sábado, 6 de março de 2010

Mário Pinto de Andrade - "O valioso tempo dos maduros"

O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário Pinto de Andrade
Escritor e político angolano, de nome completo Mário Coelho Pinto de Andrade.
(1928-1990)

Nota: a todos quantos têm visitado esta página pensando tratar-se de um texto do escritor brasileiro Mário de Andrade, apresento desculpas, uma vez que o nome não estava tão completo.

13 comentários:

Benjamina disse...

Excelente texto, Josefa.
Também já não tenho tempo para essas coisas... nunca tive muito :)
Obrigada e beijinhos

Eduardo Miguel Pereira disse...

Maria Josefa, isto é que foi telepatia hem !

http://chegateaqui.blogspot.com/2010/03/poesia-de-mario-de-andrade.html

Palavras sábias e maravilhosas estas de Mário de Andrade.

Maria Josefa Paias disse...

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Obrigada eu, Benjamina.

Beijinho e bom Domingo:)

Maria Josefa Paias disse...

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Foi mesmo, Eduardo. O que só demonstra o acordo com o que está escrito.

Um abraço e bom Domingo:)

ismael disse...

EXCELENTE!!!!!!

disse...

Lindo texto...estou a te seguir.
Copiei este texto no meu, espero que não tenha feito mal, qualquer coisa me fala que deleto.

bjs
Andréa

Maria Josefa Paias disse...

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Em especial para o Eduardo e para a Andréa (DÉ), porque têm este texto nos seus blogues, informo que o autor de "O valioso tempo dos maduros" é o escritor e político angolano Mário Pinto de Andrade (1928-1990) e não o escritor brasileiro Mário de Andrade.

Já escrevi uma nota no meu blogue, porque também fui induzida em erro.

Não sei se ajuda, mas posso acrescentar que o Eduardo o publicou em Março e a DÉ em Setembro, no caso de quererem corrigir, pelo menos, a foto ou imagem.

Abraços.

LReis disse...

Sra. Maria Josefa
Aliás esta equivocada atribuição deste lindo texto ao escritor brasileiro Mário de Andrade(1893/1945), aparece repetidamente em vários blogs na Net, havendo até quem o atribua a Ricardo Gondim, pastor da Assembleia de Deus Betesba de São Paulo,e que realmente publicou sob o título "O tempo que foge" inserido no seu livro "Eu creio mas tenho dúvidas", texto com muitas semelhanças com o original do ensaista angolano, mais parecendo ter sido nele calcado seguindo inclusivamente a mesma linha de construção. Nalguns blogs a "bacia de cerejas" é substituída por "bacia de jabuticabas" e onde se lê "desafectos", no original angolano, aparece "desafetos" em português do Brasil. Já a frase "As pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos", ela é de facto da autoria do Mário de Andrade, brasileiro,tendo Pinto de Andrade tido o cuidado de colocá-la entre aspas, desta forma salvaguardando a autoria alheia.Infelizmente o que observamos com muita frequência é o uso sem escrúpulos da Internet, por gente deturpando e plagiando trabalhos e textos alheios. Gostaria que alguém me informasse onde posso confirmar a verdadeira autoria deste texto: nalguma coleção ou livro com as publicações da obra de Pinto de Andrade? Grato ficaria.
Luis Reis

Maria Josefa Paias disse...

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Obrigada, Luís, pelas suas considerações e esclarecimentos. Agora vi que não só se atribuiu erradamente a autoria deste texto, como houve "escritores" que quase o decalcaram.

Ainda não tive oportunidade de ver todos os títulos deste escritor e político angolano - Mário Pinto de Andrade, mas já consegui ver que a Fundação Mário Soares (Lisboa) tem textos manuscritos e fotos dele.

Mão tenho o email do Luís para lhe enviar de modo privado as sugestões que lhe vou dar, mas como estes escritores também apresentam estas informações publicamente, não estarei a incorrer em qualquer inconfidência. E é o seguinte: temos um escritor e crítico literário português, que nasceu em Moçambique, mas que parece saber de tudo acerca de tudo, que é o Eduardo Pitta (eduardogamapitta@gmail.com), que também tem o blogue "Da Literatura" (http://daliteratura.blogspot.com/), que não aborda exclusivamente a Literatura, pois acompanha também assuntos políticos, de sociedade, etc., além da crítica literária. Por outro lado, temos o José Eduardo Agualusa, escritor angolano (agualusa@hotmail.com) e com a página http://agualusa.info

Se o Luís lhes enviar mensagens, via mail, sobre a sua questão, estou quase certa que até lhe saberão dizer o livro e a página onde este texto se encontra.

Obrigada e um abraço.

LReis disse...

Muito obrigado Maria Josefa, pelas suas sugestões, que irei seguir, na busca de referências bibliográficas sobre o texto "O valioso tempo dos maduros".
Um abraço e até breve.

Aníssima Duarte* disse...

Perfeito texto e perfeito blog, estou aqui a seguir.
Abraço.

Maria Josefa Paias disse...

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Obrigada Aníssima, também já lá estou :))

Abraço.

antonio miguel disse...

Primeiro, ao escritor, o meu muito obrigado pela maravilhosa escrita.

Segundo, um segundo obrigado aos diversos comentaristas pela demonstração de tamanha delicadeza pela obra, pelo autor e pela sede que têm do que é bom e é belo. Graças a Deus !! Bem-hajam