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sábado, 13 de setembro de 2014

Natália Correia, Ode à Paz



Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
pelas aves que voam no olhar de uma criança,
pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,

pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
pelos aromas maduros de suaves outonos,
pela futura manhã dos grandes transparentes,
pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
abre as portas da História,
deixa passar a Vida!


NATÁLIA CORREIA (13/9/1923 – 16/3/1993)

Em “ Inéditos”

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Natália Correia, Da clara à negra ciência



Uma laranja cai
E o chão impede
Que ela infinitamente caia.
Impedimento
Ou o invento
De uma ciência
Que já foi gaya
E agora é triste-
mente astronómica.
Raios a partam
A bomba atómica!

Natália Correia, in Poesia Completa, Dom Quixote, Lisboa, 1999

Nota: lembrei-me deste poema para assinalar os 68 anos que decorreram desde o lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima (6/08/1945)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Natália Correia - Insónia (homenagem em dia de aniversário)

Insónia. Abro a janela. Esvaimento
No abismo da solidão estrelada.
É inquietante a paz e um sentimento
De hora nenhuma vai da lua ao nada.

Tem nisto um deus sinistro o instrumento
De submeter-me em morte figurada?
Silêncio astral. Estático tormento
No eterno insone que inspira a hora parada

Suga-me o sangue um polvo agonizante.
Marginam o pensamento delirante
Espectros de prostitutas na avenida.

Pesam as pálpebras. Apodrece a ideia
De adormecer. O dia já clareia
Num galho tenro da árvore da vida.

Natália Correia (13/09/1923-16/03/1993)

Em Poesia Completa, Dom Quixote, Lisboa, 1999

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Natália Correia - Uma laranja para Alberto Caeiro

Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave

Se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois da laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-à rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.

Natália Correia

Em Poesia Completa, Dom Quixote, Lisboa, 1999

quarta-feira, 10 de março de 2010

Natália Correia - "No meu aniversário" (homenagem no 17.º aniversário da morte)

No meu aniversário

Já por cinquenta e tal esta jangada

Do corpo em águas negras abrevia

De Aqueronte a outra margem; e corada

De moça fica a alma à rebelia

.

Da ruga pelo tempo concertada.

Pede bengala a reuma? Assim a Pítia

Pede o tripé que só nele sentada

Inala os fumos da Sabedoria.

.

Amigos que ao fortuito aniversário,

Por édito de torto calendário,

Cinquenta e tal hortênsias me trazeis!

.

Pelos anos letais descendo as pernas,

Sobe a alma por louros às lanternas

Do canto que me furta a humanas leis.

.

(13/09/1923-10/03/1993)

.

De Poesia Completa, D. Quixote, 1999

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Natália Correia - "Verdadeira litania para os tempos da revolução"


Burgueses somos nós todos

ó literatos

burgueses somos nós todos

ratos e gatos

Mário Cesariny

Mário nós não somos todos burgueses

os gatos e os ratos se quiseres,

os literatos esses são franceses

e todos soletramos malmequeres.

Da vida o verbo intransitivo

não é burguês é ruim;

e eu que nas nuvens vivo

nuvens! O que direi de mim?

Burguês é esse menino extraordinário

que nasce todos os anos em Belém

e a poesia se não diz isto Mário

é burguesa também.

Burguês é o carro funerário.

Os mortos são naturalmente comunistas.

Nós não somos burgueses Mário

o que nós somos todos é sebastianistas.

.

de Poesia Completa, D. Quixote, 1999

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Natália Correia - poema "Do dever de deslumbrar"

A inútil tragédia da vida
Não chega a merecer um poema
Só o poema merece, por vezes,
A inútil tragédia da vida.
.
As pessoas caem como folhas
E secam no pó do desalento
Se não as leva consigo
A fúria poética do vento.
.
Para que se justifique a nossa vida
É preciso que alguém a invente em nós.
Os que nunca inspiraram um poema
São as únicas pessoas sós.
.
in Poesia Completa, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, D. Quixote, Lisboa, 1999