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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Agustina Bessa-Luís, 90.º aniversário



Neste dia de aniversário de Agustina Bessa-Luís, e para o assinalar, escolhi um excerto que vem ao encontro do que escrevi ou mencionei, no outro blogue, sobre algum do jornalismo que nos é servido e que, pura e simplesmente, não levo a sério.

«”Para o jornalista, tudo o que é provável é verdade”. Trata-se dum axioma estupendo, como tudo o que Balzac inventa. Reflectindo nele, nós percebemos quantas falsidades se explicam e quantas arranhadelas na sensibilidade se resumem a fanfarronices e não a conhecimento dos factos. Em geral, o pequeno jornalista é um profeta da imprensa no que toca a banalidades, e um imprudente no que se refere a coisas sérias. Quando Balzac refere que a crítica só serve para fazer viver o crítico, isto estende-se a muitas outras tendências do jornalista: o folhetinista, que é o que Camilo fazia nas gazetas do Porto (...). Eu própria não estou isenta duma soma de articulismos, de recursos à blague, de graças adaptáveis, de frequentação do lado mau da imaginação, de ridículos, de fastidiosos conselhos, de discursos convencionais, de condenações fáceis, de birras imbecis, de poesia de barbeiro, de elegâncias chatas, de canibalismo vulgar, de panfletismo “bom cidadão”. Quando não sou nada disso, sou assunto para jornais, mas não sou jornalista.»

Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

88.º Aniversário de Agustina Bessa-Luís


«Não sei porque não se pode dissociar nas mulheres inteligência e malícia. Mas é assim. Um homem goza da fama de inteligente e é premiado com toda a espécie de honras; a mulher cai sob suspeita e oferecem-lhe um lugar de vigilante, para que se responsabilize por instituições como o casamento, as enfermarias e as escolas. E quando é um génio, a mulher vê-se ascender à categoria de relações-públicas, que é a maneira de ignorar os seus dons de conciliação, de justiça e de pura filosofia cósmica».

Agustina Bessa-Luís, Um Cão Que Sonha, Guimarães, pp 199-200

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

87.º aniversário de Agustina Bessa-Luís

«Quando acontece vir ao mundo numa tarde de domingo, tendo a tempestade desabado sobre os lugares fazendo as árvores dobrar-se até ao chão, o melhor que temos a fazer é gritar de terror. Foi o que se deu com Luís Matias do Barral, homenzinho com cinquenta e dois centímetros de comprimento e com pulmões verdadeiramente prometedores, posto que descendia duma família de oradores. O pai brindou com um velho Porto cor de ferrugem, e teve a secreta vontade de que a parteira o fizesse beber um pouco da água do banho para o tornar inteligente.»
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Este é o primeiro parágrafo do romance Ordens Menores, publicado em 1992, menos conhecido do que A Sibila, de 1953, e do qual publiquei aqui, a 17 de Agosto, os últimos parágrafos, também como homenagem a Agustina Bessa-Luís.
De outras homenagens que se vão prestar amanhã a Agustina, dia do seu aniversário de nascimento, destaco:
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No CCB
Entre as 15,00h e as 20,00h, a exposição Agustina Bessa-Luís: Vida e Obra, promovida pelo Instituto Camões, com apoio da Guimarães Editores, e concepção de Inês Pedrosa e João Botelho.
Entre as 15,00h e as 17,00h, na sala Almada Negreiros, com entrada livre, leitura de excertos de alguns dos seus livros, por Maria João Seixas, Pedro Mexia, António Mega Ferreira e Leonor Silveira.
Às 17,15h, projecção do filme A Corte do Norte, com introdução de João Botelho, filme que tem a duração de 120 minutos e é para maiores de 16 anos.
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Às 18,30h, evocação de Agustina por José Saramago.
PARABÉNS AGUSTINA!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Agustina Bessa-Luís - excerto de A Sibila

«É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas, os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.
Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida, sem que, porém, as suas aspirações mais inquietantes deixassem de ser, no seu íntimo, as mesmas formas incompletas, chave da transfiguração que os homens eternamente tentam moldar e se legam de mão em mão, como um segredo e como uma dúvida.
Eis Germa, que, embalando-se na velha rocking-chair, pensa e pressente, sabendo-se actual relicário desse terrível, extenuante legado de aspiração humana. Nas suas veias, estão todos os infinitos estados do passado, no seu cérebro condensaram-se muitas e muitas experiências que não viveu, as negações e afirmações ocupam vastos espaços da sua alma. Ela move-se ritmicamente baloiçando-se naquela sala onde se recolhem em pilhas as maçãs; todo o ar rescende a maçã que suga da própria pele a frescura e dela dessangra o suco que acrescentará a reserva da polpa viva, ainda por todo o Inverno.
Eis Germa, eis a sua vez agora e o tempo de traduzir a voz da sua sibila. Talvez, porém, o seu tempo seja improdutivo e nefasto, e ela fique de facto silenciosa, porque - quem é ela para ser um pouco mais do que Quina e esperar que os tempos novos sejam mais aptos a esclarecer o homem e a trazer-lhe a solução de si próprio? Talvez ela fique de facto imóvel no seu constante, lento ou vertiginoso baloiçar, na casa que fortuitamente habita, e a sua história fique hermeticamente fechada no círculo de aspirações que não conseguiu detalhar e cumprir, porque aconteceu ser cedo ou ser tarde, porque não se compreende ou não se crê o bastante, porque se deseja demasiado e isto é todo o destino, porque... porque...» (16 de Janeiro de 1953)
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Estes são os últimos parágrafos de A Sibila de Agustina Bessa-Luís, o primeiro livro dela que li e de que gostei muito, e que ficam aqui como homenagem enquanto ainda está viva, embora muito doente; estou a começar a ficar cansada de só homenagear alguns dos grandes seres humanos in memoriam, porque ela, a morte, apanha-nos quase sempre desprevenidos.