sexta-feira, 21 de junho de 2013
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Fernando Pessoa/ Ricardo Reis, "Não só quem nos odeia ou nos inveja"
Não só quem
nos odeia ou nos inveja
Nos limita
e oprime; quem nos ama
Não menos
nos limita.
Que os
deuses me concedam que, despido
De afectos,
tenha a fria liberdade
Dos
píncaros sem nada.
Quem quer
pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre;
quem não tem, e não deseja,
Homem, é
igual aos deuses.
Fernando Pessoa/ Ricardo Reis, Odes
(13/06/1888
– 30/11/1935)
Etiquetas:
Aniversário,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Homenagem,
Literatura,
Não só quem nos odeia ou nos inveja,
Poesia,
Ricardo Reis
domingo, 12 de maio de 2013
sábado, 27 de abril de 2013
Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro, "Quem me dera..."
Quem me
dera que eu fosse o pó da estrada
E que os
pés dos pobres me estivessem pisando…
Quem me
dera que eu fosse os rios que correm
E as
lavadeiras estivessem à minha beira…
Quem me
dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse
só o céu por cima e a água por baixo…
Quem me
dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele
me batesse e me estimasse…
Antes isso
que ser o que atravessa a vida
Olhando
para trás de si e tendo pena…
Poema XVIII de O Guardador de
Rebanhos
Etiquetas:
Alberto Caeiro,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Literatura,
Poesia,
Quem me dera
terça-feira, 19 de março de 2013
Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro, "Se eu pudesse..."
Se eu
pudesse trincar a terra toda
E
sentir-lhe um paladar,
E se a
terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais
feliz um momento…
Mas eu nem
sempre quero ser feliz.
É preciso
ser de vez em quando infeliz
Para se
poder ser natural…
Nem tudo é
dias de sol,
E a chuva,
quando falta muito, pede-se.
Por isso
tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente,
como quem não estranha
Que haja
montanhas e planícies
E que haja
rochedos e erva…
O que é
preciso é ser-se natural e calmo
Na
felicidade ou na infelicidade,
Sentir como
quem olha,
Pensar como
quem anda,
E quando se
vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o
poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e
assim seja…
(Poema XXI de O Guardador de Rebanhos)
sábado, 23 de fevereiro de 2013
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Fernando Pessoa, "A ciência de vencer"
Estão cheias as livrarias de todo o mundo de livros que
ensinam a vencer. Muitos deles contêm indicações interessantes, por vezes
aproveitáveis. Quase todos se reportam particularmente ao êxito material, o que
é explicável, pois é esse o que supremamente interessa à grande maioria dos
homens.
A ciência de vencer é, contudo, facílima de expor; em
aplicá-la, ou não, é que está o segredo do êxito ou a explicação da falta dele.
Para vencer – material ou imaterialmente – três coisas definíveis são precisas:
saber trabalhar, aproveitar oportunidades e criar relações. O resto pertence ao
elemento indefinível, mas real, a que, à falta de melhor nome, se chama sorte.
Não é o trabalho, mas o saber trabalhar, que é o segredo do êxito
no trabalho. Saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir
no esforço até ao fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou
que ela era, ou se tornou, errada.
Aproveitar oportunidades quer dizer não só não as perder,
mas também achá-las. Criar relações tem dois sentidos – um para a vida
material, outro para a vida mental. Na vida material, a expressão tem o seu
sentido directo. Na vida mental, significa criar cultura. A história não
regista um grande triunfador material isolado, nem um grande triunfador mental
inculto. Da simples “vontade” vivem só os pequenos comerciantes; da simples
“inspiração” vivem só os pequenos poetas. A lei é uma para todos.
Fernando Pessoa in Teoria e Prática do Comércio
Etiquetas:
A ciência de vencer,
Cultura,
Fernando Pessoa,
Leituras,
Literatura
domingo, 20 de janeiro de 2013
sábado, 12 de janeiro de 2013
Mário de Sá-carneiro, Além - Tédio
Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outrora imaginei escalar os céus
À força de Ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!
Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...
Mário de Sá-Carneiro, in Poesias Completas
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outrora imaginei escalar os céus
À força de Ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!
Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...
Mário de Sá-Carneiro, in Poesias Completas
Etiquetas:
Além - Tédio,
Cultura,
Literatura,
Mário de Sá-Carneiro,
Poesia
sábado, 1 de dezembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
Mia Couto - O Poeta
O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver
livre delas.
A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.
Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.
Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.
Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.
O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.
Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.
Mia Couto
A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.
Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.
Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.
Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.
O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.
Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.
Mia Couto
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Agustina Bessa-Luís, 90.º aniversário
Neste
dia de aniversário de Agustina Bessa-Luís, e para o assinalar, escolhi um
excerto que vem ao encontro do que escrevi ou mencionei, no outro blogue, sobre
algum do jornalismo que nos é servido e que, pura e simplesmente, não levo a
sério.
«”Para o jornalista, tudo o que é
provável é verdade”. Trata-se dum axioma estupendo, como tudo o que Balzac
inventa. Reflectindo nele, nós percebemos quantas falsidades se explicam e
quantas arranhadelas na sensibilidade se resumem a fanfarronices e não a
conhecimento dos factos. Em geral, o pequeno jornalista é um profeta da imprensa
no que toca a banalidades, e um imprudente no que se refere a coisas sérias.
Quando Balzac refere que a crítica só serve para fazer viver o crítico, isto
estende-se a muitas outras tendências do jornalista: o folhetinista, que é o
que Camilo fazia nas gazetas do Porto (...). Eu própria não estou isenta duma
soma de articulismos, de recursos à blague, de graças adaptáveis, de
frequentação do lado mau da imaginação, de ridículos, de fastidiosos conselhos,
de discursos convencionais, de condenações fáceis, de birras imbecis, de poesia
de barbeiro, de elegâncias chatas, de canibalismo vulgar, de panfletismo “bom
cidadão”. Quando não sou nada disso, sou assunto para jornais, mas não sou
jornalista.»
Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito
Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito
domingo, 23 de setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Maria Teresa Horta - Tempos ruins
Eu não descuro
recuso
censores e carcereiros
inquisidores e profetas
Que vaticinam desgraças
abrem veias
cortam versos
Trancam celas
espalham sombras
fecham postigos, janelas
Mandam pôr muros e grades
trazem presságios ruins
torturas, dores e vilezas
alcateias e mastins
Eu não descuro
procuro
a esperança acalentada
sonhada na desmesura
Entre ruínas passadas
sevícias, medos
torpezas
A poesia
e a beleza
A liberdade exaltada.
censores e carcereiros
inquisidores e profetas
Que vaticinam desgraças
abrem veias
cortam versos
Trancam celas
espalham sombras
fecham postigos, janelas
Mandam pôr muros e grades
trazem presságios ruins
torturas, dores e vilezas
alcateias e mastins
Eu não descuro
procuro
a esperança acalentada
sonhada na desmesura
Entre ruínas passadas
sevícias, medos
torpezas
A poesia
e a beleza
A liberdade exaltada.
Maria Teresa Horta
Etiquetas:
Cultura,
Leituras,
Literatura,
Livros,
Maria Teresa Horta,
Poesia,
Tempos ruins
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Eugénio de Andrade: "As amoras" e "Frésias"
O meu país sabe às amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Frésias
Uma pátria tem algum sentido
quando é a boca
que nos beija a falar dela,
a trazer nas suas sílabas
o trigo, as cigarras,
a vibração
da alma ou do corpo ou do ar,
ou a luz que irrompe pela casa
com as frésias
e torna, amigo, o coração tão leve.
Eugénio de Andrade (1923-2005)
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
Frésias
Uma pátria tem algum sentido
quando é a boca
que nos beija a falar dela,
a trazer nas suas sílabas
o trigo, as cigarras,
a vibração
da alma ou do corpo ou do ar,
ou a luz que irrompe pela casa
com as frésias
e torna, amigo, o coração tão leve.
Eugénio de Andrade (1923-2005)
Etiquetas:
As amoras,
Aula de Poesia,
Cultura,
Eugénio de Andrade,
Frésias,
Leituras,
Literatura,
Livros
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
Fernando Namora - "Raro e vazio dia"
Raro e vazio dia.
Calmo e velho dia.
Os membros lassos debruados deste cansaço sem porquê.
Raro e vazio dia,
assim inteiro e implacável
na solidão grave e trágica do meu quarto nu.
Perdido, perdido, este vagabundear dos meus olhos
sobre os livros fechados e decorados,
sobre as árvores roídas,
sobre as coisas quietas, quietas...
Raro e vazio dia
na minha boca pálida e pouca,
sem uma praga para quebrar a magia do ópio!
Fernando Namora (1919 – 1989)
Etiquetas:
Cultura,
Fernando Namora,
Leituras,
Literatura,
Livros,
Poesia,
Raro e vazio dia
sábado, 21 de julho de 2012
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Ruy Belo - E tudo era possível
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Ruy Belo (1933 – 1978)
In Homem de Palavra [s]
Etiquetas:
Cultura,
E tudo era possível,
Leituras,
Literatura,
Livros,
Poesia,
Ruy Belo
segunda-feira, 2 de julho de 2012
António Feijó - Sol de Inverno
Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta,
E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.
Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quase meiga, apesar do seu riso constante,
De olhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos,
A um tempo é cortesã, deusa ingénua ou bacante...
Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador;
Mas o brilho é fugaz, — cintila na penumbra,
Sem que dele irradie um facho criador.
Quando menos se espera, irrompe de improviso;
Mas foge-nos também com uma presteza igual;
E dela apenas fica um pálido sorriso
Traduzindo o desdém duma ilusão banal.
Onda mansa que só à superfície corre,
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda!
No entanto, eu te saúdo e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
Como chuva a cair numa planta abrasada,
A fornalha em que a Dor se transmuta em Beleza!
Pensar, é certo, eleva o espírito mais alto;
Sofrer torna melhor o coração; depura
Como um crisol: a chispa irrompe do basalto,
Sai o oiro em fusão da escória mais impura.
A Alegria é falaz; só quem sofre não erra,
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que O louve;
A Alma, na oração, desprende-se da terra;
Jamais o homem é vão diante de Deus que o ouve!
E contudo, — ilusão! — basta que ela sorria,
Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,
Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
Como ébrios, evoé! atrás dela a cantar!
Mas se ela, de repente, ao nosso olhar se furta,
Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;
A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,
Que mal chega a doirar as cortinas do berço.
Às vezes, essa luz, de tão frágil encanto,
Vem ainda banhar certas horas da Vida,
Como um íris de paz numa névoa de pranto,
Crepitação, fulgor duma estrela perdida.
Então, no resplendor dessa aurora bendita,
Toma corpo a ilusão, e sem ânsias, sem penas,
O espírito remoça, o coração palpita
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!
Mas efémera ou vã, a Alegria... que importa?
Deusa ingénua ou bacante, o seu riso clemente,
Quando, mesmo de longe, ecoa à nossa porta,
Deixa em louco alvoroço o coração da gente!
Momentânea ou falaz, é sempre um dom divino,
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...
Pudesse eu celebrar teu louvor no meu Hino!
Momentâneo, falaz encanto de viver!
O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!
Nesta sentimental língua que nós falamos,
Só a Dor e a Paixão têm acordes sublimes!
António Feijó (1859 - 1917)
E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.
Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quase meiga, apesar do seu riso constante,
De olhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos,
A um tempo é cortesã, deusa ingénua ou bacante...
Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador;
Mas o brilho é fugaz, — cintila na penumbra,
Sem que dele irradie um facho criador.
Quando menos se espera, irrompe de improviso;
Mas foge-nos também com uma presteza igual;
E dela apenas fica um pálido sorriso
Traduzindo o desdém duma ilusão banal.
Onda mansa que só à superfície corre,
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda!
No entanto, eu te saúdo e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
Como chuva a cair numa planta abrasada,
A fornalha em que a Dor se transmuta em Beleza!
Pensar, é certo, eleva o espírito mais alto;
Sofrer torna melhor o coração; depura
Como um crisol: a chispa irrompe do basalto,
Sai o oiro em fusão da escória mais impura.
A Alegria é falaz; só quem sofre não erra,
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que O louve;
A Alma, na oração, desprende-se da terra;
Jamais o homem é vão diante de Deus que o ouve!
E contudo, — ilusão! — basta que ela sorria,
Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,
Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
Como ébrios, evoé! atrás dela a cantar!
Mas se ela, de repente, ao nosso olhar se furta,
Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;
A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,
Que mal chega a doirar as cortinas do berço.
Às vezes, essa luz, de tão frágil encanto,
Vem ainda banhar certas horas da Vida,
Como um íris de paz numa névoa de pranto,
Crepitação, fulgor duma estrela perdida.
Então, no resplendor dessa aurora bendita,
Toma corpo a ilusão, e sem ânsias, sem penas,
O espírito remoça, o coração palpita
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!
Mas efémera ou vã, a Alegria... que importa?
Deusa ingénua ou bacante, o seu riso clemente,
Quando, mesmo de longe, ecoa à nossa porta,
Deixa em louco alvoroço o coração da gente!
Momentânea ou falaz, é sempre um dom divino,
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...
Pudesse eu celebrar teu louvor no meu Hino!
Momentâneo, falaz encanto de viver!
O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!
Nesta sentimental língua que nós falamos,
Só a Dor e a Paixão têm acordes sublimes!
António Feijó (1859 - 1917)
In Sol de Inverno seguido de vinte poesias inéditas (obra póstuma)
Etiquetas:
António Feijó,
Cultura,
Leituras,
Literatura,
Livros,
Poesia,
Sol de Inverno
domingo, 17 de junho de 2012
Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos: "A liberdade, sim, a liberdade!"
A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!
A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim...
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!
Passos todos passinhos de criança...
Sorriso da velha bondosa...
Apertar da mão do amigo [sério?]...
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!
Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
Da casa do campo da minha velha infância...
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?
17-8-1930
Álvaro de Campos – Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa, Estampa, 1993.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
James Joyce
Poema XXI
Quem a glória perdeu sem descobrir
Nem uma alma sequer afim da sua,
Em cólera e desdém, entre inimigos,
Cativo por vetusta fidalguia,
E quem sempre se esquiva, em altivez,
Só tem seu próprio amor por companhia
Poema XXX
Aconteceu-nos o amor outrora,
Era ao pôr do sol e um de nós tocava
O outro, ali por perto receoso –
Que principia amor sempre em temor.
Era solene nosso amor. Findou –
Em delícias passámos tantas horas;
Que propício nos seja no final,
O caminho que falta percorrer
(1907)
James Joyce (1882-1941)
No livro “Música de Câmara”, Relógio D’Água
Etiquetas:
Cultura,
James Joyce,
Leituras,
Literatura,
Livros,
Poesia
sábado, 9 de junho de 2012
Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro: “Esta tarde a trovoada caiu…”
Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
Pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...
Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente visível
Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o Sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós…
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...
Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa, Ática
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Agostinho da Silva: "Ser-se o que se é muito mais que saber vale"
Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal
todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler
teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura
e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale
até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião
que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira
alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto
se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia
deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro
Agostinho da Silva (1926 – 1994)
in Poemas, Ulmeiro
Etiquetas:
Agostinho da Silva,
Cultura,
filosofia,
Leituras,
Literatura,
Livros,
Poesia,
Ser-se o que se é muito mais que saber vale
Subscrever:
Mensagens (Atom)















