sábado, 10 de outubro de 2009

Marguerite Yourcenar - Animais para casacos de peles

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«Se escrevo no entanto estas linhas é porque imagino, não sei se com razão, que um livro escrito por mulheres será lido por mulheres, e é a elas que este meu protesto se dirige. Quando me acontece, na sala de espera de um dentista ou de um médico, folhear uma revista feminina, sobretudo as mais luxuosas, em papel couché, passo rapidamente à frente tentando não ver, como se de fotografias pornográficas se tratasse, aqueles anúncios de página inteira em que se utilizam todas as técnicas de sedução que a cor proporciona. Aquelas onde se pavoneiam criaturas femininas dentro de sumptuosos casacos de peles. Estas jovens que qualquer olhar vê a escorrer sangue, ostentam os despojos de criaturas que respiraram, comeram, dormiram, se acasalaram em jogos de amor, amaram os filhos, por vezes a ponto de morrer por eles, e que, como disse Villon, «morreram de dor», quer dizer com dor, como nós morreremos, mas elas mortas por selvajaria nossa.
O que é pior é que muitas dessas peles vêm de bichos cuja raça, milhares de anos mais velha que a nossa, está em vias de extinção se nada fizermos para o evitar, e ainda antes que essas amáveis raparigas comecem a ter rugas na cara. Em menos de uma geração, a matéria-prima desses "artigos de standing", como se diz mas não deveria dizer-se, será não só "inencontrável" ou "inacessível", não existirá pura e simplesmente. A todos nós que dedicamos esforços e dinheiro (embora nunca o suficiente, quer de uns quer de outros) para tentar salvar a diversidade e a beleza do mundo, esses massacres repugnam. Não ignoro que essas raparigas são manequins, que se enfeitam destes escalpes porque é o seu ofício, como outras vezes se adornam com um soutien ou umas calcinhas chamadas biquini em honra de uma explosão atómica (mais uma agradável associação de ideias). Estas inocentes que fazem o seu trabalho (mas que sem dúvida não desdenhariam possuir aqueles casacos), nem por isso representam menos uma legião de mulheres, as que sonham com esse luxo inacessível ou as que, possuindo-o, o exibem como prova de fortuna e de estatuto social, de êxito sexual ou de carreira ou ainda como um acessório que as faz sentir mais seguras da sua beleza e do seu charme.
Tiremos a essas senhoras o seu último trapo-desculpa. Hoje em dia, vivam elas em Paris ou na Gronelândia, não precisam dessas peles para se aquecer. Muito boa lã e boa fibra abundam por aí para conservar e irradiar o calor para que elas não se vejam obrigadas a transformar-se em animais felpudos, como terá sido o caso na Pré-História.
Estou a atacar as mulheres, mas os caçadores são homens e os peleiros também. O homem que se orgulha de entrar num restaurante com uma mulher envolta em pêlos de animal eriçados será um homem muito típico mas não necessariamente um Homo sapiens. Neste domínio, como em tantos outros, os sexos equivalem-se.» (1976)
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in "O Tempo esse grande escultor"

4 comentários:

Manuela Freitas disse...

Que texto fantástico, subscrevo-o na totalidade. OH VAIDADE EXARCEBADA QUE CEGAS ÉS...
Marguerite Yourcenar é uma das minhas escritores favoritas, entre os seus vários livros que li, «As Memórias de Adriano» li-o várias vezes, para fazer um trabalho.
Bjs

Maria Josefa Paias disse...

Manuela Freitas, nem me fale do livro "Memórias de Adriano". É daqueles que marcam e onde se volta continuamente e, até hoje, não me lembro de nada parecido.
Quanto a estas crónicas de Marguerite, que estão compiladas no livro "O tempo esse grande escultor", já publiquei aqui uma com o título "Fogos de Solstício, no dia 6 de Agosto, e conto publicar em Dezembro uma sobre o Natal e depois uma outra sobre a Páscoa. Apesar de terem sido escritas nos anos 70, não as considero "datadas" porque têm uma beleza intrínseca e um outro olhar sobre os temas. Espero que também goste delas.
E como me parece que temos algumas afinidades não só de gosto, como de sensibilidade, depois de ter descrito o meu estado de espírito naquele dia chuvoso, que a Manuela comentou, li ontem no "Livro do Desassossego" de F. Pessoa/Bernardo Soares esta passagem: «Há dois dias que chove e que cai do céu cinzento e frio uma certa chuva, da cor que tem, que aflige a alma. Há dois dias... Estou triste de sentir, e reflicto-o à janela ao som da água que pinga e da chuva que cai. Tenho o coração opresso e as recordações transformadas em angústias.»
Como não hei-de considerar alguns escritores as minhas almas gémeas?
Eles entendem-me melhor que ninguém.
Obrigada e um beijinho.

Ana Paula disse...

Um dos meus livros preferidos de sempre e para sempre, este "O tempo esse grande escultor". Um título magnífico, uma escritora de topo, inesquecível!

Maria Josefa Paias disse...

Obrigada Ana Paula pela sintonia, embora o "Memórias de Adriano" me tivessem deixado sem palavras e me perguntasse: "mas como é que ela conseguiu construir esta obra?" É de génio.
Beijinho.