Fonte: Mundo Pessoa
sexta-feira, 5 de março de 2010
Comemorações do Dia Mundial da Poesia (15-21 Março)
Fonte: Mundo Pessoa
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terça-feira, 2 de março de 2010
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos - Aproveitar o tempo
Aproveitar o tempo!Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Milton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!
.
Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.
.
Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...
.
Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!
.
(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)
.
Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.
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Poemas/ Álvaro de Campos
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
100.ª sessão das Quintas de Leitura amanhã no Porto

Há oito anos, numa quinta-feira por mês, com bilhetes pagos e que quase sempre se esgotam, teve início o projecto Quintas de Leitura, onde se dá a conhecer e se lê poesia no Teatro do Campo Alegre, no Porto, cujo programador é o escritor e poeta João Gesta, com a colaboração assídua, entre outros, do também escritor e poeta José Luís Peixoto.
Amanhã, dia 25 de Fevereiro, comemora-se a centésima sessão desta iniciativa, com início às 22.00 h no referido Teatro, e para mais informações poderá ser consultado o blogue Quintas de Leitura.
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sábado, 20 de fevereiro de 2010
King Crimson - Song of the gulls
Rudolfo Wolf, como encontrei um vídeo disponível para publicação deste tema lindíssimo que me enviou, aqui fica, e permita que também lho dedique.
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Pedro Jóia - Dança Palaciana
Dedicado com carinho especial à Manuela Freitas.
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Antero de Quental - "Mea Culpa"
Não duvido que o mundo no seu eixoGire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto e seixo.
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Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria:
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.
.
A Natureza é minha mãe ainda...
É minha mãe... Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir; se estou desesperado;
.
Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza...
É de crer que só eu seja o culpado!
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sábado, 6 de fevereiro de 2010
sábado, 30 de janeiro de 2010
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro - "A espantosa realidade das coisas"
A espantosa realidade das coisasÉ a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
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Basta existir para se ser completo.
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Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais. Naturalmente.
.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
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Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
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Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
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Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
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de Poemas Inconjuntos/Alberto Caeiro
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Fernando Pessoa/Ricardo Reis - "Quanta tristeza e amargura" e "Cada dia sem gozo não foi teu"
Quanta tristeza e amargura.
Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a 'streita vida!
Quanto Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.
.
Cada dia sem gozo não foi teu
.
Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol na água
De um charco, se te é grato.
.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!
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Odes/Ricardo Reis
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Fernando Pessoa/Ricardo Reis - "Da verdade não quero mais que a vida"
Sob a leve tutelaDe deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.
Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.
Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.
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Odes/Ricardo Reis
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(Destinatária especial: Fada Helena)
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Eugénio de Andrade - "A poesia não vai" (aniversário de nascimento do poeta)
A poesia não vai à missa,não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.
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Eugénio de Andrade
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Ainda bem que "a poesia adora andar descalça nas areias do Verão", porque hoje, dia em que o poeta completaria 87 anos se fosse vivo, continua a ser analisado pela presidência do Conselho de Ministros o pedido de extinção da Fundação Eugénio de Andrade, feito pelo conselho directivo da mesma e devido a dificuldades financeiras.
Mas como ainda não foi extinta, a Fundação Eugénio de Andrade organizou para hoje, às 18.30h, na sua sede no Porto, Rua do Passeio Alegre, um debate sobre poesia portuguesa, com intervenções iniciais de Rosa Alice Branco e Rui Lage. A entrada é livre.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos - "Começo a conhecer-me. Não existo."
Começo a conhecer-me. Não existo.Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
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de Poemas/Álvaro de Campos
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Esboço de quadra popular, com destinatário

Para o Eduardo, com carinho
.
Não tenho o dom de Aleixo
e continuo a tiritar
pr'a deixar de bater o queixo
o "chegateaqui" tenho de visitar
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Natália Correia - "Verdadeira litania para os tempos da revolução"

Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todos
ratos e gatos
Mário Cesariny
Mário nós não somos todos burgueses
os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.
Da vida o verbo intransitivo
não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo
nuvens! O que direi de mim?
Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém
e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.
Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses Mário
o que nós somos todos é sebastianistas.
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de Poesia Completa, D. Quixote, 1999
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro - "A guerra que aflige com os seus esquadrões"
A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,É o tipo perfeito do erro da filosofia.
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A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
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Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.
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Deixemos o Universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
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Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o Universo exterior.
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A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
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Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
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de Poemas Inconjuntos/Alberto Caeiro
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Fernando Pessoa - "Catolicismo e comunismo"

«Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem uma doutrina. Enganam-se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema - o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.
O comunismo não é uma doutrina porque é uma antidoutrina, ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental - isto é de civilização e de cultura -, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.»
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de Ideias Filosóficas/Fernando Pessoa
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Fernando Pessoa - "O conceito de nós próprios"

«Cada homem, desde que sai da nebulosa da infância e da adolescência, é em grande parte um produto do seu conceito de si mesmo. Pode dizer-se sem exagero mais que verbal, que temos duas espécies de pais: os nossos pais, propriamente ditos, a quem devemos o ser físico e a base hereditária do nosso temperamento; e, depois, o meio em que vivemos, e o conceito que formamos de nós próprios - mãe e pai, por assim dizer, do nosso ser mental definitivo.
Se um homem criar o hábito de se julgar inteligente, não obterá com isso, é certo, um grau de inteligência que não tem; mas fará mais da inteligência que tem do que se se julgar estúpido. E isto, que se dá num caso intelectual, mais marcadamente se dá num caso moral, pois a plasticidade das nossas qualidades morais é muito mais acentuada que a das faculdades da nossa mente.
Ora, ordinariamente, o que é verdade da psicologia individual - abstraindo daqueles fenómenos que são exclusivamente individuais - é também verdade da psicologia colectiva. Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.
O primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal é criarmos um estado de espírito de confiança - mais, de certeza, nessa regeneração. Não se diga que os "factos" provam o contrário. Os factos provam o que quer o raciocinador. Nem, propriamente, existem factos, mas apenas impressões nossas, a que damos, por conveniência, aquele nome. Mas haja ou não factos, o que é certo é que não existe ciência social - ou, pelo menos, não existe ainda. E como assim é, tanto podemos crer que nos regeneraremos, como crer o contrário. Se temos, pois, a liberdade de escolha, por que não escolher a atitude mental que nos é mais favorável em vez daquela que nos é menos?»
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de Teoria e Prática do Comércio/Fernando Pessoa
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos - "Às vezes tenho ideias felizes"
Às vezes tenho ideias felizes,Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
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Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
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de Poemas/Álvaro de Campos
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(Nota: neste dia em que o Direito e Avesso completa dois anos de existência, a minha pergunta é: porque comecei isto?)
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro - "Não tenho pressa" e "Sempre que penso uma coisa, traio-a"

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.
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(de Poemas Inconjuntos/Alberto Caeiro)
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Sempre que penso uma coisa, traio-a.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela.
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma coisa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existe verdadeiramente para o pensamento e não para os olhos.
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Olho, e as coisas existem.
Penso e existo só eu.
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(de Poemas Inconjuntos/Alberto Caeiro)
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro - "O Mundo não se fez para pensarmos nele"
O meu olhar é nítido como um girassol.Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
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Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
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Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
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O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
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Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
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(de O Guardador de Rebanhos/Alberto Caeiro)
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sábado, 19 de dezembro de 2009
Black - Wonderful Life
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Boas Festas Pessoanas
Imagem daqui.
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos - "Tenho uma grande constipação"
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
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Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
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Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.
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(de Poemas/Álvaro de Campos)
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(de Poemas/Álvaro de Campos)
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos - "Estou cansado"
Estou cansado, é claro,Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto -
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
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(de Poemas/Álvaro de Campos)
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(de Poemas/Álvaro de Campos)
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