domingo, 7 de novembro de 2010

Albert Camus - 97.º aniversário de nascimento (homenagem)

Para esta simples homenagem a Albert Camus escolhi um excerto do livro O Mito de Sísifo, e do capítulo As Paredes Absurdas: «O sentimento do absurdo pode esbofetear qualquer homem à esquina de qualquer rua. Em si mesmo, na sua nudez desoladora, na sua luz sem esplendor, é inapreensível. Mas até essa dificuldade merece reflexão. É provavelmente verdade que um homem nos fica sempre desconhecido e que nele sempre subsiste qualquer coisa de irredutível que nos escapa. Mas praticamente conheço os homens e reconheço-os pela sua conduta, pelo conjunto dos seus actos, pelas consequências que a sua passagem suscita na vida. Da mesma maneira posso praticamente definir, praticamente apreciar todos esses sentimentos irracionais que a análise não consegue captar. Para tanto me basta reunir a soma das suas consequências na ordem da inteligência, surpreender-lhes e fixar-lhes a face, delimitar-lhes o universo. É certo que, aparentemente, lá por ter visto cem vezes o mesmo actor, nem por isso o conheço pessoalmente melhor. No entanto, se eu adicionar os heróis que ele encarnou e disser que o conheço um pouco mais por ocasião da centésima personagem recenseada, sente-se que há aqui uma parte de verdade. Porque este paradoxo aparente é também um apólogo. Tem uma moralidade. Ensina que um homem se define tão bem através das suas comédias como através dos seus impulsos sinceros. Assim acontece, um tom abaixo, com os sentimentos, inacessíveis no coração, mas parcialmente traídos pelos actos que eles animam e pelas atitudes de espírito que pressupõem. Vê-se bem que defino assim um método. Mas vê-se também que esse método é de análise e não de conhecimento. Porque os métodos implicam metafísicas, atraiçoam, sem se darem conta disso, as conclusões que por vezes pretendem não conhecer ainda. Assim, as últimas páginas de um livro já estão nas primeiras. Esta ligação é inevitável. O método aqui definido confessa o sentimento de que todo o verdadeiro conhecimento é impossível. Só as aparências podem enumerar-se e o clima fazer-se sentir.

Esse inacessível sentimento do absurdo, talvez o possamos então atingir em mundos diferentes, mas fraternais, da inteligência, da arte de viver, ou simplesmente da arte. O clima do absurdo está no início. O fim é o universo absurdo e essa atitude de espírito que ilumina o mundo a uma luz que lhe é própria, a fim de fazer resplandecer o rosto privilegiado e implacável que esta lhe sabe reconhecer.»

 

O Mito de Sísifo, Livros do Brasil, Lisboa, 1983, pp. 22/24

 

Albert Camus 07/11/1913 - 04/01/1960
Prémio Nobel da Literatura em 1957

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Fernando Pessoa / Ricardo Reis - "Cada um cumpre o destino que lhe cumpre"

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre,
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Odes / Ricardo Reis

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

88.º Aniversário de Agustina Bessa-Luís


«Não sei porque não se pode dissociar nas mulheres inteligência e malícia. Mas é assim. Um homem goza da fama de inteligente e é premiado com toda a espécie de honras; a mulher cai sob suspeita e oferecem-lhe um lugar de vigilante, para que se responsabilize por instituições como o casamento, as enfermarias e as escolas. E quando é um génio, a mulher vê-se ascender à categoria de relações-públicas, que é a maneira de ignorar os seus dons de conciliação, de justiça e de pura filosofia cósmica».

Agustina Bessa-Luís, Um Cão Que Sonha, Guimarães, pp 199-200

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ary dos Santos - "Estrela da Tarde"

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!









Nota: Já tinha publicado no blogue Restolhando este poema "Estrela da Tarde", de José Carlos Ary dos Santos, mas integrado no texto que escrevi a 09/10/2010 sobre Domestic Violence Awareness Month //Bloggers Unite, e pareceu-me que merecia uma publicação individual. Para os que me visitam, de outros países, acrescentarei que este poema tem sido muito difundido na voz de Carlos do Carmo com música de Fernando Tordo. Uma das versões pode ser ouvida aqui.

sábado, 9 de outubro de 2010

John Lennon completaria hoje 70 anos - "Dream"

O número 9 era o número talismã de John Lennon, por ter sido em dias 9 que o acaso lhe reservou alguns marcos históricos da sua vida, incluindo o nascimento, há 70 anos.

A minha homenagem e saudade.






Following the worldwide release of eight remastered John Lennon studio albums and several new collections on October 5 (October 4 internationally), Yoko Ono and EMI Music have partnered with YouTube for exciting global tributes honouring the music legend on the occasion of his 70th birthday (October 9). Check out the amazing new Google Doodle and animation! http://www.Google.com/ The John Lennon Youtube Channel is here: http://youtube.com/johnlennon Visit thebeatles.com for the full story: http://bit.ly/bRkY97

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Rachmaninov - Russian Coral Music


Hoje, Dia Mundial da Música, dou primazia a um dos mais belos instrumentos: a voz humana. E este Grupo Coral Russo interpreta Rachmaninov de uma forma soberba.




quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Eduarda Costa Ferraz - Exposição de Pintura "Horizontes Perdidos" entre 1 e 31 de Outubro


CONVITE
" Horizontes Perdidos" – Pintura de Eduarda Costa Ferraz, inauguração dia 1 de Outubro, Dia Mundial da Música, pelas 19h00, Cocktail e Fados na voz de António Pinto Coelho – Hotel Inglaterra no Estoril


Paisagens, pessoas e animais,
Amores, amizades e afectos,
Cores, ideias e ideais,
Ganham forma, surgem projectos.
 Nos horizontes da imaginação...
Em que nada se perdia...
Cada um com a sua missão...
Levava uma carta a Garcia...

Nesta exposição são apresentadas cerca de 40 obras, em acrílico sobre tela. Eduarda Costa Ferraz nasceu em Angola. Vive e trabalha no Estoril. Artista plástica, leccionou educação visual e desenho.
Exposição patente até 31 de Outubro no Hotel Inglaterra no Estoril, Rua do Porto, n.º 1 – 2765-271 Estoril, e on-line, com informações adicionais, em www.bestartis.pt/detalhe.aspx?ido=4092

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ainda Francisco Ribeiro - Desiderata

O trabalho que Francisco Ribeiro nos deixou,  depois de mais de uma década de reflexão e de procura de respostas para as suas interrogações, a que deu o título DESIDERATA, inspira-se num texto com o mesmo nome, atribuído a Max Ehrmann (1872-1945) e que aqui deixo em versão portuguesa:

DESIDERATA

Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa,
lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível sem humilhar-se,
mantenha-se em harmonia com todos os que o cercam.
Fale a sua verdade, clara e mansamente.
Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história.
Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.
Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo.
Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar.
Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja,
ele é um verdadeiro tesouro na contínua mudança dos tempos.
Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas.
Mas não fique cego para o bem que sempre existe.
Em toda a parte, a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo.
Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira,
pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.
Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos
e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.
Cultive a força do espírito e você estará preparado
para enfrentar as surpresas da sorte adversa.
Não se desespere com perigos imaginários:
muitos temores têm a sua origem no cansaço e na solidão.
Ao lado de uma sadia disciplina conserve,
para consigo mesmo, uma imensa bondade.
Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores,
você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber,
a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.
Procure, pois, estar em paz com Deus,
seja qual for o nome que você lhe der.
No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida,
conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz.
Acima de toda a mesquinhez, falsidade e desengano,
o mundo ainda é bonito.
Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz
e partilhe com os outros a sua felicidade.


DESIDERATA – Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração. Este texto é atribuído a Max Ehrmann (1872-1945) e foi registado pela primeira vez, por ele, em 1927.
Hoje em dia é do domínio público.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Quem ama é diferente de quem é"

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de que é
É a mesma pessoa sem ninguém.


O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Filme do Desassossego estreia a 29 de Setembro no CCB



O Filme do Desassossego, o mais recente projecto de João Botelho, já tem data de estreia. A 29 de Setembro a versão do Livro do Desassossego de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, apresenta-se no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, de onde, após mais três dias de exibição, a 1, 2 e 3 de Outubro, parte em digressão pelos cine-teatros de todo o país (nada da salas de cinema com pipocas). 

Protagonizada por Cláudio Silva, jovem actor dos palcos, a ficção onírica de Botelho sobre o livro de Bernardo Soares tem 60 actores, incluindo Alexandra Lencastre, Margarida Vila-Nova, Pedro Lamares e Rita Blanco.

A informação sobre horários e salas onde se apresenta no CCB está AQUI.


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Quando eu não te tinha"

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

sábado, 21 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Amar é pensar"

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

domingo, 15 de agosto de 2010

Charles Reznikoff - "TE DEUM"

TE DEUM

Not because of victories
I sing,
having none,
but for the common sunshine,
the breeze,
the largess of the spring.

Not for victory
but for the day´s work done
as well as I was able;
not for a seat upon the dais
but at the common table.

(1919)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "O amor é uma companhia"

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro/ O Pastor Amoroso

Nota: Quem me conhece um pouco, já deve ter-se apercebido que dei férias a Bernardo Soares e fiquei com o "Pastor Amoroso"/Alberto Caeiro para desanuviar...