sexta-feira, 29 de julho de 2011

Nietzsche - Das Altas Montanhas, Cântico Final

Ó meio-dia da vida! Tempo solene!
Ó jardim de Verão!
Felicidade inquieta no estar perscrutando e esperando:
Espero os amigos, noite e dia pronto,
Onde estais vós, amigos? Vinde! É tempo! É tempo!

Não era para vós que o cinzento do glaciar
Hoje se enfeitou de rosas?
O ribeiro procura-vos; saudosos apressam-se, empurram-se
Vento e nuvens, hoje mais alto para o azul
Para daí bem do alto vos descobrirem.

No mais alto a minha mesa foi posta para vós:
Quem habita das estrelas
Tão próximo, quem, das medonhas distâncias abissais?
O meu reino – que reino se estendeu por mais longe?
E o meu mel – quem é que o provou? …

Cá estais vós, amigos! – Ai, todavia, não sou eu
Quem queríeis vós?
Hesitais, pasmais – ai, que vos não zangais antes!
Eu – já não o sou? Mudados a mão, o andar, a casa?
E o que eu sou, não o sou – para vós, amigos?

Tornei-me outro? E estranho a mim próprio?
Fugido de mim próprio?
Um lutador que demasiadas vezes se venceu a si próprio?
Que demasiadas vezes se ergueu contra a sua própria força,
Ferido e detido pela sua própria vitória?

Procurei, onde o vento sopra mais cortante?
Aprendi a habitar
Onde ninguém habita, nas zonas desertas dos ursos brancos,
Desaprendi homem e Deus, blasfémia e oração?
Tornei-me um fantasma, errando sobre os glaciares?

Vós, velhos amigos! Olhai! Agora estais pálidos,
Cheios de amor e de pavor!
Não, ide! Sem zanga! Aqui – vós não podeis habitar:
Aqui, na região longínqua dos gelos e das rochas –
Aqui deve-se ser caçador e lesto como a camurça.

Tornei-me um caçador malvado! – Vede como
O meu arco está bem esticado!
Foi o mais forte quem conseguiu distendê-lo tanto:
Mas agora, ai! Este dardo é perigoso
Como nenhum dardo – fugi daqui! Para vosso bem! …

Vós ide-vos? – Ó coração, tu suportaste bastante,
Forte ficou a tua esperança:
Mantém as tuas portas abertas para novos amigos!
Deixa os velhos! Deixa a recordação!
Se fosses jovem outrora – és melhor jovem agora!

O que jamais nos ligou, o laço de uma esperança –
Quem lê ainda os sinais,
Os empalidecidos, que o amor outrora nele inscreveu?
A um pergaminho que a mão hesita em segurar
Comparo-o eu – da mesma maneira desbotado, queimado.

Não mais amigos, esses são – como chamá-los então? –
Apenas amigos-fantasmas!
Esses às vezes de noite ainda batem no meu coração e na minha janela,
Olham-me e dizem: «Mas éramo-lo nós?»
Ó palavra murcha que outrora cheirava a rosas!

Ó saudade da juventude que não compreendeu a si própria!
Aqueles por quem eu ansiava,
Aqueles que eu julgava transformados tal como eu,
O facto de terem envelhecido afastou-os:
Só quem se transforma continua meu parente.

Ó meio-dia da vida! Segunda juventude!
Ó jardim de Verão!
Felicidade inquieta no estar perscrutando e esperando!
Espero os amigos, noite e dia pronto,
Os novos amigos! Vinde! É tempo! É tempo!

*

Esta canção acabou – o grito doce da saudade
Morreu na boca:
Fê-lo um mágico, o amigo da hora própria,
O amigo do meio-dia – não! Não pergunteis quem é.
Então ao meio-dia, Um tornou-se Dois …

Agora festejamos nós, certos da vitória comum,
A festa das festas:
Chegou o amigo Zaratustra, o hóspede dos hóspedes!
Agora ri o mundo, abriu-se a cortina cinzenta,
E foi o casamento da luz e das trevas …

F. Nietzsche

(Traduzido do alemão por Hermann Pflüger)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Bertolt Brecht - "Refresca-te, irmã..."

Refresca-te, irmã,
na água da pequena tigela de cobre
com pedacinhos de gelo,
abre os olhos sob a água, lava-os,
enxuga-te com a toalha áspera
e lança um olhar num livro que amas.
Começa assim
Um dia belo e útil.

Bertolt Brecht (1898-1956)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

José de Almada Negreiros - Encontro

Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá pró futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

José de Almada Negreiros (7/04/1893 - 15/06/1970)

Em José de Almada Negreiros, Poemas, Assírio & Alvim, 2001, p. 165/6

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vasco Graça Moura - Poética da "escherichia coli"

«A muita gente não terá ocorrido que a escherichia coli tem um papel importante na obra de um dos maiores poetas portugueses do século XX, o que deve ser caso único na literatura europeia.
Refiro-me a três dos melhores poemas da última fase de Vitorino Nemésio (1901-1978) em que a perigosa bactéria é invulgarmente metamorfoseada em musa. Pertencem a Limite de Idade (1972). É um livro muito marcado pelo humor pungente com que Nemésio combina termos científicos e técnicos de vários campos da ciência, entre eles os da Biologia e da Medicina, com a dignidade e a fragilidade da sua humanal condição, a precariedade do seu estado de saúde, os seus achaques, as suas inquietações metafísicas, a literatura em geral e o seu próprio estro, tudo a interagir num pessoalíssimo e por vezes algo extravagante modo lírico em registo de alta cultura brincada.
O primeiro desses poemas é o tríptico "Escherichia", formado por um soneto, duas quadras e uma sextilha. Personagens, além do próprio poeta: Beatriz, Daisy, Dolly e a Escherichia... Aquela Beatriz, que também é a de Dante, sai directamente do "Elogio da Morte" de Antero de Quental, para ser aqui logo citada em epígrafe ("Funérea Beatriz de mão gelada... / Mas única Beatriz consoladora!"). Daisy vem do "Soneto já antigo" de Álvaro de Campos ("Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de..."), também inscrito na epígrafe. E ainda há Dolly, uma outra presença feminina no poema.
Escherichia, a "feminil bactéria", converte-se na Musa propriamente dita. Beatriz, Daisy e Dolly serão como que as três Graças, mas, enquanto as duas primeiras não passam de meras criações literárias, Dolly é uma pessoa real. Tenho informação de que se tratava da mulher de João José Cochofel, grande amiga de Nemésio e da sua família. A mise en scène destas três figuras de mulher é muito interessante. Beatriz, conotada com os problemas cardíacos, aparece como a alegoria da morte do soneto de Antero e também como alusão à transcendência sobrenatural da amada de Dante. Em seguida, feito um electrocardiograma, é interpelada Daisy, que recebe uma incumbência post-mortem no verso de Álvaro de Campos. Beatriz e Daisy mostram a que ponto o trato do autor com outros autores o leva, na sua angústia, a conferir um súbito coeficiente de realidade às personagens deles.
Mas Nemésio logo rejeita a interpelação a Daisy. Deixa de dialogar com uma criação fictícia e prefere a dirigir-se a um ser de carne e osso, Dolly, para exprimir o seu medo de morrer: "Em gráfico de sismo a sina veio / Nessa foto cardíaca: - 'Receio / Que morra, Daisy!' Não: 'Que morra, Dolly!'" E remata a dizer que todavia não é o Pessoa nem o Antero e que o nome da sua musa não soa em inglês como o delas, por ser Escherichia Coli...
No segundo andamento do tríptico, o poeta equipara o perigo cardíaco e o perigo urológico, identificando explicitamente Beatriz e Escherichia: "Escherichia ou Beatriz, que importa o nome /.../ A prometida morte nos consome", acrescentando: "Assim tu, Escherichia, és meu tormento / E nocturno tremor, Beatriz funérea! / Quem nasceu para casto fingimento / Afinal pode amar uma bactéria." Por fim, a questão cardíaca cede em presença da bactéria e assim, na terceira parte, lemos: "(...) feminil bactéria. / Por ela todo estremeço / Em suor e ácido úrico".
Noutro poema, "Tubo de ensaio", Nemésio é de uma franqueza desarmante na sua expressão patética: "Eu que, por causa de Escherichia Coli, / Quase não sei (como se diz?) - meiar... / A Poesia é um louco laboratório, / E eu dispo a bata para não chorar".
O terceiro destes poemas "bacterianos" intitula-se "Micro-moral" e termina assim: "Quanto a Escherichia, casta musa, a entranha aos vírus coxos / Cede por nosso amor, maternal, e rebenta." O adjectivo "casto" prende a musa a uma reminiscência da "Casta Diva" da Norma de Bellini, e já tinha sido usado, no primeiro dos poemas citados, para o fingimento poético, numa piscadela de olho a um epigrama de Catulo (castum decet esse poetam / ipsum, versiculos nihil necesse est: ao poeta fica bem ser casto, mas os versos não têm de o ser).
Um enorme poeta como Nemésio é assim capaz de elaborar, de maneira totalmente inesperada, as estranhas e complexas matérias da sua criação indo buscá-las à cultura mais vasta e à realidade mais microscópica.»
E não fora Vasco Graça Moura, também esta questão me teria passado ao lado.

No DN de hoje.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

José de Almada Negreiros - Reconhecimento à loucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar o mundo
tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

Em José de Almada Negreiros, Poemas, Assírio & Alvim, 2001, p. 156/7

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Rainer Maria Rilke - Infância


Passa lento o tempo da escola e a sua angústia
com esperas, com infinitas e monótonas matérias.
Oh solidão, oh perda de tempo tão pesada...
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam
e nas praças as fontes jorram,
e nos jardins é tão vasto o mundo —.
E atravessar tudo isto em calções,
diferente de como os outros vão e foram —:
Oh tempo estranho, oh perda de tempo,
oh solidão.

E olhar tudo isto à distância:
homens e mulheres; homens, homens, mulheres
e crianças, tão diferentes e coloridas —;
e então uma casa, e de vez em quando um cão
e o medo surdo trocando-se pela confiança:
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo,
Oh infindável abismo.

E então jogar: à bola e ao arco,
num jardim que manso se desvanece
e por vezes tropeçar nos crescidos,
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar,
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos,
voltar silencioso a casa, a mão agarrada com força —:
Oh compreensão cada vez mais fugaz,
Oh angústia, oh fardo!

E longas horas, junto ao grande tanque cinzento,
ajoelhar-se com um barquinho à vela;
esquecê-lo, porque com iguais
e mais lindas velas outros ainda percorrem os círculos,
e ter de pensar no pequeno rosto
pálido que no tanque parecia afogar-se — :
oh infância, oh fugazes semelhanças.
Para onde? Para onde?

Rainer Maria Rilke

Em  "O Livro das Imagens", tradução de Maria João Costa Pereira

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Luís de Camões - "Coitado! que em um tempo choro e rio"

Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
De uma cousa confio e desconfio.

Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço;
Calo e dou vozes, falo e emudeço;
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Qu'ria, se ser pudesse, o impossível;
Qu'ria poder mudar-me, e estar quedo;
Usar de liberdade, e ser cativo;

Qu'ria que visto fosse, e invisível;
Qu'ria desenredar-me, e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!

Luís Vaz de Camões, Sonetos e Canções, Porto Editora, 1974

(5 de Maio, Dia da Língua Portuguesa, programação disponível no Instituto Camões)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos - "Tabacaria"

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu que não tenho nenhuma certeza, sou mais ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem abrirão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas, sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei. E até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pele gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

(1928)

in Fernando Pessoa, O Rosto e as Máscaras, Edições Ática, Lisboa, 2.ª edição, 1979, pp. 128-135

segunda-feira, 21 de março de 2011

Fernando Pessoa, no Dia Mundial da Poesia

Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso.
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por 'star aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver?

(1931)

in Fernando Pessoa - O Rosto e as Máscaras, Edições Ática, Lisboa, 2.ª ed., 1979, p. 158

Nota: Apesar de alguns poemas não terem título, como este, o que, convenhamos, não é o mais importante, não podia deixar de escolher um de Fernando Pessoa (ortónimo) para assinalar este Dia Mundial da Poesia.

sábado, 19 de março de 2011

Alexandre O'Neill - "Amigo"

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill (1924-1986)

in No Reino da Dinamarca

quarta-feira, 2 de março de 2011

Vladimir Maiakóvski - "Despertar é preciso"


Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim, e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.


Vladimir Maiakóvski, "Despertar é preciso", (1893-1930)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Feira do Livro Manuseado

Entre 19 de Fevereiro e 19 de Março realiza-se mais uma Feira do Livro Manuseado, nas livrarias da Assírio & Alvim,  em Lisboa, indicadas no cartaz (clicar na imagem para ver melhor), onde se encontram sempre boas sugestões a bons preços.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eugénio de Andrade - "Aproxima a boca"

Aproxima a boca da nascente:
não te importes
se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
como os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.

Eugénio de Andrade, em O Sal da Língua

domingo, 30 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Falas de civilização, e de não dever ser..."

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que, se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que, se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Nietzsche - ("o nojo do após-mesa")

«Mas o que é que te aconteceu?» - «Não sei», disse ele hesitante; «talvez as harpias tenham voado sobre a minha mesa.» Acontece hoje, de vez em quando, um homem pacato, comedido, reservado, tornar-se, de repente, furioso, partir os pratos, virar a mesa, gritar, berrar, ofender todo o mundo - e, por fim, afastar-se envergonhado, furioso consigo próprio. Para onde? Para quê? Para morrer de fome? Para sufocar nas suas recordações? Quem tiver os apetites de uma alma elevada e requintada, e só raras vezes encontrar a sua mesa posta e a comida pronta, correrá, em qualquer altura, grande perigo: mas hoje, ele é extraordinário. Lançado numa época barulhenta e plebeia, com a qual não quer comer do mesmo prato, facilmente pode perecer de fome e sede ou se, finalmente apesar de tudo, «se servir» - morrer de um nojo repentino. Nós todos, verosimilmente, já comemos em mesas onde não tínhamos lugar; e precisamente os mais espirituais de entre nós, que são os mais difíceis de alimentar, conhecem aquela perigosa «dispepsia» que resulta de repentinamente nos apercebermos e ficarmos desiludidos com a comida e com a companhia à mesa - o nojo do «após-mesa».

F. Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, Guimarães, 1978, p.210