quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Feira do Livro Manuseado

Entre 19 de Fevereiro e 19 de Março realiza-se mais uma Feira do Livro Manuseado, nas livrarias da Assírio & Alvim,  em Lisboa, indicadas no cartaz (clicar na imagem para ver melhor), onde se encontram sempre boas sugestões a bons preços.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eugénio de Andrade - "Aproxima a boca"

Aproxima a boca da nascente:
não te importes
se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
como os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.

Eugénio de Andrade, em O Sal da Língua

domingo, 30 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Falas de civilização, e de não dever ser..."

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que, se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que, se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Nietzsche - ("o nojo do após-mesa")

«Mas o que é que te aconteceu?» - «Não sei», disse ele hesitante; «talvez as harpias tenham voado sobre a minha mesa.» Acontece hoje, de vez em quando, um homem pacato, comedido, reservado, tornar-se, de repente, furioso, partir os pratos, virar a mesa, gritar, berrar, ofender todo o mundo - e, por fim, afastar-se envergonhado, furioso consigo próprio. Para onde? Para quê? Para morrer de fome? Para sufocar nas suas recordações? Quem tiver os apetites de uma alma elevada e requintada, e só raras vezes encontrar a sua mesa posta e a comida pronta, correrá, em qualquer altura, grande perigo: mas hoje, ele é extraordinário. Lançado numa época barulhenta e plebeia, com a qual não quer comer do mesmo prato, facilmente pode perecer de fome e sede ou se, finalmente apesar de tudo, «se servir» - morrer de um nojo repentino. Nós todos, verosimilmente, já comemos em mesas onde não tínhamos lugar; e precisamente os mais espirituais de entre nós, que são os mais difíceis de alimentar, conhecem aquela perigosa «dispepsia» que resulta de repentinamente nos apercebermos e ficarmos desiludidos com a comida e com a companhia à mesa - o nojo do «após-mesa».

F. Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, Guimarães, 1978, p.210

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Eufrázio Filipe - "Sombras Vertebradas"

Já os cães tinham ladrado tudo
quando os pássaros se recolheram
em coro nos jacarandás
e tu chegavas alada
da ciranda
para repousar no parapeito
da minha janela

Aqui tão perto ressoavam
os meus silêncios preferidos
nas marés desgrenhadas

os teus olhos de púrpura
recolhidos em ânforas
numa feira de barro

para ficares mais leve de palavras

Sereníssima afloraste o velho alaúde

mas foi da escarpa onde te vejo
que nunca saberei quem és
a projectar réstias de sol
nas sombras vertebradas

que movem os teus dedos

Eufrázio Filipe

Sombras Vertebradas, em Mar Arável

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Eugénio de Andrade - "Nada"

Nada, nem sequer o Verão
está completo. Menos ainda o colar
de sílabas que, desvelado,
te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca 
te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
ao sol que declina, à estrela
do norte que sabemos no fim.
O privilégio da vida é este
silêncio musical que do teu olhar
cai nos meus olhos
e regressa a ti acrescentado
pela luz da manhã varrendo o mar.

Eugénio de Andrade

(19/01/1923-13/06/2005)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa / Ricardo Reis "São plácidas todas as horas que nós perdemos"

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...

À beira-rio,
À beira-estrada, 
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos, 
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos 
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Odes/ Ricardo Reis

(Na imagem: Fernando Pessoa desenhado por Almada Negreiros)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Al Berto - "Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida"

No dia em que o poeta Al Berto completaria 63 anos (11/01/1948-13/06/1997), um poema dito pelo próprio, com fundo musical de  Rodrigo Leão. Sugiro também a leitura de um texto  de Teresa Sá Couto, de 2/01/2009, na Orgia Literária, sobre o livro "O Medo" publicado pela Assírio & Alvim, em 2000.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Rodrigo Leão - Herberto Helder / Minha cabeça estremece...



Herberto Helder, «Poemacto II: Minha cabeça estremece com todo o esquecimento», 1961
Rodrigo Leão & Gabriel Gomes, «"Os Poetas": Entre nós e as palavras», 1997

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Mário de Sá-Carneiro - "Dispersão"

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família)

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada.
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim, 
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

... ... ... ... ... ... ... ... ...
(1914)

Em Poesias Completas de Mário de Sá-Carneiro, Colecção Clássicos Anagrama, Porto, 1983(?)

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa/ Ricardo Reis - "Cura de ser quem és"

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada de pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.

Odes/ Ricardo Reis

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - Talvez quem vê bem não sirva para sentir

Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.

Alberto Caeiro/ O Pastor Amoroso

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

John Lennon (09/10/1940 - 08/12/1980)

Para assinalar o 30.º aniversário do assassinato de John Lennon escolhi alguns temas e vídeos e cuja sequência fazem algum sentido para mim.
Do primeiro tema, "Happy Christmas (War is over)", queria apresentar dois vídeos porque, infelizmente, a realidade não é sempre tão apaziguadora como a que podemos sentir naquele que publico e, por isso, haveria que mostrar o lado da guerra que, afinal, ainda não acabou, mas esse tem o código desactivado, talvez por ter imagens que  podem ferir a sensibilidade de algumas pessoas, mas que são reais e vão continuar a sê-lo, porque a barbárie e as tragédias não acabarão enquanto o Homem existir, e cujo código curto é este: http://www.youtube.com/watch?v=s8jw-ifqwkM .
Depois pareceram-me adequados os temas "Come Together" e a sua versão de "Stand by me", talvez como votos para o futuro.



 



terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fernando Pessoa - 75.º aniversário da sua morte (homenagem)

A minha homenagem de hoje, a Fernando Pessoa, não será feita através de um poema ou de qualquer outro texto dele ou dos seus heterónimos ou do semi-heterónimo Bernardo Soares, que poderão ser lidos em qualquer dos blogues dada a atenção que me têm merecido, mas através de um fado cantado por Ana Moura, e cujo vídeo tenta retratar uma viagem imaginária de Fernando Pessoa desde o Chiado, em Lisboa, até à cidade de Nova Iorque, e daí o seu título: Fernando Pessoa @ NY (en)cantado por Ana Moura. Espero que constitua uma bela surpresa para os apreciadores de Pessoa, quanto o foi para mim.



Quadro de Fernando Pessoa por João Ricardo

"Fado de Pessoa":
Letra de João Pedro Pais
Álbum de Ana Moura - "Aconteceu" (2004)
Vídeo produzido por Ricardo Cobra em 2007

Fernando Pessoa (13/06/1888 - 30/11/1935)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

2.º Congresso Internacional Fernando Pessoa e Revista PESSOA

Eduardo Lourenço, Teresa Rita Lopes, Caetano Veloso e João Botelho são alguns dos colaboradores do primeiro número da revista PESSOA, a ser lançada no 2.º Congresso Internacional Fernando Pessoa, no Teatro Aberto, em Lisboa, entre 23 e 25 de Novembro. A edição bilingue e trimestral promete dar lugar ao ensaio e à poesia. De acordo com a Directora da Casa Fernando Pessoa, “falta a Portugal uma revista de ensaio, que exceda os compartimentos da indagação literária – ensaio é experimentação, risco, excesso. A obra de Fernando Pessoa é isso: uma obra contaminada e contaminável, sem medo de cruzar e misturar fronteiras. Esta revista procura cumprir o desígnio desbravador dessa obra”. Aos ensaios publicados neste primeiro número da revista PESSOA junta-se um conjunto de poemas inéditos de Ana Luísa Amaral e Maria Lúcia Dal Farra, bem como portefólios de José David, Jorge Colombo e Graça Morais. Destaque ainda para a divulgação do Filme do Desassossego de João Botelho, e da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa, agora também online pela mão de Jerónimo Pizarro, Patrício Ferrari e Antonio Cardiello. A nova edição da Casa Fernando Pessoa conta ainda, no Conselho Editorial, com Fernando Cabral Martins, Fernando J. B. Martinho, Perfecto E. Cuadrado ou Richard Zenith, entre outros. Uma revista que é também, garante Inês Pedrosa, um “convite ao Desassossego”.
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