segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro - "O Mundo não se fez para pensarmos nele"

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
.
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
.
Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
.
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
.
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
.
(de O Guardador de Rebanhos/Alberto Caeiro)

4 comentários:

T.Mike (Miguel Gomes Coelho) disse...

Maria Josefa,
é a força poética e argumentativa que eu tanto estimo, e muito me agrada, no Alberto Caeiro.
Só de ler somos transportados para outro mundo.
É o Mestre como dizia Pessoa.
É um regalo ler estas linhas e ficar a pensar...
Um abraço.

Maria Josefa Paias disse...

Eu também fico assim com o Mestre Caeiro, Miguel.
Como a fonte parece inesgotável, podemos dessedentarmo-nos por mais algum tempo.
Muito obrigada e um abraço:)

Ana Paula Sena disse...

O Mestre, sem dúvida!

Não pensar o Mundo, o maior ideal quase inatingível; não o pensando, seria talvez possível pensá-lo de um outro modo, mais de acordo com ele.

Ao ler o Alberto Caeiro, é a serenidade da verdadeira sabedoria que brilha.

Beijinhos, Josefa.

Maria Josefa Paias disse...

De facto, Ana Paula, o Mestre Caeiro quer que vejamos o Mundo, que o sintamos e que o pensemos, mas com os olhos. Há quem utilize a expressão "ver com olhos de ver".
Aliás, num dos poemas que publiquei hoje, ainda é mais taxativo ao dizer:
"Olho, e as coisas existem.
Penso e existo só eu".

Obrigada e beijinhos:)