quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Nietzsche (as carantonhas dos dogmatismos)

«Admitindo que a verdade seja mulher, não será justificado suspeitar que todos os filósofos, conquanto dogmáticos, pouco percebiam de mulheres? Que o sério trágico, a inoportuna falta de tacto que até agora têm empregado para atingir a verdade, eram meios demasiado desastrados e inconvenientes para conquistar o coração de uma mulher? Certo é que ela não se deixou conquistar; e toda a espécie de dogmática toma hoje uma atitude triste e desencorajada, se é que ainda toma alguma atitude. É que há trocistas que pretendem que toda a dogmática caíu por terra - pior ainda, que agoniza. Falando a sério, creio que há bons motivos para esperar que todo o dogmatismo em filosofia - por mais solene e definitivo que se tenha apresentado - não tenha sido mais do que uma nobre criancice e um balbuciar. E talvez não venha longe o tempo em que se compreenderá cada vez mais o que no fundo bastou para a primeira pedra desses edifícios filosóficos, sublimes e absolutos, erguidos até agora pelos dogmáticos: uma superstição popular qualquer, dos mais recuados tempos (como, por exemplo, a superstição da alma que, sob a forma de superstição do sujeito e do eu, também ainda hoje não deixou de fazer das suas); talvez um trocadilho, um equívoco gramatical, ou qualquer generalização temerária de factos muito restritos, muito pessoais, muito humanos, demasiado humanos. A filosofia dos dogmáticos não foi, esperemo-lo, mais do que uma promessa feita para milhares de anos, como no caso da astrologia, numa época anterior ainda - da astrologia, ao serviço da qual se despendeu talvez mais trabalho, dinheiro, perspicácia, do que desde sempre se despendeu com qualquer ciência verdadeira - é a ela e às suas aspirações "supraterrenas" que se deve, na Ásia e no Egipto, a arquitectura de grande estilo. Parece que, para gravar no coração da humanidade as suas eternas exigências, todas as grandes coisas devem errar primeiro na terra como carantonhas monstruosas e terríficas. A filosofia dogmática foi uma dessas carantonhas quando se manifestou na doutrina dos Veda, na Ásia, ou no Platonismo, na Europa. Não sejamos ingratos para com ela, embora se deva confessar que o erro mais nefasto, mais persistente e mais perigoso até hoje cometido foi o erro dos dogmáticos; refiro-me à invenção do espírito puro e do bem em si, feita por Platão. Mas agora que este erro foi superado, agora que a Europa liberta deste pesadelo volta a respirar e usufrui pelo menos um sono mais salutar, somos nós, nós cujo dever é precisamente a vigília, quem herda toda a força que a luta contra este erro fez crescer. Falar do espírito e do bem à maneira de Platão seria de facto deturpar a verdade e negar a própria perspectiva, condição fundamental de toda a vida. Poderia mesmo perguntar-se, como médico, de onde provém tal moléstia no mais belo fruto da antiguidade, que é Platão? Tê-lo-ia corrompido o malicioso Sócrates? Sempre teria sido Sócrates o corruptor da juventude? Teria ele merecido a cicuta? Mas a luta contra Platão ou, para falar mais compreensivamente e para o "povo", a luta contra a opressão cristiano-eclesiástica exercida desde há milhares de anos - porque o cristianismo é platonismo para o "povo" - criou na Europa uma maravilhosa tensão de espírito que nunca havia existido na terra: e com um arco tão fortemente tenso é possível agora atirar aos alvos mais longínquos. É verdade que o homem da Europa sente esta tensão como um mal e, por duas vezes, fizeram-se amplas tentativas para afrouxar o arco: primeiro, pelo Jesuítismo e em seguida pelo Iluminismo democrático. Com auxílio da liberdade de imprensa, da leitura dos jornais, talvez se pudesse realmente conseguir que o espírito já não se considere tão facilmente um "mal"! (Os Alemães inventaram a pólvora - as nossas felicitações! -, mas depois estragaram tudo, inventaram a imprensa.) Mas nós que nem somos jesuítas, nem democratas, nem mesmo suficientemente alemães, nós, bons europeus e espíritos livres, muito livres - possuímos ainda todo o mal do espírito e toda a tensão do seu arco! E talvez também a flecha, a missão e, quem sabe?, o alvo...»
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Sils Maria, Oberengadin, Junho de 1885.
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Prefácio do livro Para além do bem e do mal

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Fernando Pessoa/Bernardo Soares

«Mas a exclusão, que me impus, dos fins e dos movimentos da vida; a ruptura, que procurei, do meu contacto com as coisas - levou-me precisamente àquilo a que eu procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar nas coisas, sabendo, pela experiência do meu temperamento em contágio do mundo, que a sensação da vida era sempre dolorosa para mim. Mas ao evitar esse contacto, isolei-me, e, isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Se fosse possível cortar de todo o contacto com as coisas, bem iria à minha sensibilidade. Mas esse isolamento total não pode realizar-se. Por menos que eu faça, respiro; por menos que aja, movo-me. E, assim, conseguindo exacerbar a minha sensibilidade pelo isolamento, consegui que os factos mínimos, que antes mesmo a mim nada fariam, me ferissem como catástrofes. Errei o método de fuga. Fugi, por um rodeio incómodo, para o mesmo lugar onde estava, com o cansaço da viagem sobre o horror de viver ali.
(...) Levei tempo a convencer-me deste lamentável equívoco em que vivo comigo. Convencido dele, fiquei desgostoso, o que sempre me acontece quando me convenço de qualquer coisa, porque o convencimento é em mim sempre a perda de uma ilusão.
Matei a vontade a analisá-la. Quem me tornara a infância antes da análise, ainda que antes da vontade!»
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in Livro do Desassossego, texto 462

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Música de câmara na Casa Fernando Pessoa

No dia 20 de Novembro, sexta-feira, pelas 18.30h, na Casa Fernando Pessoa inicia-se um ciclo de música de câmara por solistas da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Entrada livre.
Liviu Scripcaru, violino
Nuno Inácio, flauta
Anna Tomasik, piano


Fonte: Mundo Pessoa

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ELECTRI-CIDADE livro de poemas de Vítor Oliveira Jorge

No próximo dia 17, terça-feira, na Casa Fernando Pessoa, será apresentado, pelas 19.00h, o livro de poemas ELECTRI-CIDADE do arqueólogo, poeta e ensaísta Vítor Oliveira Jorge, e também autor do blogue Trans-ferir.
A apresentação deste livro, publicado pela Colibri, será feita por Casimiro de Brito.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro - 8.º poema de O Guardador de Rebanhos

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
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Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
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Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
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Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
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Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
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A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
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Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem-Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido" -.
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"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
(...)
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
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E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
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A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo o que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
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Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
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Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
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Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
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Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
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Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
(...)
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
(...)
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
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Do Oitavo Poema de «O GUARDADOR DE REBANHOS", 1914.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Florbela Espanca - Soneto "O meu impossível"

Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!
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Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...
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Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...
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Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...

sábado, 7 de novembro de 2009

Henri Bergson - Significado da alegria

«Os filósofos que especularam sobre o significado da vida e sobre o destino do homem deram-se conta de que a natureza se encarregou de nos informar sobre isso. Com um sinal preciso adverte-nos quando se alcançou o nosso destino. Esse sinal é a alegria. Digo a alegria, e não o prazer. O prazer é apenas um artifício imaginado pela natureza para obter do ser vivo a conservação da vida; não indica a direcção em que está lançada a vida. Mas a alegria indica sempre que a vida triunfou, que ganhou terreno, que conseguiu uma vitória. Toda a grande alegria tem um acento triunfal. Se tivermos em conta essa indicação e seguirmos essa nova linha de acontecimentos, descobriremos que onde quer que haja alegria há criação; quanto mais rica é a criação, mais profunda é a alegria. A mãe que contempla o seu filho sente-se contente porque tem consciência de tê-lo criado psíquica e moralmente. O comerciante que desenvolve os seus negócios, o chefe de fábrica que vê prosperar a sua indústria, por acaso sentem-se contentes pelo dinheiro que ganham e pela fama que adquirem? Riqueza e consideração contam muito evidentemente na satisfação que sentem, mas proporcionam-lhes prazeres e não tanto alegria, e o que saboreia com autêntica alegria é o sentimento de ter montado uma empresa que tem sucesso, de ter dado vida a algo. Consideremos alegrias excepcionais, como a do artista que realizou o que tinha em mente e a do cientista que descobriu ou inventou algo. Ouve-se dizer que esses homens trabalham pela glória e que a sua maior alegria está na admiração que se lhes tributa. Grande erro! Só se prende aos elogios e às honras quem não está seguro de ter triunfado. No fundo da vaidade há modéstia. Procura-se a aprovação para obter segurança, e para sustentar a vitalidade, talvez insuficiente da própria obra, procura-se rodear esta da cálida admiração dos homens, do mesmo modo que se enrola em algodão uma criança prematura, nascido antes do tempo. Mas o que está seguro, completamente seguro, de ter produzido uma obra viável e duradoura, para esse o elogio não conta para nada, e sente-se acima da glória, porque é criador e sabe-o, e porque a alegria que experimenta com isso é uma alegria divina. Portanto, se em todos os domínios o triunfo da vida é a criação, não deveríamos supor que a vida humana tem a sua razão de ser numa criação, diferente da do artista e da do cientista, porque prossegue em todo o momento e em todos os homens? É a criação de si mesmo por si mesmo, o crescimento da personalidade mediante um esforço que extrai o muito do pouco, que extrai algo do nada, acrescentando sem cessar algo à riqueza que já existia no mundo.
Vista de fora, a natureza aparece como uma imensa eflorescência de novidade imprevisível; a força que a anima parece criar por amor, para nada, por puro prazer, a variedade sem fim das espécies vegetais e animais; a cada uma confere-lhe o valor absoluto de uma grande obra de arte; dir-se-ìa que se consagra tanto à primeira que realizou como às outras, tanto como ao homem. Mas a forma de um ser vivo, uma vez traçada, repete-se indefinidamente; e os actos desse ser vivo, uma vez realizados, tendem a imitar-se a si mesmos e a repetir-se de um modo automático. Automatismo e repetição, que dominam em toda a parte excepto no homem, deveriam advertir-nos que estamos a fazer uma paragem, e que o passo que estamos marcando, sem avançar, não é o movimento próprio da vida. O ponto de vista do artista é importante, mas não é definitivo. A riqueza e a originalidade das formas denotam uma expansão da vida; mas nessa expansão, cuja beleza significa potência, a vida manifesta igualmente uma paragem ou suspensão do seu impulso e uma impotência momentânea para chegar mais longe, como a criança que termina com uma volta graciosa a sua patinagem.»
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Henri Bergson (1859-1941)
Prémio Nobel da Literatura em 1928.
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in La Energía Espiritual, Espasa-Calpe, Madrid, 1982, pp 32-34
(tradução da minha responsabilidade)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Fernando Pessoa/Bernardo Soares

«Em todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui sempre, para todos, um intruso. Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora. Não digo que o fui, uma só vez sequer, de caso pensado. Mas fui-o sempre por uma atitude espontânea da média dos temperamentos alheios.
Fui sempre, em toda a parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos, creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa, ou falado alto ou de terça. Mas a simpatia, com que sempre me trataram, foi sempre isenta de afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por hóspede, é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho, e a falta de afeição merecida pelo intruso.
Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de qualquer obscura causa intrínseca ao meu próprio temperamento. Sou porventura de uma frieza comunicativa, que involuntariamente obriga os outros a reflectirem o meu modo de sentir.
Travo, por índole, rapidamente conhecimentos. Tardam-me pouco as simpatias dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci. Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho tratar-me por tu.
Não sei se sofra com isto, se o aceite como um destino indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar.
Desejei sempre agradar. Doeu-me sempre que me fossem indiferentes. Órfão da Fortuna, tenho, como todos os órfãos, a necessidade de ser objecto da afeição de alguém. Passei sempre fome da realização dessa necessidade. Tanto me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a necessidade de comer.
Com isto ou sem isto a vida dói-me.

Os outros têm quem se lhes dedique. Eu nunca tive quem sequer pensasse em se me dedicar. Servem os outros: a mim tratam-me bem.
Reconheço em mim a capacidade de provocar respeito, mas não afeição. (...)
Julgo à vezes que gozo sofrer. Mas na verdade eu preferiria outra coisa.
Não tenho qualidades de Chefe, nem de sequaz. Nem sequer as tenho de satisfeito, que são as que valem quando essas outras faltem.
Outros, menos inteligentes que eu, são mais fortes. Talham melhor a sua vida entre gente; administram mais habilmente a sua inteligência. Tenho todas as qualidades para influir, menos a arte de o fazer, ou a vontade, mesmo, de o desejar.
Se um dia amasse, não seria amado.
Basta eu querer uma coisa para ela morrer. O meu destino, porém, não tem a força de ser mortal para qualquer coisa. Tem a fraqueza de ser mortal nas coisas para mim.»
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in Livro do Desassossego (texto 429)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Filme do Desassossego por João Botelho

João Botelho é o realizador do Filme do Desassossego, cuja rodagem se inicia este mês em Lisboa, em homenagem ao Livro do Desassossego de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa. Este filme será financiado pelo ICA, pela Câmara Municipal de Lisboa e pela RTP.
João Botelho já tinha realizado, em 1981, o filme Conversa Acabada, sobre Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.
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domingo, 1 de novembro de 2009

Fernando Pessoa/Ricardo Reis - Ode

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afectos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem é igual aos deuses.
(1930)
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Imagem: F. Pessoa por Almada Negreiros

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Minha pátria é a língua portuguesa" - contexto desta frase de Fernando Pessoa / Bernardo Soares

"Minha pátria é a língua portuguesa" é daquelas frases de Fernando Pessoa/Bernardo Soares que nos habituámos a ouvir por tudo e por nada, e em que muitos a interpretam e usam como um sinal do patriotismo de Pessoa, no sentido corrente deste termo, como amor incondicional a Portugal, quando, lida no seu contexto, a frase quer dizer apenas e só aquilo que diz, que a pátria de Fernando Pessoa/Bernardo Soares é a língua portuguesa! Portugal podia ser invadido ou tomado, desde que não o incomodassem! Mas uma página mal escrita é que ele não suportava!
Senão vejamos este excerto do Livro do Desassossego, texto 259:
(...) «Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa, vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»
Posto isto, convirá ter em consideração duas afirmações de Fernando Pessoa (ortónimo), uma que está contida numa carta de 1932 dirigida a João Gaspar Simões, e em que diz que «Bernardo Soares não é um heterónimo mas uma personalidade literária», e outra contida numa carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro em 1935, em que diz que «[Bernardo Soares] é um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu, menos o raciocínio e a afectividade.»
Com este esclarecimento, podemos até dizer que seria mais correcto atribuir sempre a frase «minha pátria é a língua portuguesa» a Bernardo Soares, dada a distinção que o próprio Pessoa faz das respectivas personalidades nestas duas componentes, o raciocínio e a afectividade, que Bernardo Soares não tem como F. Pessoa, pois naquele predominam a emoção e a sensibilidade, a interioridade e os seus estados de alma, o fechamento ao exterior que, de certo modo, o agride.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Esse blog é VIP

O Carlos Santos do blogue O Valor das Ideias e a Ana Paula do blogue Catharsis distinguiram o Direito e Avesso com o selo "esse blog é VIP - just perfect!", que muito agradeço e é também uma honra considerarem que "your blog is just perfect to learn something every day", e que vai direitinho para o blogue Dias Imperfeitos da Analima.

Antero do Quental - A um crucifixo (soneto)

Não se perdeu teu sangue generoso,
Nem padeceste em vão, quem quer que foste,
Plebeu antigo, que amarrado ao poste
Morreste como vil e faccioso.
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Desse sangue maldito e ignominioso
Surgiu armada uma invencível hoste...
Paz aos homens e guerra aos deuses! - pôs-te
Em vão sobre um altar o vulgo ocioso...
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Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti começa, um homem novo:
De ti data essa trágica linhagem.
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Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,
Lembraremos, herdeiros desse povo,
Que entre nossos avós se conta Cristo.
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Antero de Quental (1842-1891)
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(na imagem: quadro de Salvador Dáli)

domingo, 18 de outubro de 2009

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa - poema

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
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Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
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O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
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A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber o que não sabem?
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"Constituição íntima das coisas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
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Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
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Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina).
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Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
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Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
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E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
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QUINTO POEMA de «O GUARDADOR DE REBANHOS», Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, 1914

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

87.º aniversário de Agustina Bessa-Luís

«Quando acontece vir ao mundo numa tarde de domingo, tendo a tempestade desabado sobre os lugares fazendo as árvores dobrar-se até ao chão, o melhor que temos a fazer é gritar de terror. Foi o que se deu com Luís Matias do Barral, homenzinho com cinquenta e dois centímetros de comprimento e com pulmões verdadeiramente prometedores, posto que descendia duma família de oradores. O pai brindou com um velho Porto cor de ferrugem, e teve a secreta vontade de que a parteira o fizesse beber um pouco da água do banho para o tornar inteligente.»
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Este é o primeiro parágrafo do romance Ordens Menores, publicado em 1992, menos conhecido do que A Sibila, de 1953, e do qual publiquei aqui, a 17 de Agosto, os últimos parágrafos, também como homenagem a Agustina Bessa-Luís.
De outras homenagens que se vão prestar amanhã a Agustina, dia do seu aniversário de nascimento, destaco:
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No CCB
Entre as 15,00h e as 20,00h, a exposição Agustina Bessa-Luís: Vida e Obra, promovida pelo Instituto Camões, com apoio da Guimarães Editores, e concepção de Inês Pedrosa e João Botelho.
Entre as 15,00h e as 17,00h, na sala Almada Negreiros, com entrada livre, leitura de excertos de alguns dos seus livros, por Maria João Seixas, Pedro Mexia, António Mega Ferreira e Leonor Silveira.
Às 17,15h, projecção do filme A Corte do Norte, com introdução de João Botelho, filme que tem a duração de 120 minutos e é para maiores de 16 anos.
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Às 18,30h, evocação de Agustina por José Saramago.
PARABÉNS AGUSTINA!

sábado, 10 de outubro de 2009

Marguerite Yourcenar - Animais para casacos de peles

(...)
«Se escrevo no entanto estas linhas é porque imagino, não sei se com razão, que um livro escrito por mulheres será lido por mulheres, e é a elas que este meu protesto se dirige. Quando me acontece, na sala de espera de um dentista ou de um médico, folhear uma revista feminina, sobretudo as mais luxuosas, em papel couché, passo rapidamente à frente tentando não ver, como se de fotografias pornográficas se tratasse, aqueles anúncios de página inteira em que se utilizam todas as técnicas de sedução que a cor proporciona. Aquelas onde se pavoneiam criaturas femininas dentro de sumptuosos casacos de peles. Estas jovens que qualquer olhar vê a escorrer sangue, ostentam os despojos de criaturas que respiraram, comeram, dormiram, se acasalaram em jogos de amor, amaram os filhos, por vezes a ponto de morrer por eles, e que, como disse Villon, «morreram de dor», quer dizer com dor, como nós morreremos, mas elas mortas por selvajaria nossa.
O que é pior é que muitas dessas peles vêm de bichos cuja raça, milhares de anos mais velha que a nossa, está em vias de extinção se nada fizermos para o evitar, e ainda antes que essas amáveis raparigas comecem a ter rugas na cara. Em menos de uma geração, a matéria-prima desses "artigos de standing", como se diz mas não deveria dizer-se, será não só "inencontrável" ou "inacessível", não existirá pura e simplesmente. A todos nós que dedicamos esforços e dinheiro (embora nunca o suficiente, quer de uns quer de outros) para tentar salvar a diversidade e a beleza do mundo, esses massacres repugnam. Não ignoro que essas raparigas são manequins, que se enfeitam destes escalpes porque é o seu ofício, como outras vezes se adornam com um soutien ou umas calcinhas chamadas biquini em honra de uma explosão atómica (mais uma agradável associação de ideias). Estas inocentes que fazem o seu trabalho (mas que sem dúvida não desdenhariam possuir aqueles casacos), nem por isso representam menos uma legião de mulheres, as que sonham com esse luxo inacessível ou as que, possuindo-o, o exibem como prova de fortuna e de estatuto social, de êxito sexual ou de carreira ou ainda como um acessório que as faz sentir mais seguras da sua beleza e do seu charme.
Tiremos a essas senhoras o seu último trapo-desculpa. Hoje em dia, vivam elas em Paris ou na Gronelândia, não precisam dessas peles para se aquecer. Muito boa lã e boa fibra abundam por aí para conservar e irradiar o calor para que elas não se vejam obrigadas a transformar-se em animais felpudos, como terá sido o caso na Pré-História.
Estou a atacar as mulheres, mas os caçadores são homens e os peleiros também. O homem que se orgulha de entrar num restaurante com uma mulher envolta em pêlos de animal eriçados será um homem muito típico mas não necessariamente um Homo sapiens. Neste domínio, como em tantos outros, os sexos equivalem-se.» (1976)
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in "O Tempo esse grande escultor"

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Gilia Gerling


Hoje vou abrir uma excepção e dar a conhecer uma seguidora recente deste blogue, Gilia Gerling, a quem, depois de ver os seus vários blogues com as suas actividades, no campo das artes, das letras e da música, aliás é também maestrina, pedi autorização para publicar este seu trabalho (em baixo), e que acabei de receber por correio electrónico.
Mas, além do que referi acima, e que todos poderão apreciar através do BLOGilia que tem as ligações para todos os outros desta autora, disse-me também, nesta sua mensagem, que, aos 57 anos de idade se tinha dado ao luxo de voltar ao mundo académico, agora como aluna, para estudar Filosofia, disciplina por que sempre teve paixão, embora se tenha formado em Música e Teologia e tenha feito um mestrado na área da saúde mental, e, claro, esta informação sobre o estudo de Filosofia fez com que a minha admiração pela Gilia aumentasse um pouco mais.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

José Saramago na Feira do Livro de Frankfurt

Na Feira do Livro de Frankfurt deste ano, que decorrerá entre os dias 14 e 18 de Outubro, a Editorial Caminho lançará o novo livro de José Saramago, com o título Caim, que tem como personagens principais Caim, Deus e a Humanidade "nas suas diferentes expressões", segundo palavras de Pilar del Río, mulher do escritor e Presidente da Fundação José Saramago. No final do mês, este livro estará também disponível nas nossas livrarias.
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Dias de chuva

Os dias cinzentos de chuva empurram-me ainda mais para dentro de mim mesma, sentindo-me enjaulada, quase sufocada. Olho os livros que tenho sobre a mesa e vejo que, nem aqui, nem na minha biblioteca, tenho qualquer tipo de "literatura light", que, porventura, me fizesse abstrair desta espécie de peso que sinto no peito em dias assim. Os livros que tenho à mão são precisamente os das minhas almas gémeas, que sentem como eu e sofrem como eu. Por isso chove lá fora e cá dentro.

domingo, 4 de outubro de 2009

Fernando Pessoa/Bernardo Soares (do Livro do Desassossego)

6.
Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isso mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui, eu, assim!...
9.
Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.
E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução.
22.
A minha imagem, tal qual eu a via nos espelhos, anda sempre ao colo da minha alma. Eu não podia ser senão curvo e débil como sou, mesmo nos meus pensamentos.
Tudo em mim é de um príncipe de cromo colado no álbum velho de uma criancinha que morreu sempre há muito tempo.
Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino.
Deus é o existirmos e isto não ser tudo.
23.
ABSURDO
Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
27.
A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros as campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.
31.
(...)
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece - não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto. Posso deixar-me à vida, posso dormir, posso ignorar-me... E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez.
38.
Invejo a todas as pessoas o não serem eu. Como de todos os impossíveis, esse sempre me pareceu o maior de todos, foi o que mais se constituiu minha ânsia quotidiana, o meu desespero de todas as horas tristes.(...)
39.
De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele. (...)
40.
Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a espiritualiza-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir lhe não basta - o certo é que sinto como se, no fim de um piorar de doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida.
Considero então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver. A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Mem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Por que o há-de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é o acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar.
A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não precisou de levar aquele fato único que vestira.
42.
Não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superfície de nunca mudar.
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários que faço a propósito dela. Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.
Com a morte? Não, nem com a morte. Quem vive como eu não morre: acaba, murcha, desvegeta-se. O lugar onde esteve fica sem ele ali estar, a rua por onde andava fica sem ele lá ser visto, a casa onde morava é habitada por não-ele. É tudo e chamamos-lhe o nada; mas nem essa tragédia da negação podemos representar com aplauso, pois nem ao certo sabemos se é nada, vegetais da verdade como a vida, pó que tanto está por dentro como por fora das vidraças, netos do Destino e enteados de Deus, que casou com a Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que nos procriou. (...)
43.
Há um cansaço da inteligência abstracta, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento pela emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar com a alma.
Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado.
O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos - a da incarnação disforme do não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.
Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?
E então vem-me o desejo transbordante, absurdo, de uma espécie de satanismo que precedeu Satã, de que um dia - um dia sem tempo nem substância - se encontre uma fuga para fora de Deus e o mais profundo de nós deixe, não sei como, de fazer parte do ser ou do não-ser.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Poesia com Vinho do Porto

(Clique na imagem para ampliar)
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No próximo dia 8 de Outubro, às 18,30h, na Casa Fernando Pessoa, haverá um encontro cultural incomum entre Portugal, Espanha e Polónia para o lançamento oficial do livro «Em Voz Baixa» (En Voz Baja), de Abel Murcia e Marian Nowínski, que inclui sete poemas de Murcia, a sua tradução em português e quatro serigrafias de Nowínski, tudo acompanhado com vinho do Porto Dona Antónia-Reserva.

domingo, 27 de setembro de 2009

Concerto de Órgão


No próximo dia 30 de Setembro, quarta-feira, dia de S. Jerónimo, pelas 21,30h, na Igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos, haverá um concerto com o novo Órgão daquela igreja.
Fonte: Antena 2

Ficar de olho...

Agradeço a Nicolina Cabrita do blogue Ângulo Recto a atribuição do prémio-selo "Vale a pena ficar de olho nesse blog!" ao «Direito e Avesso».
Como nas últimas três semanas já nomeei vinte e dois blogues através deste e do «Restolhando», para já atribuo este prémio-selo ao blogue Vermelho Côr de Alface.

domingo, 20 de setembro de 2009

Parfums em Lisboa

No próximo dia 24 de Setembro, quinta-feira, às 18,30h, na Casa Fernando Pessoa, tem início o Festival Parfums de Lisbonne, que incluirá poesia em voz, em corpo, a cores...
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Vozes faladas: Ana Hatherly, Maria do Rosário Pedreira e Pedro Tamen, lêem poemas seus e de outros poetas. Isabel Vieira e Graça dos Santos, da Companhia de Teatro Cá e Lá, lêem em francês. José Manuel Esteves, da Cátedra Lindley Cintra (Universidade de Nanterre) do Instituto Camões, lê em português.
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Vozes cantadas: Augusto Velloso-Pampolha acompanhado ao piano por Luísa Gonçalves.
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Versos bailados: Alice Martins e Adriano Martins
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Colagem com palavras: jjpetit (artista plástico)
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(nota: o blogue para que nos remete o Mundo Pessoa para sabermos pormenores desta programação, não estava actualizado até ao momento)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Como se pode ser o maior filósofo do século XX e, ao mesmo tempo, um nazi?

«É o filósofo ou o nazi que define o povo alemão como "o povo metafísico por excelência"? [20 anos antes da chegada de Hitler, Thomas Mann dizia do povo alemão: "o povo da metafísica"]. É o nacional-socialismo que veicula a "ontologia fundamental" ou é esta quem o programa, quando, "para lá das suas insuficiências e grosserias", ele vê no "movimento hitleriano um elemento de muito maior alcance e talvez susceptível de levar, um dia, a um recolher sobre a essência ocidental e histórica do que é ser alemão"? Só existe um Heidegger, e eis o verdadeiro. Uma só tinta. Uma só voz. Ou, mais precisamente, talvez haja duas. Se insistirmos nisso, podemos continuar a defender que, "por um lado", existe o filósofo e, "por outro", o nazi. Mas, nos livros, essa fronteira não existe. Ela dilui-se no seu interior. Que digo? Em cada livro, ela dilui-se em cada página e, até mesmo, em cada palavra ou, pelo menos, em cada conceito. É impossível demarcá-la. Impossível, até, pensá-la. Se existem "dois Heidegger", eles não só coabitam sob o mesmo nome, na mesma cabeça, mas também nas mesmas figuras da língua e do pensamento. E é isto que impossibilita e torna absurda a escapatória que consistiria em dizer: "deixemos de lado o nazi, guardemos o filósofo; esqueçamos as cartas de denúncia e recordemo-nos da meditação sobre os poetas; saibamos eliminar a parte que cabe às artimanhas, ou às cobardias privadas e sobrarão os textos imortais sem os quais seriam as tarefas do pensamento que ficariam por muito tempo comprometidas". (...).
Como é que o século que agora acaba (Althusser, Foucault, Lacan e, primeiramente, Sartre, claro) se acomodou a estes conceitos que, num certo sentido, faziam pensar e, noutro, evocavam o pior? E como é que o século que se anuncia (os mesmos, mais alguns outros) poderá, deverá, lidar com este duplo imperativo de não poder pensar sem Heidegger e de não poder, também, pensar com ele?
(...) Num certo sentido, existem efectivamente dois Heidegger. Se se quiser, existe um "bom" e um "mau" Heidegger. Ainda que, desta vez, não se trate do "político" e do "filósofo". Já não se trata do patife nazi e do gentil Tales, perdido nos seus sonhos, indiferente ao horror da época e que seria necessário, como queriam fazer Les Temps Modernes, arrancar das garras do primeiro. O seccionamento ocorre no interior da própria filosofia. O que está em jogo, aquilo que está verdadeiramente em jogo, ocorre no próprio seio da sua meditação. E são duas as filosofias de Heidegger que, como um par de forças de sentido oposto, se disputam os mesmos textos e, repito, os mesmos conceitos.
Por um lado, é um Heidegger pessimista, terrivelmente sombrio, que julga o declínio irremediável e que não está evidentemente pronto, visto que não há qualquer saída, a conceder seja que privilégio for a este ou àquele regime da História e do pensamento. Para este Heidegger, a divulgação planetária da técnica é apenas a antepenúltima consequência de uma metafísica da subjectividade que começa em Platão e acaba, provisoriamente, com um nacional-socialismo que, quanto a ele, é apenas consequência dessa consequência, o último elo em data da mesma cadeia. Esse nacional-socialismo bem tinha querido ser um "recomeço grego". Mas, aqui está: nunca houve verdadeiro começo. Como poderia haver? Nesse caso, o nazismo é apenas um avatar, talvez o último, talvez não, do esquecimento milenário do Ser. Se não há muita esperança em vencê-lo e, portanto, se não há muitos motivos para combatê-lo, também não os há para aderir a ele. Afinal de contas, este primeiro Heidegger é demasiado sombrio para falar, nem que seja um momento, sobre o pretenso papel "regenerador" da revolução nazi.
Por outro lado, é um Heidegger mais positivo, mais determinado que, subitamente, não se conforma com este eterno declínio, tal como acaba de constatá-lo. É o mesmo Heidegger, descrevendo, da mesmíssima maneira, a "planetarização da técnica" e a "decadência espiritual da Terra"; É o mesmo grande filósofo glosando sobre o esquecimento do Ser e sobre o facto de que, devido a esse esquecimento, a humanidade não pára de viver nas trevas. Excepto que tudo se passa como se, de repente, este quadro sinistro não o satisfizesse mais - tudo se passa como se visse subitamente neste pessimismo uma forma de deleite lúgubre e, nesse deleite, uma consequência desse mesmo niilismo a quem movera o processo e cujo deserto não pára de aumentar. Devo também deixar que o deserto cresça? Não, parece querer responder. Estou cansado do deserto. E toma a "grande decisão" de inflectir mais ligeiramente o seu discurso, de se perguntar se não haverá maneira de começar (oh! Muito pouco! Imperceptivelmente!) a escalar a ravina da queda e do esquecimento: renuncia às aquisições da analítica do Dasein; volta atrás na sua doutrina da historicidade, na sua teroria da língua, na sua concepção de um esquecimento inscrito na própria Abertura do Ser e encontra na Alemanha, e na Alemanha da época nazi, os veículos que lhe permitirão retomar o caminho da aurora grega do pensamento. É quando se mostra que Heidegger é nazi. É quando dá por si mesmo a acreditar que o declínio é reversível, que é possível remontar o curso da catástrofe e, portanto, é quando se torna optimista, que ele adere ao hitlerismo. O hitlerismo de Heidegger não é uma noite da alma, é um momento de iluminação - é o momento em que ele procura introduzir um raio de esperança e de luz na noite do século. Tal é o princípio da separação entre os dois Heidegger. Tal é o princípio da partilha - no verdadeiro sentido de uma "crítica" - que Sartre e os outros operaram por entre os factos, sem forçosamente a formularem. Tal é, de facto, a forma da crítica que temos de reelaborar se quisermos também escapar a esse impasse cuja fórmula se enuncia da seguinte maneira: é impossível ser heideggeriano, e é impossível deixar de sê-lo. Tal é, afinal, a lição dessa crítica: o que ela nos diz do século que agora termina, o que ela nos diz daquele que se anuncia; e que o totalitarismo - como Sartre compreendera muito bem - sempre foi mais filho do dia do que da noite.»
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in O Século de Sartre, de Bernard-Henri Lévy, pp. 216/7 e 231/2/3
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(na imagem: Martin Heidegger )

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Casa-Poema


Hoje, às 19,30h, alguns actores da Tenda-Palhaços do Mundo, dirão poemas de Pessoa, a partir das janelas da Casa Fernando Pessoa para a rua em frente. A partir das 21,30h actuarão os Flak Ensemble e às 22,30h será representada a peça de teatro «Todos os Casados do Mundo são Mal Casados», de Inês Pedrosa a partir de textos de Ovídeo e Pessoa, encenada e interpretada por Diogo Dória. Todos estes eventos assinalam a inauguração da Casa-Poema em que se transformou a Casa Fernando Pessoa, por dentro e por fora, podendo ler-se na fachada exterior do edifício versões de uma ode de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa.
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domingo, 13 de setembro de 2009

Rainer Maria Rilke - poesia (2)

Tu és o pobre, aquele que não tem nada,
tu és a pedra que não tem repouso,
tu és o leproso por todos repudiado,
vagueando em torno da cidade com o chocalho.
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Porque nada é teu, como o que é do vento,
e a tua glória mal te cobre a nudez;
a roupa usada por um órfão consegue
ser mais deslumbrante e ao menos é sua.
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És tão pobre como a força de um feto
numa rapariga desejosa de o esconder,
comprimindo o ventre para abafar
o primeiro sopro da sua gravidez.
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E tu és pobre: como a chuva da Primavera
que cai docemente nos telhados da cidade,
como um desejo que o prisioneiro acalenta
na cela, privado para sempre do mundo.
E como os doentes que, ao mudarem de posição,
são felizes; como flores em carris,
tristemente pobres ao vento louco das viagens;
e como a mão em que se chora, tão pobre...
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E que são, ao pé de ti, as aves que tremem de frio,
o que é um cão que passa dias sem comer,
o que é, ao pé de ti, o cada um perder-se,
a longa e muda tristeza dos animais
que foram esquecidos prisioneiros?
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E todos os pobres dos asilos nocturnos,
que são eles ao pé de ti e da tua miséria?
Pequenas pedras apenas, não mós de moinho,
que todavia ainda moem um pouco de pão.
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Mas tu estás na miséria extrema,
pedinte de rosto escondido;
tu és a grande rosa da pobreza,
a eterna metamorfose
do ouro em luz do sol.
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Tu és o apátrida furtivo
que não encontrou lugar no mundo:
demasiado grande e pesado para ser usado.
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Bramas na tempestade. És como a harpa
cujas cordas despedaçam o tocador.
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in O Livro da Pobreza e da Morte (3.ª parte do Livro de Horas)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Cordão de Leitura: 24 horas a ler em Lisboa

Nos próximos dias 19 e 20 de Setembro, com início às 15 h de sábado e encerramento às 15 h de domingo, realizar-se-à, na Praça Luís de Camões, em Lisboa, um evento dedicado ao livro e à leitura promovido pela Editora Objectiva, e que consiste numa maratona de 24 horas a ler.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Prémio-1


Agradeço à Ana Paula do blogue Catharsis, que atribuiu este prémio ao Direito e Avesso e também ao meu outro blogue, Restolhando, parecendo estar duplamente viciada esta minha leitora muito especial.
Quanto às propostas, querida Ana Paula, do mesmo modo que o ontem já não existe, o amanhã também não existe ainda, o que apenas existe é o hoje, mais exactamente o momento presente, pelo que não vale a pena fazer planos e há que aproveitar os momentos o melhor que sei (carpe diem). Inspirei-me na filosofia de Santo Agostinho.
Desta vez atribuo este prémio apenas a dois blogues; o de um jovem advogado muito especial, o Ega/Edgar, do Metafísica do Esquecimento, agora que voltou de férias, e a uma descoberta mais recente, o contador antropomórfico do blogue A Casa Improvável.