendo-se actual relicário desse terrível, extenuante legado de aspiração humana. Nas suas veias, estão todos os infinitos estados do passado, no seu cérebro condensaram-se muitas e muitas experiências que não viveu, as negações e afirmações ocupam vastos espaços da sua alma. Ela move-se ritmicamente baloiçando-se naquela sala onde se recolhem em pilhas as maçãs; todo o ar rescende a maçã que suga da própria pele a frescura e dela dessangra o suco que acrescentará a reserva da polpa viva, ainda por todo o Inverno.
Eis Germa, eis a sua vez agora e o tempo de traduzir a voz da sua sibila. Talvez, porém, o seu tempo seja improdutivo e nefasto, e ela fique de facto silenciosa, porque - quem é ela para ser um pouco mais do que Quina e esperar que os tempos novos sejam mais aptos a esclarecer o homem e a trazer-lhe a solução de si próprio? Talvez ela fique de facto imóvel no seu constante, lento ou vertiginoso baloiçar, na casa que fortuitamente habita, e a sua história fique hermeticamente fechada no círculo de aspirações que não conseguiu detalhar e cumprir, porque aconteceu ser cedo ou ser tarde, porque não se compreende ou não se crê o bastante, porque se deseja demasiado e isto é todo o destino, porque... porque...» (16 de Janeiro de 1953)
*
Estes são os últimos parágrafos de A Sibila de Agustina Bessa-Luís, o primeiro livro dela que li e de que gostei muito, e que ficam aqui como homenagem enquanto ainda está viva, embora muito doente; estou a começar a ficar cansada de só homenagear alguns dos grandes seres humanos in memoriam, porque ela, a morte, apanha-nos quase sempre desprevenidos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Mário de Sá-Carneiro - "A Queda"

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.
.
Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro à míngua, de excesso.
.
Alteio-me na cor à força de quabranto,
Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.
.
Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
- Vencer às vezes é o mesmo que tombar -
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideias ascendo até ao fim:
Olho de alto o gelo, ao gelo me arremesso...
.
Tombei...
.
E fico só esmagado sobre mim!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Desabafos da Luísa (2)



Direitos dos consumidores
.
A Luísa telefonou-me e disse: - Tem de ouvir esta! Como sabe, aos fins-de-semana a BP reduz o preço dos combustíveis em 6 cêntimos, mas reduz também o número de empregados ao balcão, ou seja, há mais viaturas a abastecer e menos gente para atender os clientes. Este domingo fui lá e encontrei uma fila ao balcão que já se prolongava para o exterior da loja. A causa - só estava uma empregada. A fila lá ía a passo de caracol, uns a pagar combustível e jornais, outros só jornais ou revistas, outros pão, água, tabaco, enfim, o que se vende nesses postos que têm loja de conveniência. A certa altura, um pouco à minha frente, dois homens pediram garrafas de gás propano. A empregada disse-lhes que não podia ir lá fora dar-lhes as garrafas porque a colega tinha ido almoçar e ela estava sozinha e não podia deixar o balcão. Esses clientes disseram à empregada que isso não era problema deles, que não havia qualquer cartaz escrito com essa informação, que estavam há quase meia hora na fila e precisavam do gás, a empregada que ligasse ao chefe para resolver o problema porque eles dali não saíam e que, enquanto não fossem atendidos, mais ninguém o seria - e a fila a crescer. Alguém do fundo da fila sugeriu que pedissem o livro de reclamações para o preencherem enquanto esperavam; outro dizia que, se não querem contratar mais empregados, mais valia fecharem aos fins-de-semana, que os clientes iriam a outro lado, que o que há mais por aqui são postos de abastecimento de combustível. Entretanto a empregada telefonou ao chefe a expôr-lhe a situação e colocou uma tabuleta com a indicação que, de momento, não vendiam garrafas de gás.
Estava eu encantada com toda esta demonstração de conhecimento dos direitos dos consumidores e com a posição firme daqueles 2 clientes em não darem a vez a outros enquanto não fosse resolvido o seu problema quando um deles resolve dizer: vamos mas é embora (e um palavrão)! Lembrei-me, então, de um estudo publicado há cerca de um mês por um organismo europeu em que se concluía que os portugueses eram, entre os europeus, os que reclamavam menos dos serviços, e de ter pensado, nessa altura, que eles não conhecem os portugueses. Quanto a reclamações e queixas, para não dizer queixinhas, devemos estar entre os primeiros. Só que nestas coisas, o que conta para as estatísticas são as reclamações escritas, apresentadas segundo a legislação dos respectivos países, e aí, está bem, está!, os portugueses são avessos a assinarem reclamações onde têm que identificar-se e, por vezes, até apresentar testemunhas. A não ser que seja só por preguiça! Se aqueles clientes da BP tivessem levado até ao fim a sua atitude, que além de pedagógica para alguns que estavam na fila, quem sabe se não contribuiriam para a contratação de mais uma pessoa para aquela loja de conveniência. Mas isto já sou eu a divagar.

domingo, 9 de agosto de 2009

Desabafos da Luísa (1)

Cada qual com a sua cruz
Dizia-me a Luísa num destes dias: - É tão triste apercebermo-nos de que não temos ninguém neste mundo, mesmo quando temos ainda família, e aí é que reside o desgosto, ter família e tudo se passar como se a não tivesse. Não querem saber de ninguém senão deles próprios. Se contactam, é para anunciar funerais, ou enviam um ou outro sms pelo Natal e pelos meus anos, e está feito. Por vezes sinto que até Deus se esqueceu de mim. Vim sentar-me neste banco de jardim, ao sol, porque preciso que esta luz penetre nos meus olhos; preciso de me afastar de casa onde há dias em que não paro de chorar. Choro a morte de escritores, de pintores, de actores, de poetas, de gente que embelezou este mundo, que não por mim. Para cúmulo, a maioria das mensagens que recebo pela Internet, são reencaminhamentos daquelas paisagens muito bonitas onde se sobrepõem textos mais ou menos espirituais ou filosóficos, autênticos tratados sobre a verdadeira amizade, o verdadeiro amor, como as famílias podem ser felizes, como podemos salvar o planeta, os animais, os rios e os oceanos, enfim, essas mensagens que circulam pelo mundo electrónico e que recebemos mais que uma vez. No entanto, se estou vários dias sem as reencaminhar, nenhuma dessas pessoas, que se mostram tão minhas "amigas" e que se "lembram tanto de mim" através desse tipo de mensagens que me enviam, e que toda a gente recebe, nenhuma delas, até hoje, se lembrou de me enviar uma mensagem personalizada ou sms onde, simplesmente, me pergunte se estou doente, se necessito de alguma coisa, de companhia, de conversar, de desabafar, como estou agora a fazer consigo!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Marguerite Yourcenar - Fogos do Solstício

O solstício de Inverno tem por festa o Natal; a Páscoa, no equinócio da Primavera, ocupa por si só o lugar de todas as outras festas do ressurgimento, como as Maias que os jovens e donzelas celebravam na Idade Média a cavalo pelas florestas ou dançando na erva, ou as rogações quase desaparecidas por o homem da nossa época não amar bastante a terra, nem o céu, para atrair sobre aquela as bênçãos deste. O São João, festa do solstício de Verão, viu apagar-se por quase toda a parte as suas fogueiras, salvo talvez nos países escandinavos, onde os lagos reflectem ainda as suas chamas. Mas já ninguém na Sicília fica à espreita na véspera do dia 24 de Junho, para ver uma Salomé nua a dançar ao Sol nascente, levando num prato de ouro, ele próprio uma imagem solar, a cabeça cortada do Precursor.
E decerto o homem do deserto alimentado de mel e de gafanhotos, o profeta queimado pelo reflexo do sol a pique sobre as rochas, o pregador de palavra incandescente, poderia simbolizar no Oriente a estação ardente, e o refrescante contraste da água do Jordão só lhe reforça a intensidade. Mas parece que o elemento de esplendor e de serena claridade, tão ligado nas nossas regiões temporadas à própria ideia de solstício de Junho, faz muita falta a esta história de ascetismo e de sangue. Outras festas cristãs, o Pentecostes, com as suas chamas místicas, o Corpo de Deus, com a sua procissão floral e rústica em torno da custódia, são também festas de Verão; elas nunca foram sentidas como as festas de Verão. A estação que é ela própria uma festa não precisa de falar de uma festa sua.
Pareceria no entanto que os fogos-de-artifício do 14 de Junho em França e a orgia de foguetes e petardos no 4 de Julho americano respondem ao mesmo velho desejo do homem de reproduzir na Terra um grande episódio solar, de aumentar ainda, se possível, o calor e a luz vindos do céu. Não lamentamos demasiado que o velho fogo-de-vista que brilhava de aldeia em aldeia, de monte em monte, ameaçando de incêndios florestas e pastos, se tenha definitivamente extinto, por muito pitorescos que fossem os saltos na fogueira. Os bailes e os arraiais, também eles quase caídos em desuso, tomaram de certo modo o seu lugar, mas já dessacralizados, salvo talvez alguns lampejos de patriotismo motivados apenas na consciência dos que dançam por certas ideias feitas da nossa história. E talvez o enorme e quase aterrador êxodo estival dos nossos dias seja um rito solar que se ignora.
Mas a ideia de uma festa do solstício causa-nos uma estranha vertigem semelhante à do homem que se mantém em equilíbrio numa esfera escorregadia. Esta plena medida de luz, esse dia mais longo do ano, que no cabo Norte dura quase dez semanas, é também o momento em que na Antárctica a noite reina, apenas iluminada pelos fogos longínquos dos astros. Mais ainda, este apogeu marca o começo de uma descida; os dias irão decrescendo até ao nadir do solstício de Inverno; o Inverno astronómico começa em Junho, como o Verão astronómico começa em Dezembro, quando as horas de luz crescem insensivelmente de novo até ao auge que é o São João. Temos diante de nós três meses de prados verdes, de flores, de colheitas, de areia quente nas praias, de cantos nas árvores, mas o movimento do céu prepara já o Inverno, como em pleno Inverno é o Verão que se prepara. Estamos metidos nesta dupla espiral que sobe e desce. «Pára, és tão belo!», poderia dizer Fausto ao solstício de Junho. Seria em vão. É só em nós, e mesmo assim sem grande esperança nem grande fé, que iremos encontrar a estabilidade. (1977)
.
in O Tempo esse grande escultor, tradução de Helena Vaz da Silva, Difel, Lisboa, 1984, páginas 110/1

sábado, 1 de agosto de 2009

Eduardo Lourenço - "perfil dos portugueses"

«(...) Os portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós. (...) Os portugueses não convivem entre si, como uma lenda tenaz o proclama, espiam-se, controlam-se, uns aos outros; não dialogam, disputam-se, e a convivência é uma osmose do mesmo ao mesmo, sem enriquecimento mútuo, que nunca um português confessará que aprendeu alguma coisa de um outro, a menos que seja pai ou mãe ...»
.
in O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português, Círculo de Leitores, Lisboa, 1988, página 74.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Eugénio de Andrade - poesia


As Amoras

O meu país sabe às amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

«»

Recomecemos então

Recomecemos então, as mãos
palma com palma.
Diz, não digas, a palavra.
As palavras terão sentido ainda?
Haverá outro Verão, outro mar
para as palavras?
Vão de vaga em vaga,
de vaga em vaga vão apagadas.
Seremos nós, tu e eu, as palavras?
Onde nos levam, neste crepúsculo,
assim palma com palma,
de mãos dadas?

«»

Não se aprende

Não se aprende grande coisa com a idade.
Talvez a ser mais simples,
a escrever com menos adjectivos.
Demoro-me a escutar um rumor.
Pode ser o prelúdio tímido ainda
do cantar de um pássaro, uma gota
de água na torneira mal fechada,
a anunciação do tão amado
aroma dos primeiros lilazes.
Seja o que for, é o que me retém
aqui, me sustenta, impede de ser
uma qualquer vibração da cal,
simples acorde solar, um nó
de luz negra prestes a explodir.
.
Eugénio de Andrade

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Rainer Maria Rilke - poesia

As cidades só pensam em si próprias
e arrasam tudo na sua corrida.
Despedaçam os animais como madeira oca
e consomem na tormenta povos inteiros.
.
E os seus homens, escravos das ciências,
perdem o equilíbrio e a medida,
e chamam progresso ao seu rasto de caracol;
a lentidão cede o passo à velocidade;
sentem e brilham como as prostitutas
e aturdem-se com ruídos de metais e vidros.
.
Como se uma miragem diariamente os ofuscasse,
eles já não conseguem ser eles próprios;
a força do dinheiro cresce e possui-os,
forte como vento do Leste, e eles são pequenos
e hesitantes e esperam do álcool
e do veneno dos fluidos humanos e animais
um ímpeto para os seus negócios efémeros.
.
E os teus pobres sofrem sob o seu jugo
e tudo o que vêem os oprime
e ardem gelados como em febre
e, expulsos de todas as casas,
andam pela noite como mortos estrangeiros;
carregados de toda a imundície do mundo,
são cuspidos como o que apodrece ao sol,-
por cada acaso, pela pintura das prostitutas,
por carros e lampiões insultados.
.
E se houver ainda uma voz para os defender,
faz que seja forte e persuasiva.
.
in "O LIvro da Pobreza e da Morte" (ou a 3.ª parte do Livro de Horas-1905)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A. Schopenhauer - Fábula do porco-espinho

"Num frio dia de Inverno, alguns porcos-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podem tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem."
Moral da fábula: "Quem tem muito calor interno prefere manter-se afastado da sociedade para não dar nem receber problemas e aborrecimentos."
Por outras palavras, toleramos a proximidade dos outros só quando é necessário à sobrevivência, evitando-a sempre que possível.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Os Amish vistos por Bernard-Henri Lévy








«Conhecia A Testemunha, o filme de Peter Weir, com Harrison Ford. Sabia que era uma seita estranha, vagamente anabaptista, que vivia no despojamento, ao ritmo da natureza e das culturas. Vejamos o que aconteceu. De regresso a Des Moines, e enquanto esperava retomar o meu caminho na direcção da costa californiana, ponho-me em busca desses famosos Amish, os plain people, os "homens simples", não havendo ninguém que soubesse dizer-me com precisão onde os encontrar. (...)
Seguir, pois, até Kalona, outra aldeia Potemkine, novamente vazia, com os seus correios de época, o seu saloon, a sua loja onde se vende tudo, sempre a mesma falsa aparência, ainda a mesma decoração: salvo que, desta vez, a decoração não é só uma decoração e que há realmente, nas quintas em redor, escondidos dos olhares, cortados do mundo, homens e mulheres que vivem segundo a lei ancestral dos amish. Amish, esses camponeses que vejo, ao longe, a trabalhar com charruas de há quinhentos anos. Amish, essas estradas adequadas, sem asfalto, onde as carroças - porque os amish só andam de carroça - levantam, diante do meu carro, densas nuvens de poeira. Amish, esses homens de calças castanhas e largos suspensórios que parecem saídos de um quadro de Le Nain - e amish, essas mulheres com vestidos de burel e touca branca que nunca cortam os cabelos. Amish, a recusa da electricidade, a não ser para os doentes profundos. Amish, a recusa dos estudos secundários e, de facto, estudos em geral - tudo, para os plain people, está na Bíblia; a existência pode ser, de uma ponta à outra, ritmada pela leitura da Bíblia. Amish, esses outros camponeses, de regresso dos campos, que fogem diante da minha máquina de filmar: Deus disse que não farás ídolos nem imagens; com mais forte razão, não é, imagens do rosto e do olhar? Amish, finalmente, a Community County Store onde se vendem pães amish, açúcares de cevada amish, canecas amish (inoxidáveis), embalagens amish (artesanais).
- Serve-se de uma máquina de calcular? - Pergunto eu à velha amish corcunda que está na caixa.
- Sim - afirma ela com uma voz espantosamente viva e aflautada - porque ela é de pilhas, não tem necessidade de electricidade.
E quando tento saber mais sobre a dificuldade de ser amish na América contemporânea, quando tenciono interrogá-la sobre a espécie de cidadãos que são quando são amish, se votam e por quem, se lêem os jornais e quais, como viveram o ataque do 11 de Setembro, se se sentem envolvidos, e como, pela ameaça terrorista, inicia-se uma breve conversa, rapidamente interrompida pelo seu sobrinho que se mostra desconfiado: não, os amish não votam; sim, os amish são maus patriotas e maus cidadãos; um amish não serve na função pública nem no exército; ser amish é estar-se nas tintas para o 11 de Setembro, a Al Qaeda, a segurança dos americanos e o resto. Aliás, a velha senhora não diz "os americanos", mas "os ingleses". Para os amish, os Estados Unidos não são um país, mas uma abstracção, uma ficção.
Quem são os amish, então? Quem são estes homens e estas mulheres que vivem em autarcia económica, com o olho fixo na eternidade? Uma contra-sociedade? Uma anti-América na América? O caso, único no Ocidente, de uma comunidade a-comunitária, que aplica o preceito bíblico de ficar à parte, separada? Insurrectos não exterminados? Secessionistas definitivos? Lembro-me como, nos anos 60, se dizia que os hippies tinham como modelo os índios: no fundo, talvez não; talvez o modelo fossem os amish...
A não ser que seja necessário ver a coisa ainda de outra maneira. A não ser que seja necessário pôr a teimosia dos "Homens Simples" na perspectiva desta filosofia política, digamos "excepcionalista", que eu sei não estar menos presente, nas cabeças americanas, do que na época de Tocqueville. Um suplemento ao pacto social. Uma peça adicional ao contrato. Esta cláusula a mais, aquele artigo em excesso, que os Pais fundadores não tinham previsto mas que fazem parte das suas intenções: o primeiro lógico que apareça sabe que esta é a condição para que um Todo não esteja saturado e para que uma sociedade que entre no jogo realize melhor o seu conceito e os seus desígnios. Ou então precisamente o inverso. As testemunhas, não de Deus, mas da América. Os seus verdadeiros e os seus últimos pioneiros. Os únicos que não cederam e que não resumiram a sua religião ao "in God we trust" das notas de banco. Os feiticeiros da pureza perdida. Os herdeiros do Mayflower. As testemunhas mudas, mas verdadeiramente mudas, porque, contrariamente aos índios, ou aos negros, não dizem nada, não reclamam nada e não têm nenhum motivo de queixa em relação a ninguém, as testemunhas mudas, pois, dos valores que foram os da América mas aos quais esta volta as costas desde que se vendeu à religião da mercadoria.
Já não a anti-América, mas a hiper-América. O seu conservatório. O seu Resto no sentido da Bíblia. A sua má consciência viva, mas, mais uma vez, silenciosa. Traíram o ideal dos Pais fundadores? Voltaram as costas aos vossos princípios? A América é um país falhado? Uma utopia não realizada? Pois aí está. Aqui estamos. Precisamente aqui. Não vos censuramos nada. Mas somos os amish. A verdade profunda, escondida, esquecida, negada, da América, mas viva dentro de nós.
Mistério - e grandeza - de um país que tolera isto. Imagino os amish em França. Imagino estes duzentos mil homens e mulheres, a sua demografia positiva, a sua perseverança, o seu testemunho, o seu irredentismo definitivo, no meu velho país jacobino, tão orgulhoso dos ritos da sua própria religião nacional.»
.
in Vertigem Americana, Caderno, Asa Editores, 2007.

sábado, 13 de junho de 2009

Estranheza...


«Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.»
.
Bernardo Soares/Fernando Pessoa no Livro do Desassossego.
.
(Fernando Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Rainer Maria Rilke - excerto de carta a Franz Kappus (1904)

«A rapariga e a mulher, neste seu novo e próprio desenvolvimento, imitarão o jeito e os vícios dos homens e copiarão as profissões masculinas apenas por algum tempo. Uma vez vencida a insegurança destas transições, ver-se-á que esta multiplicação e constante mudança de disfarces (quantas vezes ridículos) ajudarão as mulheres a depurarem a sua natureza das influências desfiguradoras do outro sexo. As mulheres, em que a vida mora e perdura de maneira mais imediata, fértil e confiada, ter-se-ão no fundo tornado pessoas mais amadurecidas, pessoas mais humanas, quando comparadas com a leveza do homem, que é incapaz de penetrar a superfície da vida com o peso de um fruto carregado no ventre, que é demasiado petulante e precipitado para dar valor ao que julga amar. Esta humanidade da mulher, moldada pela dor e pela humilhação, será trazida à luz do dia quando ela se despir das convenções da feminilidade estrita, ao longo das metamorfoses da sua condição exterior, e os homens, que hoje não pressentem ainda esta mudança, serão surpreendidos e abalados por ela. Chegará o dia (e nos países nórdicos temos já sinais evidentes que anunciam e iluminam este dia) em que surgirão a rapariga e a mulher cujo nome já não designa nada que se oponha ao ser masculino, mas antes qualquer coisa que existe para si, qualquer coisa que não fará pensar em complemento ou limite, mas apenas na vida e na presença no mundo: o ser humano feminino.
Este progresso, contrariando de início a vontade dos homens ultrapassados, trará uma metamorfose da experiência do amor, que a mudará desde o seu fundamento até lhe dar a forma de uma relação entre um ser humano e outro ser humano, e já não entre um homem e uma mulher. E este amor mais humano (que se consumará num movimento infinitamente atencioso e discreto, e bom e claro, de prendimento e libertação) será semelhante àquele que arduamente preparamos e pelo qual lutamos, o amor de duas solidões que se protegem, delimitam e saúdam.(...)»
.
in Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, Quasi Edições, trad. Isabel Castro Silva, 1.ª edição, 2008, V.N. Famalicão

sábado, 30 de maio de 2009

"Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa" - Seminário Internacional

Na próxima terça-feira, 2 de Junho, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sala 5.2, realiza-se o Seminário Internacional "Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa", que visa tornar público o trabalho de vários jovens investigadores europeus, na sua maioria preparando em Portugal teses de doutoramento sobre Pessoa, no domínio da Filosofia.
.
Programa:
.
14.00 - Julia Alonso Dieguez (Espanha) - Fernando Pessoa: Un Pensamiento de la Nada.
14.30 - Fabrizio Boscaglia (Itália) - Poesia e Alma. Diálogo imaginário entre Bernardo Soares e James Hillman.
15.00 - Dirk Hennrich (Alemanha) - Ultimatos à Metafísica. Considerações sobre Immanuel Kant e Fernando Pessoa.
15.30 - 15.45 - Intervalo
15.45 - Antonio Cardiello (Itália) - Biblioteca e marginalia. Pessoa leitor de Jules de Gaultier: De Kant a Nietzsche (1910).
16.15 - Dagmara Kraus (Alemanha) - L'Idolâtrie du virtuel: nostalgia and regret in Cioran's works.
16.45 - Conclusão
.
Organização e moderação: Paulo Borges, pauloaeborges@gmail.com / 918113021.
.
Entrada livre.

sábado, 23 de maio de 2009

Direito e Avesso - livro?

Os que chegam a este blogue em resultado de pesquisa sobre um livro com o mesmo nome, é provável que procurem, na realidade, um livro de Albert Camus com o título "O Avesso e o Direito, seguido de Discursos da Suécia" (título original: L'Envers et L'Endroit et Discours de Suède).
Poderei acrescentar que os ensaios reunidos neste livro foram escritos quando Albert Camus tinha vinte e dois anos (1936). Quanto aos Discursos da Suécia, englobam o discurso proferido quando recebeu o prémio Nobel da Literatura e conferências enquanto esteve na Suécia, em 1957.
Boas leituras.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Bernard-Henri Lévy - Apartheid dourado para os velhos?

«Em Sun City, Arizona, a regra é simples e implacável. Ninguém abaixo dos 55 anos. Crianças e adolescentes só admitidos em caso de visita. Uma cidade de velhos, por conseguinte. Uma cidade privada, reservada aos reformados, cortada do resto do mundo tanto por esta regra de ferro como por um muro, verdadeiro, com postos de controlo, que o separam dos bairros hispânicos vizinhos. Um optimista verá, neste falso espaço urbano, com ruas traçadas em linha recta, quase desertas, onde raros avôzinhos circulam em carrinhos de golfe, um oásis de prosperidade num mundo em crise, uma utopia burguesa saída do sonho do urbanista. Reconhecerá aqui uma variante bizarra, mas uma variante na mesma, do bom "pastoralismo", herdado da escola de arquitectura paisagística inglesa do século XVIII e que desempenhou um enorme papel na constituição da ideologia americana. Verá aí um cruzamento, nada desonroso em si, do espírito de Virgílio e do das Luzes, dos sonhos de regresso à natureza que datam dos primeiros peregrinos e do progressismo de vivendas de que vi, em Lakewood, perto de Los Angeles, o género de paisagem que pode dar e em que tipo de filosofia, igualitária e pioneira, se apoia. A "auto-suficiência" de Emerson, em fundo de velhice sujeita a gueto. O "Walden Pond" de Thoreau, versão fortaleza assediada. Nas cidades planificadas deste tipo, nestas cidadelas saídas do nada e, neste caso, do deserto, talvez um optimista vislumbre uma metamorfose, em pleno século XXI, desse espírito pioneiro, dessa capacidade de "se constituir", por "consentimento mútuo e solene", num "corpo da sociedade política" de que Tocqueville, nas primeiras páginas do seu livro, quando evoca, citando Nathaniel Morton, a criação de Plymouth e das primeiras colónias da Nova Inglaterra, faz a própria essência do projecto democrático. E confesso, entre parênteses, não ter achado completamente ridículo, na noite da minha chegada, o pequeno baile organizado, no Westerners Square Dance Club de Sun City West, por alguns dos colonos do terceiro tipo e da quarta idade - confesso ter encontrado um certo encanto no espectáculo destas quinze ou vinte senhoras, armadas em Scarlett O'Hara, todas com folhos, tutus e vestidos engraçados, a dançarem até perder o fôlego ao som de uma orquestra de bailarico, com os Rhett Butler, o mais novo dos quais tinha 80 anos! O problema, evidentemente, é o resto. Todo o resto. São os blacks, que não se vêem. Os hispânicos que me garantem estarem lá, mas dos quais também não sinto a presença. São os pobres em geral, os grandes excluídos deste sonho de vivendas e incorporated, no sentido literal constituído em corpo, autónomo, logo, autogerido, cuja primeira regra de gestão é só aceitar os casais que provem que têm um capital suficiente para poderem viver até aos cem anos - oficialmente, o objectivo do jogo! - sem risco de cessação de pagamento, logo, de expulsão. O problema é, de facto, o sentimento de ter chegado aqui, com esta tribo de velhos, à derradeira etapa de um processo de segregação social, de que pude, em Los Angeles, observar algumas premissas e que, não conseguindo, afinal, nem manter os pobres nos seus guetos, nem empurrá-los para a periferia da cidade, não conseguindo decidir, como se viu, mais uma vez, em Phoenix, envenenar os caixotes do lixo dos restaurantes para dissuadir os sem-abrigo de virem abastecer-se, ficaria resolvido, com uma guerra frouxa, com a deslocação dos ricos. O problema, em suma, é que isso supõe uma ruptura profunda com a tradição, já não digo de compaixão, mas de civismo, que fez e ainda faz a grandeza deste país. E é o terrível precedente que não pode deixar de criar esta experiência de privatização de um espaço público a favor de uma comunidade que, não dependendo já de Phoenix nem de nenhuma outra autoridade estatal e nacional (o "state-nation", o "station", odiado por Emerson) para os seus impostos, a sua rede viária, as suas tarefas de policiamento ou de administração, parece um pequeno satélite liberto das leis do peso social e nacional. Se aceitarmos isto, digo eu a uma das minhas Scarlett, se não ratificarmos o princípio deste gueto dourado, baseado na pertença a uma classe etária e num nível de rendimentos, em nome de quê iríamos impedir amanhã, a constituição de cidades interditas, desta vez, aos velhos? Ou aos homossexuais? Ou aos judeus? Em nome de quê iríamos resistir à balcanização definitiva do espaço americano que se seguiria? Nada a ver! Responde-me a majorette indignada. Não pode comparar projectos tão horrorosos com uma organização cuja única finalidade é facilitar a vida aos idosos que sufocavam nas grandes cidades. Seja. Vejo bem, com efeito, os pequenos arranjos que o sistema permite na vida de todos os dias: tomadas de corrente colocadas mais alto para evitar que tenham de se baixar muito; tectos com a luz estudada para cansar menos os olhos; campos de golfe; piscinas aquecidas tanto no Verão como no Inverno; sistemas de alarme que ligam a maior parte das casas ao hospital e permitem, em caso de doença, ganhar minutos preciosos que são, nesta idade, muitas vezes fatais - refiro apenas as coisas melhores e tudo isso não é, evidentemente, negligenciável. Mas, ao mesmo tempo... Esta impressão de frieza lúgubre... Estas lareiras artificiais nas casas e estas relvas que parecem de cartão... Esta vida plastificada... Estes moribundos que cheiram a saúde... Este tempo fingido, sem outros acontecimentos notáveis a não ser os bailes, a recolha do lixo que os próprios se obstinam a fazer, tal como as rondas de polícia e, last but not least, fontes de uma excitação incansável, os mortos, os enterros... Deixo Sun City num estado de incerteza extrema, já sem saber se vêm para aqui para se salvarem ou para se condenarem, conjurarem a morte, ou fazerem a prova. De regresso a Phoenix, fico a saber que Del Webb, o inventor deste milagre gelado, deste paraíso com ar de purgatório, deste infantário para a terceira idade onde a própria vida parece ter-se tornado uma doença, aprendeu o seu ofício a construir, depois da guerra, casinos, casernas e campos de internamento para japoneses...»
.
in Bernard-Henri Lévy, Vertigem Americana, Caderno, Asa Editores, Lisboa, 1.ª edição, 2007, páginas 163/6.

sábado, 2 de maio de 2009

Miguel de Unamuno - "a dor como caminho para a consciência de si"

«A dor é o caminho da consciência, e é por ele que os seres vivos chegam a ter consciência de si. Porque ter consciência de si mesmo, ter personalidade, é saber e sentir-se distinto dos demais seres, e só se chega a sentir esta distinção pelo choque, pela dor maior ou menor, pela sensação do próprio limite. A consciência de si mesmo não passa da consciência da própria limitação. Sinto-me eu mesmo, ao sentir-me que não sou os outros; saber e sentir até onde sou eu, é saber onde deixo de ser, e a partir donde não sou.
E como saber que se existe, não sofrendo nem pouco nem muito? Como volver sobre si, lograr consciência reflexa, senão através da dor?
Quando gozamos, esquecemo-nos de nós próprios, de que existimos, passamos a outro, alienamo-nos. E só nos ensimesmamos, só voltamos a nós próprios, só voltamos a ser nós, pela dor.
Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
nella miseria
faz dizer Dante a Francesca de Rimini (Inferno, V, 121-123), mas se não há dor maior do que nos recordarmos do tempo feliz na desgraça, não há, em compensação, prazer, em nos recordarmos da desgraça nos tempos da prosperidade.
"A mais acerba dor para o homem é aspirar a muito e não poder ser nada", como diz, segundo Heródoto (liv. IX, cap. 16), um persa a um tebano, num banquete. E assim é. Podemos abarcar tudo ou quase tudo com o conhecimento e o desejo, nada ou quase nada com a vontade. E a felicidade não é a contemplação, não! se essa contemplação significa impotência. E deste choque entre o nosso saber e nosso poder surge a compaixão.
Compadecemo-nos do nosso semelhante, e tanto mais, quanto mais e melhor sentirmos a sua semelhança connosco. E se podemos dizer que é esta semelhança que provoca a nossa compaixão, podemos sustentar também que a nossa provisão de compaixão, pronta a derramar-se sobre todas as coisas, é que nos faz descobrir a semelhança das coisas connosco, o lago comum que nos une com ela, na dor.»
.
in Do Sentimento Trágico da Vida, tradução Cruz Malpique, Relógio D'Água, Lisboa, 2007

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Rainer Maria Rilke - citação

Tocamo-nos um ao outro, e como? Por golpes de asa, mesmo à distância sentimos a presença do outro.
Um poeta vive só, mas de vez em quando surge quem o transporta ao encontro de quem o transportou.
.
Rilke (Maio de 1926)
.
in Rilke / Pasternak / Tsvétaïeva Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006
.
Fotos respectivamente de Rilke, Boris Pasternak e Marina Tsvétaïeva