domingo, 13 de junho de 2010

Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos - "Aniversário" - (13/06/1888)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
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Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amaram-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
.
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
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No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
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Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
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Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando for.
Mais nada.
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Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
.
(1929)

8 comentários:

Ana Paula Sena disse...

Adoro este poema, claro, Josefa!

"...no tempo em que festejavam o dia dos meus anos..." - bons tempos :)

O blogue está muito bonito. Parabéns!

Deixo um beijinho amigo.

Maria Josefa Paias disse...

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Olá Ana Paula,

Este foi o dia em que o nosso querido poeta nasceu há 122 anos, pelo que me pareceu adequado este poema escrito por ele (como Álvaro de Campos) em 1929 :)) Foi a minha singela homenagem.

Beijinho.

Eduardo Miguel Pereira disse...

Esmagador !

Maria Josefa Paias disse...

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Olá Eduardo,

Sem dúvida, fabuloso!

Um abraço :))

Manuela Freitas disse...

Olá Josefa,
Excelente homenagem ao poeta! Eu gosto imenso desta poesia, é das tais que me emociona quando a leio. Quando a li pela primeira vez, há muitos anos e por factos vividos nessa altura, chorei mesmo! É de uma profundidade dilacerante!
Bj,
Manuela

sueli disse...

Amo este poema, ele se aplica a tanta gente, creio que muitos o vão re-escrevendo mentalmente compartilhando estas palavras, esta autoria. Engraçado é que ontem fui "vazar" a quinta de nossa propriedade onde minha sogra viveu, treze anos,meu marido não conseguiu entrar, fiquei lá toda a manhã, saí, almocei e voltei até o fim do dia. Sozinha. Não havíamos lá voltado desde 08/02/2008, dia em que fomos buscá-la após o terceiro AV; ela ainda viveu até Janeiro de 2009, mas mentalmente nos abandonara em Maio/Junho de 2008. A casa tinha uma paz enorme, estava já semi despida porque meu cunhado já retirara algumas coisas, mas a mesa de jantar, a cozinha, os sítios que mais usávamos quando eram as festas de Agosto e estávamos todos lá, o cheiro da galinha tostada, dos melões partidos em profusão - quando ainda se ia para Castelo Branco por Vila Franca e enchíamos o carro de melões e melancias na reta do Porto Alto - este poema colava-se à perfeição.
Trouxe para mim os paninhos de croché que ainda enfeitavam os móveis, o terço que lhe trouxe de Santiago de Compostela, a lembrancinha que lhe trouxe de Pádua e o santinho Padre Cruz em forma de imagem que lhe guarnecia a mesa de cabeceira.
Trarei sempre a imagem dela no meu coração e tenho agora nos olhos as lágrimas que não tive lá ontem ...
Estes dias não voltarão mais. Guardarei comigo bem guardados, divido estes sentimentos e estas lembranças com você que também aprecia este poema...

Maria Josefa Paias disse...

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Olá Manuela,

De facto este poema tem essa profundidade. E por um motivo ou por outro, em determinadas circunstâncias da nossa vida, consegue tocar-nos até às lágrimas.

Beijinho.

Maria Josefa Paias disse...

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Olá Sueli,

Gostei muitíssimo da descrição desta sua experiência de há poucos dias e da forma como enquadrou o que sentiu com este poema de Pessoa.

Obrigada e beijinho :)