sexta-feira, 25 de junho de 2010

Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos (Se te queres matar, por que não te queres matar?)


Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da sua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres que morreste.
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…

(1926)

Poemas/ Álvaro de Campos

11 comentários:

Eduardo Miguel Pereira disse...

Maria Josefa, e se eu lhe disser que foi esta a minha porta de entrada no mundo Pessoa, aqui há muitos anos atrás.
Li e reli este texto vezes sem conta, e foi a partir daí que comecei a gostar de Pessoa.
Ainda me lembro do cheiro desse livro como se fosse hoje. E ainda lá deve estar, nas estantes da casa dos meus pais.

Manuela Freitas disse...

Um dos poemas que muitas vezes li e lia-o sempre com a intenção de me «vergastar», quando me sentia dentro de uma instabilidade emocional!...
BJs,
Manuela

Maria Josefa Paias disse...

.
Acredito, Eduardo, que, como diz, foi este poema a porta de entrada para Fernando Pessoa, uma vez que ele é de tal modo perturbador porque explicita, sem rodeios, aquilo que de facto acontece com cada um de nós, enquanto alguns gostam de continuar a pensar que quando morrerem o mundo irá acabar também, tal a importância que se dão a si mesmos, e eu conheci uma pessoa assim - a minha mãe.

Como se vê, o mundo continua, e as nossas perplexidades sobre a vida e a morte também.

Obrigada, um abraço e um bom Domingo :))

[Espero que a sua perna continue a recuperar bem para poder gozar a praia de que tanto gosta :)) ]

Maria Josefa Paias disse...

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Manuela, temo que, depois de o ler quando atravessava esses momentos difíceis, sentisse um pouco mais a sensação de desamparo, da falta de sentido de muitas coisas, pois, Fernando Pessoa, ao dizer-nos que só somos importantes para nós mesmos e que nem o Mundo nem os outros irão sentir a nossa falta senão durante algum tempo até ao total esquecimento, ou nos nossos aniversários de nascimento e da morte, obriga-nos a um exercício de humildade face ao que realmente somos que, se já não nos sentirmos suficientemente fortes e confiantes, pode ser devastador. Mas a Manuela também diz que o lia nesses momentos porque queria "vergastar-se". Nesse caso, acredito que ficaria completamente de rastos, mas que necessitaria de passar por essa espécie de provação para, de algum modo, "renascer".

A minha escolha para a sua publicação agora e não noutra altura, deveu-se ao meu postal anterior em que tratei da maratona de leitura do livro de José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, e porque transcrevi um excerto de um diálogo entre Pessoa e Ricardo Reis e este assunto era também abordado, aliás como a Manuela sabe porque comentou e que vou agora agradecer antes que me esqueça.

Obrigada, beijinho e bom Domingo :))

Benjamina disse...

Josefa

Tanto gosto da escrita de Pessoa como sinto tristeza pela sua vida. O seu talento deu-nos muito, mas a ele, pouco lhe valeu...

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"

Álvaro de Campos, em "Tabacaria"

Maria Josefa Paias disse...

.
Benjamina, por algum motivo me sinto tão ligada a Fernando Pessoa. Sou, para o melhor e para o pior, a versão feminina de Bernardo Soares. E nem é necessário acrescentar mais nada...

Obrigada, beijinho e boa semana :))

Eduardo Miguel Pereira disse...

Obrigado Maria Josefa, mas cheira-me que este ano a praia ... já era !
Parece que isto vai demorar mais do que inicialmente se suponha.
E este ano até tinha já uma série de mergulhos preparados, que é um do meus hobbies. Paciência, logo vejo os peixinhos depois !

Maria Josefa Paias disse...

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Lamento muito essa contrariedade, Eduardo :(

Mas continuo com esperança que, nem que seja em Setembro, com o seu fato de mergulho, ainda tenha a possibilidade de ir cumprimentar os peixinhos :))

Rápidas melhoras e um abraço.

Manuela Freitas disse...

Voltei Maria Josefa. Volto sempre porque sei que responde aos comentários. Fez uma leitura correcta das poucas palavras que disse. Vivi meus tempos difíceis, pensava em suicídio, até penso que em determinados momentos da vida muitos pensarão isso! O que é isto da vida? O que ando por aqui a fazer? Que é esta vida, que parece cheia de tudo e é cheia de nada? Nestes momentos buscava leituras dentro desta sintonia, mergulhava fundo! Depois passava por uma «catarse» e renascia, com periódicas recaídas.
A maturidade trouxe-me mais acomodação, mais serenidade, mas consciente do esquema da vida! Para esse dilema, «de onde vimos, o que somos, para onde vamos», não tenho respostas, vou dia a dia...até um dia!...
Muitos beijinhos e obrigada pela sua amizade.
Manuela

Maria Josefa Paias disse...

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Gostei que tivesse voltado, Manuela. Mas este hábito de responder aos comentários, por vezes com apreciações mais longas, tira-me ainda mais tempo para ir visitar outros blogues, designadamente os seus, de que apresento desculpas mais uma vez e espero que uma coisa compense a outra.

O que a trouxe aqui de novo são, de facto, questões que se colocam a quem é mais sensível e que absorve, quase como uma esponja, o que de bom e mau se passa à sua volta, e a quem necessita de respostas mais profundas às perguntas que faz, muitas vezes, a si mesma, não se contentando com a superficialidade nem da vida nem das pessoas que passam pela vida desse modo ligeiro.

Essas perplexidades, em mim, tiveram como resultado a troca do curso de Medicina pelo de Filosofia, quando me apercebi que não me bastava manter ou recuperar a saúde dos corpos, mas ir mais além, muito mais além dessa materialidade, e na altura nem coloquei a hipótese de Psiquiatria, que seria uma maneira de conjugar as duas. Mas o que está feito, está feito, e já não se pode alterar.

Obrigada e um beijinho :))

Heverton Santos disse...

Vou morrer de poesia