quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Graça Morais expõe na Casa Fernando Pessoa a 29 de Setembro
Etiquetas:
CFP,
Cultura,
Divulgação,
Exposição,
Graça Morais,
O Anjo de Timor,
Orfeu e Eurydice,
Pintura,
Sophia M.B. Andresen
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Filme do Desassossego estreia a 29 de Setembro no CCB
O Filme do Desassossego, o mais recente projecto de João Botelho, já tem data de estreia. A 29 de Setembro a versão do Livro do Desassossego de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, apresenta-se no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, de onde, após mais três dias de exibição, a 1, 2 e 3 de Outubro, parte em digressão pelos cine-teatros de todo o país (nada da salas de cinema com pipocas).
Protagonizada por Cláudio Silva, jovem actor dos palcos, a ficção onírica de Botelho sobre o livro de Bernardo Soares tem 60 actores, incluindo Alexandra Lencastre, Margarida Vila-Nova, Pedro Lamares e Rita Blanco.
A informação sobre horários e salas onde se apresenta no CCB está AQUI.
Fonte: Mundo Pessoa
Etiquetas:
Bernardo Soares,
cinema,
Cultura,
Divulgação,
Fernando Pessoa,
Filme do Desassossego,
João Botelho
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Quando eu não te tinha"
Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Etiquetas:
Alberto Caeiro,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Leituras,
Livros,
Poesia
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Rodrigo Leão - La Fête
Etiquetas:
Cultura,
La Fête,
Música,
Rodrigo Leão
sábado, 21 de agosto de 2010
Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Amar é pensar"
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
Etiquetas:
Alberto Caeiro,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Leituras,
Livros,
Poesia
domingo, 15 de agosto de 2010
Charles Reznikoff - "TE DEUM"
TE DEUM
Not because of victories
I sing,
having none,
but for the common sunshine,
the breeze,
the largess of the spring.
Not for victory
but for the day´s work done
as well as I was able;
not for a seat upon the dais
but at the common table.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "O amor é uma companhia"
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Alberto Caeiro/ O Pastor Amoroso
Etiquetas:
Alberto Caeiro,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Leituras,
Livros,
Poesia
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Agora que sinto amor"
Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
.
Alberto Caeiro/ O Pastor Amoroso
Etiquetas:
Alberto Caeiro,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Leituras,
Livros,
Poesia
terça-feira, 27 de julho de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
The Lisbon Consortium - Mestrado e Doutoramento em "Estudos de Cultura" da FCH/ UCP
Estão abertas as inscrições para Mestrado e Doutoramento em Estudos de Cultura na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, podendo ser consultadas as respectivas brochuras, em português e inglês, AQUI.
The Lisbon Consortium, ou Consórcio de Lisboa, é um programa de cooperação inovador e único no panorama português, com enfoque internacional, também AQUI.
Etiquetas:
Cultura,
Cursos,
Divulgação,
Doutoramento,
Estudos de Cultura,
FCH,
Lisbon Consortium,
Mestrado,
UCP
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Vivaldi - "Winter" (Four Seasons)
A música e as imagens deste vídeo são tão belas, que não me importaria de ter sempre este Inverno.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Maria Bethânia na Casa Fernando Pessoa (21 Julho)
Maria Bethânia, na sua passagem pela Casa Fernando Pessoa no dia 21 de Julho, quarta-feira, às 17:30 h, irá ler poemas e textos de: Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Castro Alves, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vinícius de Moraes, João Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Padre António Vieira, Clarice Lispector, Mário de Andrade, entre outros, leitura que será intercalada com canções quase "a capella".
Como encontrei um vídeo onde declama "O Menino Jesus", de Alberto Caeiro, resolvi publicá-lo também para se ver a sua abordagem à poesia e podermos comparar com o nosso Mário Viegas.
Etiquetas:
CFP,
Cultura,
Divulgação,
Leituras,
Livros,
Maria Bethânia,
Música,
Poesia
domingo, 11 de julho de 2010
sábado, 10 de julho de 2010
Mário Cesariny - "Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (II)", por Mário Viegas
Em especial para a Manuela Freitas, aqui fica a continuação do anterior.
Etiquetas:
Álvaro de Campos,
Cultura,
Leituras,
Livros,
Mário Cesariny,
Mário de Sá-Carneiro,
Mário Viegas,
Poesia
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Mário Cesariny - "Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (I)", por Mário Viegas
Muito grata à Ana Paula por me ter dado a conhecer esta pérola.
Etiquetas:
Álvaro de Campos,
Cultura,
Leituras,
Livros,
Mário Cesariny,
Mário Viegas,
Poesia
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Colóquio Internacional "Reading Ricoeur once again/ Relire Ricoeur à notre tour" (7 a 10 de Julho)
Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, realiza-se nos dias 7 a 10 de Julho, na Avenida de Berna, 26-C, em Lisboa, Auditório 1 (Torre B, 1.º andar), um Colóquio Internacional sobre Paul Ricoeur, subordinado ao título "Reading Ricoeur once again: Hermeneutics and Practical Philosophy / Relire Ricoeur à notre tour: Herméneutique et Philosophie Pratique", com intervenções de especialistas na obra deste filósofo que se distinguiu especialmente na área da Filosofia Social e Política, e cuja informação está disponível AQUI, no caso de não ser completamente visível tudo o que está neste cartaz:
Etiquetas:
Colóquio,
Cultura,
Divulgação,
FCSH,
filosofia,
Filosofia Prática,
Hermenêutica,
Paul Ricoeur,
UNL
domingo, 4 de julho de 2010
Fernando Pessoa/ Bernardo Soares (...pompa de dor e de apagamento...)
Criei para mim, fausto de um opróbrio, uma pompa de dor e de apagamento. Não fiz da minha dor um poema, fiz dela, porém, um cortejo. E da janela para mim contemplo, espantado, os ocasos roxos, os crepúsculos vagos de dores sem razão, onde passam, nos cerimoniais do meu descaminho, os pajens, os palhaços da minha incompetência nativa para existir. A criança, que nada matou em mim, assiste ainda, de febre e fitas, ao circo que me dou. Ri dos palhaços, sem haver cá fora de circo; põe nos habilidosos e nos acrobatas olhos de quem vê ali toda a vida. E assim, sem alegria, mas contente, entre as quatro paredes do meu quarto dorme, por inocência, com o seu pobre papel feio e gasto, toda a angústia insuspeita de uma alma humana que transborda, todo o desespero sem remédio de um coração a quem Deus abandonou.
Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam, na alma; os meus passos soam no passeio como um dobre a finados, um ruído de espanto na noite, final como um recibo ou uma jaula.
Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço.
Morreu quem eu nunca fui. Esqueceu a Deus quem eu havia de ser. Só o interlúdio vazio.
Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!
De Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 3.ª edição, 2008, pp. 325/6 (texto 401)
Etiquetas:
Bernardo Soares,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Leituras,
Livros
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Sugestão invulgar
Tenho recebido, esporadicamente, pedidos para publicar algumas das minhas respostas a comentários que, segundo a opinião de quem faz esses pedidos, constituem uma mais-valia, quer para o esclarecimento, quer para reflexão.
Pensando um pouco no assunto, concluí que essas respostas só fazem sentido enquadradas com o comentário recebido, e ambos no contexto do que publiquei e que os originou. Por outro lado, e não menos importante, essas minhas respostas mais longas, sobre assuntos mais sérios, são todas elas personalizadas, procurando as palavras adequadas a cada pessoa que me interpela, como se mais ninguém estivesse a ler ou viesse a ler, e essa partilha quase "privada" creio que está nos lugares certos - as caixas de comentários, onde só acedem as pessoas realmente interessadas em ler o que os outros têm a dizer sobre determinado assunto.
Embora já tenha agradecido individualmente a sugestão, renovo aqui o agradecimento e, também, o facto de me terem obrigado a reflectir sobre o assunto.
Etiquetas:
Blogosfera,
Comentários,
Sugestão leitura
terça-feira, 29 de junho de 2010
Festival ao Largo - Ano II (até 27 de Julho)
Pelo segundo ano, está a decorrer e prosseguirá até ao dia 27 de Julho, O Festival ao Largo, precisamente no largo em frente ao Teatro de São Carlos em Lisboa, com uma programação muito extensa e variada que pode ser consultada AQUI.
Este ano disponibilizaram também este pequeno vídeo promocional:
Este ano disponibilizaram também este pequeno vídeo promocional:
Etiquetas:
Cultura,
Dança,
Divulgação,
Festival ao Largo,
Música,
Ópera,
São Carlos
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos (Se te queres matar, por que não te queres matar?)
Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros…
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da sua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres que morreste.
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…
(1926)
Poemas/ Álvaro de Campos
Etiquetas:
Álvaro de Campos,
Fernando Pessoa,
Leituras,
Livros,
Poesia,
Se te queres matar...
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Leitura integral de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", dia 25, na Casa Fernando Pessoa
Na próxima sexta-feira, dia 25 de Junho, terá início às 12.00h, na Casa Fernando Pessoa, uma maratona para a leitura integral do livro de José Saramago "O Ano da Morte de Ricardo Reis", que se prolongará pelo tempo necessário até à sua conclusão, de cerca de 350 páginas.
Estão já confirmados os seguintes leitores: Pilar del Rio, Leonor Xavier, José Luís Peixoto, António Mega Ferreira, José Mário Silva, Luísa Costa Gomes, Gonçalo M. Tavares, Fernando Pinto do Amaral, Clara Pinto Correia e Patrícia Reis.
Para mostrar um pouco desta obra a quem não a conheça, escolhi um excerto, um pouco extenso, mas que, por razões óbvias, seria difícil cortar, de um diálogo entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, sendo que este estava morto e Ricardo Reis estava vivo, demonstrando a criatividade e talento de José Saramago, bem como a sua forma peculiar de escrever diálogos.
Páginas 64 a 67:
«…é então que Ricardo Reis repara que por baixo da sua porta passa uma réstia luminosa, ter-se-ía esquecido, enfim, são coisas que podem acontecer a qualquer, meteu a chave na fechadura, abriu, sentado no sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente apesar de não o ver há tantos anos, e não pensou que fosse acontecimento irregular estar ali à sua espera Fernando Pessoa, disse Olá, embora duvidasse de que ele lhe responderia, nem sempre o absurdo respeita a lógica, mas o caso é que respondeu, disse Viva, e estendeu-lhe a mão, depois abraçaram-se, Então como tem passado, um deles fez a pergunta, ou ambos, não importa averiguar, considerando a insignificância da frase. Ricardo Reis despiu a gabardina, pousou o chapéu, arrumou cuidadosamente o guarda-chuva no lavatório, se ainda pingasse lá estaria o oleado do chão, mesmo assim certificou-se primeiro, apalpou a seda húmida, já não escorre, durante todo o caminho de regresso não chovera. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante, reparou que Fernando Pessoa estava em corpo bem feito, que é a maneira portuguesa de dizer que o dito corpo não veste sobretudo nem gabardina nem qualquer outra protecção contra o mau tempo, nem sequer um chapéu para a cabeça, este tem só o fato preto, jaquetão, colete e calça, camisa branca, preta também a gravata, e o sapato, e a meia, como se apresentaria quem estivesse de luto ou tivesse por ofício enterrar os outros. Olham-se ambos com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois da longa ausência, e é Fernando pessoa quem primeiro fala, Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo Reis respondeu assim, Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse, Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade, explicou Fernando Pessoa, Oito meses porquê, perguntou Ricardo Reis, e Fernando Pessoa esclareceu a informação, Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andámos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio, antes de nascermos ainda não nos podem ver mas todos os dias pensam em nós, depois de morrermos deixam de poder ver-nos e todos os dias nos vão esquecendo um pouco, salvo casos excepcionais nove meses é quanto basta para o total olvido, e agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal. Ricardo Reis tirou a carteira do bolso interior do casaco, extraiu dela um papel dobrado, fez menção de o entregar a Fernando Pessoa, mas este recusou com um gesto, disse, Já não sei ler, leia você, e Ricardo Reis leu, Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos, quando recebi este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever, É muito interessante o tom da comunicação, é o Álvaro de Campos por uma pena, mesmo em tão poucas palavras nota-se uma espécie de satisfação maligna, quase diria um sorriso, no fundo da sua pessoa o Álvaro é assim, Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em Novembro rebentou no Brasil uma revolução, muitas mortes, muita gente presa, temi que a situação viesse a piorar, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí decidi-me, pronunciei-me, como disse o outro, Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de uma que falhou, agora foge do Brasil por causa de outra que, provavelmente, falhou também, Em rigor, eu não fugi do Brasil, e talvez que ainda lá estivesse se você não tem morrido, lembro-me de ler, nos meus últimos dias, umas notícias sobre essa revolução, foi uma coisa de bolchevistas, creio, Sim, foi coisa de bolchevistas, uns sargentos, uns soldados, mas os que não morreram foram presos, em dois ou três dias acabou-se tudo, O susto foi grande, Foi, Aqui em Portugal também tem havido umas revoluções, Chegaram-me lá as notícias, Você continua monárquico, Continuo, Sem rei, Pode-se ser monárquico e não querer um rei, É esse o seu caso, É, Boa contradição, Não é pior que outras em que tenho vivido. Querer pelo desejo o que sabe não poder querer pela vontade, Precisamente, Ainda me lembro de quem você é, É natural.
Fernando pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou, É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele, Não se vê, Não, não me vejo, sei que estou a olhar-me, mas não me vejo, No entanto, tem sombra, É só o que tenho. Tornou a sentar-se, cruzou a perna, E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa, Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio, não sei, por enquanto estou aqui, e, feitas todas as contas, creio que vim por você ter morrido, é como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, Nenhum vivo pode substituir um morto, Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto, Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes. Ambos sorriram. Ricardo Reis perguntou, Diga-me, como soube que eu estava hospedado neste hotel, Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens, respondeu Fernando Pessoa, E entrar, como foi que entrou no meu quarto, Como qualquer outra pessoa entraria, Não veio pelos ares, não atravessou as paredes, Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasmas, os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres, como qualquer mortal, subi a escada, abri aquela porta, sentei-me neste sofá à sua espera, E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido, Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós, Mas eu vejo-o a si, Porque eu quero que me veja, e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você, a pergunta era obviamente retórica, não esperava resposta, e Ricardo Reis, que não a deu, também não a ouviu. Houve um silêncio arrastado, espesso, ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se, Vou-me chegando, Já, Bem, não julgue que tenho horas marcadas, sou livre, é verdade que a minha avó está lá, mas deixou de me maçar, Fique um pouco mais, Está a fazer-se tarde, você precisa de descansar, Quando volta, Quer que eu volte, Gostaria muito, podíamos conversar, restaurar a nossa amizade, não se esqueça de que, passados dezasseis anos, sou novo na terra, Mas olhe que só vamos poder estar juntos oito meses, depois acabou-se, não terei mais tempo, Vistos do primeiro dia, oito meses são uma vida, Quando puder, aparecerei, Não quer marcar um dia, hora, local, Tudo menos isso, Então até breve, Fernando, gostei de o ver, E eu a si, Ricardo, Não sei se posso desejar-lhe um feliz ano novo, Deseje, deseje, não me fará mal nenhum, tudo são palavras, como sabe, Feliz ano novo, Fernando, Feliz ano novo, Ricardo.
Fernando Pessoa abriu a porta do quarto, saiu para o corredor. Não se ouviram os seus passos. Dois minutos depois, tempo de descer as altas escadas, a porta de baixo bateu, o besouro zumbira rapidamente. Ricardo Reis foi à janela. Pela Rua do Alecrim afastava-se Fernando Pessoa. Os carris luziam, ainda paralelos.»
Etiquetas:
Divulgação,
Fernando Pessoa,
José Saramago,
Leituras,
Livros,
Maratona de Leitura,
O Ano da Morte de Ricardo Reis,
Ricardo Reis
domingo, 20 de junho de 2010
Rodrigo Leão - "Voltar"
Etiquetas:
Cultura,
Música,
Rodrigo Leão,
Voltar
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Ciclo de Bach a Kurtág - Nas Fronteiras da Clareza (CCB 17 a 20 de Junho)
O Ciclo de Bach a Kurtág, Nas Fronteiras da Clareza, tem início hoje e termina no dia 20 de Junho, no CCB em Lisboa e toda a programação pode ser encontrada AQUIquarta-feira, 16 de junho de 2010
domingo, 13 de junho de 2010
Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos - "Aniversário" - (13/06/1888)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amaram-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
.
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
.
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
.
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando for.
Mais nada.
.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
.
(1929)
Etiquetas:
Álvaro de Campos,
Aniversário,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Homenagem,
Leituras,
Livros,
Poesia
sábado, 12 de junho de 2010
Rodrigo Leão - "Ave Mundi"
Aproveito para lembrar, a quem está no norte do país e esteja interessado, que Rodrigo Leão & Cinema Ensemble, com o grupo Danças Ocultas como convidado, irão actuar no próximo Domingo, dia 13, pelas 21.30 h na Casa da Música, no Porto.
Etiquetas:
Ave Mundi,
Cultura,
Divulgação,
Música,
Rodrigo Leão
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















