sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bach - Brandenburg Concerto No.5, Mov. 1

Será demasiado desejar a todos um 2011 tão belo quanto a música de Bach? Sejamos arrojados!...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Mário de Sá-Carneiro - "Dispersão"

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família)

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada.
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim, 
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

... ... ... ... ... ... ... ... ...
(1914)

Em Poesias Completas de Mário de Sá-Carneiro, Colecção Clássicos Anagrama, Porto, 1983(?)

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa/ Ricardo Reis - "Cura de ser quem és"

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada de pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.

Odes/ Ricardo Reis

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - Talvez quem vê bem não sirva para sentir

Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.

Alberto Caeiro/ O Pastor Amoroso

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

John Lennon (09/10/1940 - 08/12/1980)

Para assinalar o 30.º aniversário do assassinato de John Lennon escolhi alguns temas e vídeos e cuja sequência fazem algum sentido para mim.
Do primeiro tema, "Happy Christmas (War is over)", queria apresentar dois vídeos porque, infelizmente, a realidade não é sempre tão apaziguadora como a que podemos sentir naquele que publico e, por isso, haveria que mostrar o lado da guerra que, afinal, ainda não acabou, mas esse tem o código desactivado, talvez por ter imagens que  podem ferir a sensibilidade de algumas pessoas, mas que são reais e vão continuar a sê-lo, porque a barbárie e as tragédias não acabarão enquanto o Homem existir, e cujo código curto é este: http://www.youtube.com/watch?v=s8jw-ifqwkM .
Depois pareceram-me adequados os temas "Come Together" e a sua versão de "Stand by me", talvez como votos para o futuro.



 



terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fernando Pessoa - 75.º aniversário da sua morte (homenagem)

A minha homenagem de hoje, a Fernando Pessoa, não será feita através de um poema ou de qualquer outro texto dele ou dos seus heterónimos ou do semi-heterónimo Bernardo Soares, que poderão ser lidos em qualquer dos blogues dada a atenção que me têm merecido, mas através de um fado cantado por Ana Moura, e cujo vídeo tenta retratar uma viagem imaginária de Fernando Pessoa desde o Chiado, em Lisboa, até à cidade de Nova Iorque, e daí o seu título: Fernando Pessoa @ NY (en)cantado por Ana Moura. Espero que constitua uma bela surpresa para os apreciadores de Pessoa, quanto o foi para mim.



Quadro de Fernando Pessoa por João Ricardo

"Fado de Pessoa":
Letra de João Pedro Pais
Álbum de Ana Moura - "Aconteceu" (2004)
Vídeo produzido por Ricardo Cobra em 2007

Fernando Pessoa (13/06/1888 - 30/11/1935)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

2.º Congresso Internacional Fernando Pessoa e Revista PESSOA

Eduardo Lourenço, Teresa Rita Lopes, Caetano Veloso e João Botelho são alguns dos colaboradores do primeiro número da revista PESSOA, a ser lançada no 2.º Congresso Internacional Fernando Pessoa, no Teatro Aberto, em Lisboa, entre 23 e 25 de Novembro. A edição bilingue e trimestral promete dar lugar ao ensaio e à poesia. De acordo com a Directora da Casa Fernando Pessoa, “falta a Portugal uma revista de ensaio, que exceda os compartimentos da indagação literária – ensaio é experimentação, risco, excesso. A obra de Fernando Pessoa é isso: uma obra contaminada e contaminável, sem medo de cruzar e misturar fronteiras. Esta revista procura cumprir o desígnio desbravador dessa obra”. Aos ensaios publicados neste primeiro número da revista PESSOA junta-se um conjunto de poemas inéditos de Ana Luísa Amaral e Maria Lúcia Dal Farra, bem como portefólios de José David, Jorge Colombo e Graça Morais. Destaque ainda para a divulgação do Filme do Desassossego de João Botelho, e da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa, agora também online pela mão de Jerónimo Pizarro, Patrício Ferrari e Antonio Cardiello. A nova edição da Casa Fernando Pessoa conta ainda, no Conselho Editorial, com Fernando Cabral Martins, Fernando J. B. Martinho, Perfecto E. Cuadrado ou Richard Zenith, entre outros. Uma revista que é também, garante Inês Pedrosa, um “convite ao Desassossego”.
Também AQUI

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Carlos Seixas - Concerto para cravo e cordas em Lá Maior, I, Allegro


Do mesmo modo que não há machado que corte a raiz ao pensamento, nada nos impede de ver imagens lindíssimas de algumas zonas afectadas pela Cimeira da Nato, em Lisboa, ao som da música, ainda mais bela, de Carlos Seixas, e apreciar  o contraste: barroco (música) / moderno (arquitectura). 


terça-feira, 16 de novembro de 2010

José Saramago - 88.º aniversário de nascimento (homenagem através de excerto de O Evangelho segundo Jesus Cristo)

«Disse Deus, Haverá uma Igreja, que, como sabes, quer dizer assembleia, uma sociedade religiosa que tu fundarás, ou em teu nome será fundada, o que é mais ou menos o mesmo se nos ativermos ao que importa, e essa Igreja espalhar-se-á pelo mundo até a confins que ainda estão por conhecer, chamar-se-á católica porque será universal, o que, infelizmente, não evitará desavenças e dissensões entre os que te terão como referência espiritual, mais, como já te disse, do que a mim próprio, mas isso será apenas por algum tempo, só uns milhares de anos, porque eu já era antes que tu fosses e sempre o hei-de ser depois que tu deixes de ser o que és e o que serás, Fala claro, interrompeu Jesus, Não é possível, disse Deus, as palavras dos homens são como sombras, e as sombras nunca saberiam explicar a luz, entre elas e a luz está e interpõe-se o corpo opaco que as faz nascer, Perguntei-te pelo futuro, É do futuro que estou a falar, O que quero que me digas é como viverão os homens que depois de mim vierem, Referes-te aos que te seguirem, Sim, se serão mais felizes, Mais felizes, o que se chama felizes não direi, mas terão a esperança duma felicidade lá no céu onde eu eternamente vivo, portanto a esperança de viverem eternamente comigo, Nada mais, Parece-te pouco, viver com Deus, Pouco, muito ou tudo, só se virá a saber depois do juízo final, quando julgares os homens pelo bem e mal que tiverem feito, por enquanto vives sozinho no céu, Tenho os meus anjos e os meus arcanjos, Faltam-te os homens, Pois faltam, e para que eles venham a mim é que tu serás crucificado, Quero saber mais, disse Jesus quase com violência, como se quisesse afastar a imagem que de si mesmo se lhe representara, suspenso de uma cruz, ensanguentado, morto, Quero saber como chegarão as pessoas a crer em mim e a seguir-me, não me digas que será suficiente o que eu lhes disser, não me digas que bastará o que em meu nome disserem depois de mim os que em mim já creiam, dou-te um exemplo, os gentios e os romanos, que têm outros deuses, quererás tu dizer-me que, sem mais nem menos, os trocarão por mim, Por ti não, por mim, Por ti ou por mim, tu próprio dizes que é o mesmo, não joguemos com as palavras, responde à minha pergunta, Quem tiver a fé virá a nós, Assim, sem mais nada, tão simplesmente como acabas de o dizer, Os outros deuses resistirão, E tu lutarás contra eles, por certo, Que disparate, tudo quanto acontece, é na terra que acontece, o céu é eterno e pacífico, o destino dos homens cumprem-no os homens onde estiverem, Dizendo as coisas por claro, mesmo sendo as palavras sombras, vão morrer homens por ti e por mim, Os homens sempre morreram pelos deuses, até por falsos e mentirosos deuses, Podem os deuses mentir, Eles podem, E tu és, de todos, o único e verdadeiro, Único e verdadeiro, sim, E, sendo verdadeiro e único, nem por isso podes evitar que os homens morram por ti, eles que deviam ter nascido para viver para ti, na terra, quero dizer, não no céu, onde não terás, para lhes dar, nenhuma das alegrias da vida. […]»

O Evangelho segundo Jesus Cristo, Editorial Caminho, Lisboa, 1991, pp. 379/80

José Saramago (16/11/1922 - 18/06/2010)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eugénio de Andrade - "Adeus"


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
 
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
 
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade (1923-2005)


domingo, 7 de novembro de 2010

Albert Camus - 97.º aniversário de nascimento (homenagem)

Para esta simples homenagem a Albert Camus escolhi um excerto do livro O Mito de Sísifo, e do capítulo As Paredes Absurdas: «O sentimento do absurdo pode esbofetear qualquer homem à esquina de qualquer rua. Em si mesmo, na sua nudez desoladora, na sua luz sem esplendor, é inapreensível. Mas até essa dificuldade merece reflexão. É provavelmente verdade que um homem nos fica sempre desconhecido e que nele sempre subsiste qualquer coisa de irredutível que nos escapa. Mas praticamente conheço os homens e reconheço-os pela sua conduta, pelo conjunto dos seus actos, pelas consequências que a sua passagem suscita na vida. Da mesma maneira posso praticamente definir, praticamente apreciar todos esses sentimentos irracionais que a análise não consegue captar. Para tanto me basta reunir a soma das suas consequências na ordem da inteligência, surpreender-lhes e fixar-lhes a face, delimitar-lhes o universo. É certo que, aparentemente, lá por ter visto cem vezes o mesmo actor, nem por isso o conheço pessoalmente melhor. No entanto, se eu adicionar os heróis que ele encarnou e disser que o conheço um pouco mais por ocasião da centésima personagem recenseada, sente-se que há aqui uma parte de verdade. Porque este paradoxo aparente é também um apólogo. Tem uma moralidade. Ensina que um homem se define tão bem através das suas comédias como através dos seus impulsos sinceros. Assim acontece, um tom abaixo, com os sentimentos, inacessíveis no coração, mas parcialmente traídos pelos actos que eles animam e pelas atitudes de espírito que pressupõem. Vê-se bem que defino assim um método. Mas vê-se também que esse método é de análise e não de conhecimento. Porque os métodos implicam metafísicas, atraiçoam, sem se darem conta disso, as conclusões que por vezes pretendem não conhecer ainda. Assim, as últimas páginas de um livro já estão nas primeiras. Esta ligação é inevitável. O método aqui definido confessa o sentimento de que todo o verdadeiro conhecimento é impossível. Só as aparências podem enumerar-se e o clima fazer-se sentir.

Esse inacessível sentimento do absurdo, talvez o possamos então atingir em mundos diferentes, mas fraternais, da inteligência, da arte de viver, ou simplesmente da arte. O clima do absurdo está no início. O fim é o universo absurdo e essa atitude de espírito que ilumina o mundo a uma luz que lhe é própria, a fim de fazer resplandecer o rosto privilegiado e implacável que esta lhe sabe reconhecer.»

 

O Mito de Sísifo, Livros do Brasil, Lisboa, 1983, pp. 22/24

 

Albert Camus 07/11/1913 - 04/01/1960
Prémio Nobel da Literatura em 1957

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Fernando Pessoa / Ricardo Reis - "Cada um cumpre o destino que lhe cumpre"

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre,
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Odes / Ricardo Reis

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

88.º Aniversário de Agustina Bessa-Luís


«Não sei porque não se pode dissociar nas mulheres inteligência e malícia. Mas é assim. Um homem goza da fama de inteligente e é premiado com toda a espécie de honras; a mulher cai sob suspeita e oferecem-lhe um lugar de vigilante, para que se responsabilize por instituições como o casamento, as enfermarias e as escolas. E quando é um génio, a mulher vê-se ascender à categoria de relações-públicas, que é a maneira de ignorar os seus dons de conciliação, de justiça e de pura filosofia cósmica».

Agustina Bessa-Luís, Um Cão Que Sonha, Guimarães, pp 199-200

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ary dos Santos - "Estrela da Tarde"

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!









Nota: Já tinha publicado no blogue Restolhando este poema "Estrela da Tarde", de José Carlos Ary dos Santos, mas integrado no texto que escrevi a 09/10/2010 sobre Domestic Violence Awareness Month //Bloggers Unite, e pareceu-me que merecia uma publicação individual. Para os que me visitam, de outros países, acrescentarei que este poema tem sido muito difundido na voz de Carlos do Carmo com música de Fernando Tordo. Uma das versões pode ser ouvida aqui.

sábado, 9 de outubro de 2010

John Lennon completaria hoje 70 anos - "Dream"

O número 9 era o número talismã de John Lennon, por ter sido em dias 9 que o acaso lhe reservou alguns marcos históricos da sua vida, incluindo o nascimento, há 70 anos.

A minha homenagem e saudade.






Following the worldwide release of eight remastered John Lennon studio albums and several new collections on October 5 (October 4 internationally), Yoko Ono and EMI Music have partnered with YouTube for exciting global tributes honouring the music legend on the occasion of his 70th birthday (October 9). Check out the amazing new Google Doodle and animation! http://www.Google.com/ The John Lennon Youtube Channel is here: http://youtube.com/johnlennon Visit thebeatles.com for the full story: http://bit.ly/bRkY97

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Rachmaninov - Russian Coral Music


Hoje, Dia Mundial da Música, dou primazia a um dos mais belos instrumentos: a voz humana. E este Grupo Coral Russo interpreta Rachmaninov de uma forma soberba.




quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Eduarda Costa Ferraz - Exposição de Pintura "Horizontes Perdidos" entre 1 e 31 de Outubro


CONVITE
" Horizontes Perdidos" – Pintura de Eduarda Costa Ferraz, inauguração dia 1 de Outubro, Dia Mundial da Música, pelas 19h00, Cocktail e Fados na voz de António Pinto Coelho – Hotel Inglaterra no Estoril


Paisagens, pessoas e animais,
Amores, amizades e afectos,
Cores, ideias e ideais,
Ganham forma, surgem projectos.
 Nos horizontes da imaginação...
Em que nada se perdia...
Cada um com a sua missão...
Levava uma carta a Garcia...

Nesta exposição são apresentadas cerca de 40 obras, em acrílico sobre tela. Eduarda Costa Ferraz nasceu em Angola. Vive e trabalha no Estoril. Artista plástica, leccionou educação visual e desenho.
Exposição patente até 31 de Outubro no Hotel Inglaterra no Estoril, Rua do Porto, n.º 1 – 2765-271 Estoril, e on-line, com informações adicionais, em www.bestartis.pt/detalhe.aspx?ido=4092

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ainda Francisco Ribeiro - Desiderata

O trabalho que Francisco Ribeiro nos deixou,  depois de mais de uma década de reflexão e de procura de respostas para as suas interrogações, a que deu o título DESIDERATA, inspira-se num texto com o mesmo nome, atribuído a Max Ehrmann (1872-1945) e que aqui deixo em versão portuguesa:

DESIDERATA

Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa,
lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível sem humilhar-se,
mantenha-se em harmonia com todos os que o cercam.
Fale a sua verdade, clara e mansamente.
Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história.
Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.
Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo.
Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar.
Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja,
ele é um verdadeiro tesouro na contínua mudança dos tempos.
Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas.
Mas não fique cego para o bem que sempre existe.
Em toda a parte, a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo.
Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira,
pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.
Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos
e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.
Cultive a força do espírito e você estará preparado
para enfrentar as surpresas da sorte adversa.
Não se desespere com perigos imaginários:
muitos temores têm a sua origem no cansaço e na solidão.
Ao lado de uma sadia disciplina conserve,
para consigo mesmo, uma imensa bondade.
Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores,
você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber,
a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.
Procure, pois, estar em paz com Deus,
seja qual for o nome que você lhe der.
No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida,
conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz.
Acima de toda a mesquinhez, falsidade e desengano,
o mundo ainda é bonito.
Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz
e partilhe com os outros a sua felicidade.


DESIDERATA – Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração. Este texto é atribuído a Max Ehrmann (1872-1945) e foi registado pela primeira vez, por ele, em 1927.
Hoje em dia é do domínio público.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Quem ama é diferente de quem é"

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de que é
É a mesma pessoa sem ninguém.


O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Filme do Desassossego estreia a 29 de Setembro no CCB



O Filme do Desassossego, o mais recente projecto de João Botelho, já tem data de estreia. A 29 de Setembro a versão do Livro do Desassossego de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, apresenta-se no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, de onde, após mais três dias de exibição, a 1, 2 e 3 de Outubro, parte em digressão pelos cine-teatros de todo o país (nada da salas de cinema com pipocas). 

Protagonizada por Cláudio Silva, jovem actor dos palcos, a ficção onírica de Botelho sobre o livro de Bernardo Soares tem 60 actores, incluindo Alexandra Lencastre, Margarida Vila-Nova, Pedro Lamares e Rita Blanco.

A informação sobre horários e salas onde se apresenta no CCB está AQUI.


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Quando eu não te tinha"

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

sábado, 21 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Amar é pensar"

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

O Pastor Amoroso/ Alberto Caeiro

domingo, 15 de agosto de 2010

Charles Reznikoff - "TE DEUM"

TE DEUM

Not because of victories
I sing,
having none,
but for the common sunshine,
the breeze,
the largess of the spring.

Not for victory
but for the day´s work done
as well as I was able;
not for a seat upon the dais
but at the common table.

(1919)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "O amor é uma companhia"

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro/ O Pastor Amoroso

Nota: Quem me conhece um pouco, já deve ter-se apercebido que dei férias a Bernardo Soares e fiquei com o "Pastor Amoroso"/Alberto Caeiro para desanuviar...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro - "Agora que sinto amor"

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

.
Alberto Caeiro/ O Pastor Amoroso

segunda-feira, 19 de julho de 2010

The Lisbon Consortium - Mestrado e Doutoramento em "Estudos de Cultura" da FCH/ UCP

Estão abertas as inscrições para Mestrado e Doutoramento em Estudos de Cultura na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa,  em Lisboa, podendo ser consultadas as respectivas brochuras, em português e inglês, AQUI.
The Lisbon Consortium, ou Consórcio de Lisboa, é um programa de cooperação inovador e único no panorama português, com enfoque internacional, também AQUI.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vivaldi - "Winter" (Four Seasons)

A música e as imagens deste vídeo são tão belas, que não me importaria de ter sempre este Inverno.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Maria Bethânia na Casa Fernando Pessoa (21 Julho)

Maria Bethânia, na sua passagem pela Casa Fernando Pessoa no dia 21 de Julho, quarta-feira, às 17:30 h, irá ler poemas e textos de: Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Castro Alves, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vinícius de Moraes, João Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Padre António Vieira, Clarice Lispector, Mário de Andrade, entre outros, leitura que será intercalada com canções quase "a capella". 
Como encontrei um vídeo onde declama "O Menino Jesus", de Alberto Caeiro, resolvi publicá-lo também para se ver a sua abordagem à poesia e podermos comparar com o nosso Mário Viegas.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Colóquio Internacional "Reading Ricoeur once again/ Relire Ricoeur à notre tour" (7 a 10 de Julho)

Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, realiza-se nos dias 7 a 10 de Julho, na Avenida de Berna, 26-C, em Lisboa, Auditório 1 (Torre B, 1.º andar), um Colóquio Internacional sobre Paul Ricoeur, subordinado ao título "Reading Ricoeur once again: Hermeneutics and Practical Philosophy / Relire Ricoeur à notre tour: Herméneutique et Philosophie Pratique", com intervenções de especialistas na obra deste filósofo que se distinguiu especialmente na área da Filosofia Social e Política, e cuja informação está disponível AQUI, no caso de não ser completamente visível tudo o que está neste cartaz:

domingo, 4 de julho de 2010

Fernando Pessoa/ Bernardo Soares (...pompa de dor e de apagamento...)

Criei para mim, fausto de um opróbrio, uma pompa de dor e de apagamento. Não fiz da minha dor um poema, fiz dela, porém, um cortejo. E da janela para mim contemplo, espantado, os ocasos roxos, os crepúsculos vagos de dores sem razão, onde passam, nos cerimoniais do meu descaminho, os pajens, os palhaços da minha incompetência nativa para existir. A criança, que nada matou em mim, assiste ainda, de febre e fitas, ao circo que me dou. Ri dos palhaços, sem haver cá fora de circo; põe nos habilidosos e nos acrobatas olhos de quem vê ali toda a vida. E assim, sem alegria, mas contente, entre as quatro paredes do meu quarto dorme, por inocência, com o seu pobre papel feio e gasto, toda a angústia insuspeita de uma alma humana que transborda, todo o desespero sem remédio de um coração a quem Deus abandonou.
Caminho, não pelas ruas, mas através da minha dor. As casas alinhadas são os incompreendedores que me cercam, na alma; os meus passos soam no passeio como um dobre a finados, um ruído de espanto na noite, final como um recibo ou uma jaula.
Separo-me de mim e vejo que sou um fundo dum poço.
Morreu quem eu nunca fui. Esqueceu a Deus quem eu havia de ser. Só o interlúdio vazio.
Se eu fosse músico escreveria a minha marcha fúnebre, e com que razão a escreveria!

De Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 3.ª edição, 2008, pp. 325/6 (texto 401)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sugestão invulgar

Tenho recebido, esporadicamente, pedidos para publicar algumas das minhas respostas a comentários que, segundo a opinião de quem faz esses pedidos, constituem uma mais-valia, quer para o esclarecimento, quer para reflexão.
Pensando um pouco no assunto, concluí que essas respostas só fazem sentido enquadradas com o comentário recebido, e ambos no contexto do que publiquei e que os originou. Por outro lado, e não menos importante, essas minhas respostas mais longas, sobre assuntos mais sérios, são todas elas personalizadas, procurando as palavras adequadas a cada pessoa que me interpela, como se mais ninguém estivesse a ler ou viesse a ler, e essa partilha quase "privada" creio que está nos lugares certos - as caixas de comentários, onde só acedem as pessoas realmente interessadas em ler o que os outros têm a dizer sobre determinado assunto.
Embora já tenha agradecido individualmente a sugestão, renovo aqui o agradecimento e, também, o facto de me terem obrigado a reflectir sobre o assunto.